Lições Sobre a Mortalidade das Estrelas

Eden Cardim
Sep 5, 2015 · 3 min read

"We are star stuff" (somos feitos de estrelas), disse Carl Sagan certa vez. Por mais de duas décadas, uma configuração de material estelar particularmente iluminada esteve no planeta terra. Uma mulher que aumentou a banda da minha conexão com a humanidade, a incrível Liane Lira era hacker, cicloativista, dançarina, tatuadora e advogada das mais inusitadas causas humanas.

Enquanto escrevo aos prantos, ouvindo as músicas mais xaropes do INXS e do Elton John (como a Liane gostaria), me recordo da minha relação com o mundo pré-Liane. Era um lugar sem espaço pra essas coisas dos fracos mortais. Chorar pela perda de alguém? Não, é preciso ser forte. Curtir música popular? Não, sou roqueiro erudito preciso tocar Beethoven e Joe Satriani. A Liane, sem querer, sem esforço, sem vaidade, esvaziou isso tudo e preencheu com amor, com carinho. Por fim, ela me conectou com a mortalidade. Me fez re-encontrar meus sonhos mais infantis e sobrepô-los aos meandros da tortuosa vida adulta.

Ela estava sempre cercada de pessoas incríveis. Não porque ela as atraía, mas porque ela transformava meros homo sapiens em pessoas, em cidadãos, em amantes. Desafiou Lavoisier. Com o pouquinho de matéria que formava seu corpo e sua mente ela materializava amor do nada. Sempre havia mais amor, mais alegria, mais iniciativa. Nos infinitos karaokês que cantamos juntos, havia uma dancinha misturando tarefas domésticas, como varrer a casa e lavar louça, com o rebolado do Sidney Magal e da Beyoncé.

Ônibus Hacker: Liane Lira no TEDxUFG

Num TED talk sobre como foi criado o projeto do Ônibus Hacker em São Paulo, ela falou sobre o desejo frustrado de ter um pônei quando era criança e sobre como precisamos desafiar o conceito de viabilidade que a sociedade moderna impõe sobre os nossos anseios e projetos. O Ônibus Hacker, cada ciclofaixa de São Paulo, cada folha no Parque Augusta, cada latinha reciclada era um pônei que algum deputado ou jurista dizia ser impossível de ser criado. Tudo isso foi criado sim, apesar das inviabilidades, com o pó de estrela da Liane.

Ônibus Hacker, uma iniciativa do projeto transparência Hacker

Sasha Sagan, filha do Carl Sagan disse num incrível relato sobre o que seus pais a ensinaram sobre mortalidade:

"Você está viva neste exato segundo. Isso é uma coisa incrível," disseram-me. Quando você considera a quase infinita quantidade de bifurcações na estrada que levam ao nascimento de qualquer pessoa, eles disseram, você deve ser grata que você é você nesse exato segundo. Pense na quantidade enorme de universos alternativos em potencial onde, por exemplo, seus tataravós nunca se conheceram e você nunca existiu. Além disso, você tem o prazer de habitar um planeta onde você evoluiu para respirar o ar, beber a água e amar o calor da estrela mais próxima. Você está conectada a gerações através do seu DNA—e, até mais para trás, ao universo, porque cada célula no seu corpo foi cozido no coração de estrelas.

A tristeza pela perda da Liane é inevitável, como humano. Há pessoas lamentando sua partida em mais de dois continentes. A Vanessa Guedes expressou muito bem o jeito Liane de ser:

Liane partiu numa sexta, não é boba. Conectou-se a um eterno final de semana, daqueles ensolarados em que a gente pulava corda na praça, a despeito dos nossos vinte, trinta anos.

Tive o prazer de ser a última pessoa a ser tatuado pela Liane em seu último final de semana em vida. A última vez que saiu de casa, foi pruma palestra sobre comunicação não-violenta. Como ser pensante, o que posso fazer é ser grato pelo tempo que dispus do seu amor, da sua inteligência. Honrar a vida da Liane é uma missão que considero essencial e perpétua para todo ser humano a partir desse momento. Questionemos a inviabilidade dos nossos anseios e projetos. Abracemos a nossa vida e humanidade. A Liane nos mostrou que a voz da estrela dentro de cada pessoa é mais sábia do que qualquer outra coisa do universo.

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