Direitos Humanos e a Necessidade de União.

Foram necessários muitas gerações e séculos para termos os Direitos Humanos como os conhecemos hoje. A verdade é que, ao contrário do que os jusnaturalistas (teóricos que acreditam em um direito natural, decorrente do simples fato de se ser gente) afirmam, nenhum direito emana da gente por sermos simplesmente humanos. Esses direitos, em verdade, foram conquistados, cada um deles. Nenhum foi concedido de graça, nenhum veio de qualquer benesse. Neste momento em que escrevo há alguém que representa alguma luta e que exige sejam reconhecidos os seus direitos mais básicos.

Lutamos para ter uma jornada de trabalho humana, lutamos pelos nossos direitos individuais e políticos, como o de votar e ter liberdade de expressão. Lutamos pelo o fim de políticas segregacionistas, pela inserção da mulher no mercado de trabalho, pela criminalização do racismo, pelo direito dos gays de formarem uma família reconhecida pelo Estado. Lutamos, no pretérito e no presente, por direitos à saúde, à educação e segurança. Lutamos para termos direito a um julgamento justo quando acusados. Lutamos para não sermos torturados, violados e apequenados pelas autoridades Estatais. Lutamos pelo fim das escravidões e exploração do ser humano por outro ser humano. Lutamos.

E de tanta luta às vezes nasce a incompreensão. E de tanta luta, às vezes, vem a falta de reconhecimento. É comum, hoje, no Brasil, este país marcado por contradições e instituições doentes, escutar que são os defensores dos direitos humanos, os mesmos que lutaram por cada direito de nós todos, por cada pedaço de nossa dignidade, os culpados pelos males que nos aterram. Virou lugar comum acusar os seus defensores pelo aumento cada dia mais terrível da violência.

Esquecem-se que, em primeiro lugar, a violência é flor que nasce da própria violência. Que ela começa na violência institucional, que criminaliza a pobreza. Que começa na violência social, que nega oportunidades e, pior, impede que elas existam. Os defensores públicos, assistentes sociais, advogados e agentes públicos que defendem o último aspecto de dignidade de um infrator, estão no final de todo o processo.

É bom se informar. Esses mesmos defensores dos Direitos Humanos são aqueles que prestam assistência social e jurídicas aos pobres, que jamais poderiam pagar por estes serviços. São os mesmos que impedem que essas pessoas sejam torturadas e humilhadas nos camburões e porões das delegacias. A cada “bandido” que, por um equívoco do sistema ou desses profissionais, voltou às ruas, milhares de pessoas boas e honestas foram socorridas.

Esse esforço de se deslegitimar os Direitos Humanos é um esforço de poder, empreendido por aqueles a quem não interessa que existam. É o esforço de grandes empresários que querem voltar a explorar os seus empregados. É o esforço de quem quer a privatização das prisões para lucrar rios de dinheiro sobre o encarceramento em massa dos pobres. É o esforço de quem não quer liberdade de expressão e consciência daqueles a quem governa e por quem foi eleito. É assim que eles querem, pouco a pouco, desacreditar lutas de séculos para depois suprimi-las.

Este esforço ganha corpo a cada dia, a cada momento, porque as forças econômicas e sociais que empreendem esse esforço estão mais fortes. Os abutres que se alimentam da desesperança estão se juntando e se tornando mais numerosos e convincentes a cada dia. Por este motivo que os que lutam devem se unir também, e parece que isto não está acontecendo. Estamos em uma era em que os ativistas, militantes e defensores da causa estão se desunindo em razão de divergências conceituais, que frente às lutas como um todo, são diminutas e desimportantes.

A luta deixou de ser sistêmica e começou a partir da subjetividade de cada um, em que cada um se tornou protagonista de sua luta individual, transformando todos os que não se identificam com ela em inimigos automáticos. É visível nas redes sociais e fóruns de discussão essa desunião. Ocorre que, mesmo existindo diferenças e pontos de vista distintos, essa união deve existir. Feministas negras, feministas brancas, LGBTTs, movimento negro, movimento canábico, ativistas pró políticas sociais, entre uma miríade enorme de pessoas que lutam, em última instância, pelos Direitos Humanos, devem se unir.

Diferenças existem e devem existir, porque apenas com a consciência de diferentes subjetividades podemos identificar problemas sociais antes invisibilizados. Entretanto, o xadrez político não espera. A coalizão de forças contra aqueles que lutam por cada direito conquistado não vai esperar os seus opositores se entenderem e se unirem. A cada afastamento entre diferentes militâncias que ocorre, um direito conquistado a duras penas é suprimido.

Portanto, o segredo para revitalização dos Direitos Humanos está na necessidade de se agir em duas frentes. 1) A urgência em se criar canais informativos acessíveis pela população que desminta e desmistifique o mitos criados por aqueles que se opõem aos Direitos Humanos. 2) A união das plurais lutas, de forma que todos que têm um fim em comum deixem as diferenças, por ora, e se concentrem em enfrentar uma problemática maior.

Os Direitos Humanos devem voltar a ser enaltecidos pela importância que de fato detêm. Devem ser celebrados de forma a se manter na memória de todos que cada direito individual e social se deve a quem lutou e luta para conquistá-lo. E devem ser celebrados por todos aqueles que já têm conhecimento de sua importância, de forma a reconhecer no outro que também luta, mesmo em meio a todas as divergências, um aliado imprescindível.

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