Politicamente Burro

Depois de muito tempo defendendo o politicamente correto e de já ter pensado, lido e observado bastante, me sinto qualificado a dizer uma coisa: VOLTA, deu errado, galera! Não pela intenção. A intenção é linda, inclusiva e se coloca em prol do respeito à diversidade do mundo. Mas, de boas intenções o inferno está cheio.

Digo em relação à pura gramática da coisa. Deixaram a semântica e as as entrelinhas de lado. Parece que as pessoas se tornaram meio burras (bem politicamente incorreto falando) e estão se atendo só a superfície das mensagens. O deboche (para mim forma ímpar de humor) tornou-se inaceitável. Sob pena de rechaço geral da guarda revolucionária da internet, o deboche tem que vir com legenda. Desculpem queridos, me recuso a explicar a piada, Il faut savoir comprendre.

O politicamente correto ignora que, para além das tacanhas piadas preconceituosas, nem todas as formas de humor foram feitas para todo mundo. Existem códigos de linguagem e estruturas que não abarcam a todos. Muitos humoristas estão inseridos em nichos nos quais alguém de fora não compreenderia em totalidade o alcance de seus discursos e piadas. Essa falta de compreensão aliada a uma paranoia de se tentar achar opressão em absolutamente tudo gera injustiças.

Achar que o Chris Rock foi racista na apresentação do Oscar, ignorando todas as peculiaridades do humor do insulto norte-americano, o contexto em que foram feitas as piadas e o histórico do humorista é, no mínimo, má fé. Leiam as análises de blogs e sites norte-americanos, os negros de lá o criticam por justamente o contrário, ter sido muito light. Fazer textões e textões por aqui sobre o “racismo” do Chris Rock numa lógica sem lógica é de um non sense louco! E isso angaria multidões. Imagina o tanto de gente que é tachada de racista, misógina e homofóbica por um erro de interpretação de um imbecil… Escrever textão também exige responsabilidade.

Estou vendo muito disso também em relação à cultura drag — ainda mais com o sucesso do reality RuPaul’s Drag Race — que está sendo severamente criticada por any militantes. Dizem que o vocabulário é ofensivo, que não podem exagerar na personificação feminina sob pena de serem misóginas, que desrespeitam as trans ao satirizarem a questão de gênero. Esquecem-se, porém, que a cultura drag se trata de puro deboche e de uma grande sátira às regras da sociedade heteronormativa. Não há nada mais contra-cultura do que drag. Queria que dissessem àquelas queens que apanharam em Stonewall como elas eram tão “opressoras” com o seu deboche politicamente incorreto.

Além de tudo isso, há outro grande problema. Quando detectada a falta de fundamentação, ou se chamada a atenção dos politicamente corretos sobre peculiaridades de determinado humor, logo lançam mão dos argumentos pessoais “Se eu, minoria x, digo que isso é ofensivo, então o é!”. Insistem em serem irrefutáveis cafés-com-leite. Entretanto, isso representa um grande desserviço nas revoluções culturais do quotidiano, pois ninguém leva a sério o café-com-leite.

Não dá, o politicamente correto e a superficialidade dessa nascente militância cibernética têm que dar espaço a uma forma mais inteligente de se pensar as coisas. Parece que saímos do maniqueísmo religioso para, agora, entrarmos no maniqueísmo militante. A realidade é muito mais do que o bem e o mal, o correto e o incorreto. Não que o mundo esteja ficando mais chato exatamente, mas com certeza está ficando mais burro.