Bachianas Brasileiras n. 1: Poluição Sonora

Eu senti um choque cultural muito grande em várias frentes desde quando me mudei por completo para o Brasil há algumas semanas, após três anos morando nos Estados Unidos. Nada se compara ao desconforto do cotidiano do brasileiro com trilha sonora. Algo que sempre passou batido desde que me conheço por gente. Dessa vez não.

Pode ser que ainda esteja me adaptando, em um processo árduo de mudança de país. Talvez também seja o meu estado de espírito de quando as coisas não estão fluindo a meu favor. O estresse e a irritabilidade prevalecem na mente e eu preciso de paz. Pode ser isso? Não sei dizer ao certo. Mas é fato, somos barulhentos. Ou permitimos o barulho coletivo — se nos compararmos a outras sociedades mais recatadas e do lar. Este é um comportamento que está enraizado na nossa cultura em que atribuímos um valor enorme ao status social. Gostamos de um tico-tico no fubá, de um vuco-vuco no barzinho da esquina, de um “ ohh juiz ladrão!”, de um “aooohh seu filádaputa, vê se dá seta!”. Temos o chamado sangue-quente latino americano. Vivemos com paixão e harmonia. Se o mundo fosse uma sala de aula, o Brasil seria a turma do fundão — muito popular, mas vai mal na escola. Somos barulhentos!

Mas quanto isso interfere no nosso bem-estar na sociedade? Dá para abaixar o volume da televisão? Por que falamos tão alto? Tem limite para a festa acabar? Quando devemos colocar o cachorro pra dentro de casa? Será mesmo que devemos depender do bom senso alheio?

Não percebemos o quanto somos atormentados no dia a dia até experienciarmos algo totalmente avesso à nossa realidade. Durante os anos que morei fora, notei nitidamente que as pessoas eram mais sensíveis a barulho e se policiam para não ser um incômodo para o próximo. Nos EUA, a esmagadora maioria das casas tem isolamento. Os materiais da construção são isolantes térmico e acústico. Tudo feito para enfrentar o clima hostil das estações bem definidas. Só assim para aguentar os invernos rigorosos a-la-Siberia e verões escaldantes a-la-Saara. Nada passa pela janelas vedadas de vidros duplo: o frio e o calor ficam pra fora, as vozes dos vizinhos são amenizadas, as ruas se calam. Tudo se aquieta. O sono é tranquilo. A vida na cidade fica lá fora.

Dentro de casa se torna um santuário — com exceção das obras dos prédios residenciais que duraram mais de seis meses no meu antigo apartamento. O silêncio também prevalece nos espaços públicos. É difícil presenciar um carro com música alta andando pela rua ou cachorros em bairros residenciais latindo incontrolavelmente. A vida também é um pouco mais monótona. Já em terras brasukas, digamos, não nos sentimos sós. Jamais.

Nasci e cresci em uma pequena cidade no interior de São Paulo (Socorro, onde ainda se vive). Mesmo em uma cidadezinha pacata somos infernizados pelos xodós das famílias brasileiras — que, para mim, são a causa número uno das inquietações sonoras. Eles são muitas vezes tratados como reis e rainhas do reino residencial, as últimas bolachas do pacote, os melhores amigos do homem: cachorros e cadelas de todas as cores, tamanhos e sabores.

Amo todo o bichinho de estimação, odeio a forma como a grande maioria da sociedade se relaciona com eles.

A vizinha da frente tem um coração bom, mas péssimo bom senso — afinal, são quatro cachorrões barulhentos. A vizinha do lado esquerdo tem uma cadela, a vizinha do lado direito tem dois cachorros mais comportados da vizinhança. A ordem natural de uma rua acontece: o carteiro passa, a bicicleta passa, as pessoas (pasmem!) andam pela calçada e leva a percepção de somente um cachorro com a vida fisiológica, social, financeira resolvida para começar o que eu chamo de “A Sinfonia do Latido”. Os quatro cachorros da frente latem, os cachorros do outro lado na rua juntam-se ao enredo, os cachorros da rua de trás acompanham. Só param quando o objeto em movimento some do campo de visão do pastor alemão do quintal frente ou do poodle do garagem do lado e continua o latido distante até desaparecerem e começar tudo de novo quando, naturalmente, o cidadão quer ir do ponto A ao B na via de acesso.

É impressionante as cordas vocais que uma criaturinha do tamanho de uma caixa de sapato tem. Isso a qualquer hora do dia ou da noite. Foda-se as visitas dentro de casa, sua novelinha das seis, sua noite de sono para mais um dia de labuta — os cachorros são irracionais, os donos idem. A comida tá boa? Solta os cachorro Cesinha! Seja Mais Você ®, menos outras pessoas.

Borá falar de outro vilão que está no segundo no ranking dos tormentos sonoros: os carros de som. Não basta a poluição visual das longa listas de letreiros nos comércio da cidades — a Lei Cidade Limpa vigente em São Paulo deveria se tornar uma realidade no resto do país. Além disso, temos que, involuntariamente, ouvir pelos carros de som quais serviços, produtos e eventos estão disponíveis. Tudo isso para aliviar os desejos das coisas que queremos ter, mas não precisamos para viver. Sociedade consumista! Mas, assim, procuramos preencher os buracos das nossas vidas vazias.

Somos interrompidos dos nossos afazeres domésticos ou profissionais para pensar na “Blusinha de apenas R$29,90 nas Pernambucanas”. Ou até mesmo na morte: Funerária Carvalho, o conforto que sua família merece. E também na sobremesa, para as donas de casa com as dietas eternas. “Lá vem o carro das pamonhas. Pamonhas caseiras. Pamonhas deliciosas. Temos também cural!”. Acuda Senhor! Isso incomoda, isso irrita, isso faz mal. Mas ainda passa despercebido. Somos anestesiados disso tudo porque não conhecemos vidas mais sossegadas que prestam sim.

Temos que considerar outro aspecto que coloca em evidência a poluição sonora em nossa sociedade: a urbanização. Em um país de dimensões continentais, insistimos em colar construções umas nas outras. E nessa loucura, de dizer que não te quero, vou negando as aparências e disfarçando as evidências… Vivemos amontoados e apertados, não somente em cidade grandes, mas também em pequenos vilarejos minúsculos onde o que não falta é espaço com terras inabitadas. Importamos de Portugal e, posteriormente da Itália, a mentalidade da urbanização medieval.

Novas áreas urbanizadas precisam urgentemente ser pensadas e projetadas para carros, espaços verdes, calçadas para deficientes físicos, etc. Mas não. Replicamos exatamente o que tem de arcaico na nossas construções. São raras as exceções de urbanização devidamente projetada em regiões mais prósperas do país. Por conta desta infraestrutura, eu consigo escutar perfeitamente como foi o dia da vizinha no trabalho — já que o quintal dela dá direto para a janela do meu quarto. Discussões, brigas familiares, até barulho da descarga eu escuto. A minha rua é uma grande família que vive em compartimentos de mesma edificação enfileirada. Prestem atenção.

Neste contexto, é possível afirmar que, em uma manhã qualquer, você — cidadão brazuka — pode presenciar dentro de sua própria cozinha, além do preparo do nosso bom arroz e feijão: uma briga familiar, uma “Sinfonia do Latido” composta por 12 cachorros, a buzina do carrinho de sorvete, o carro da Pamonha, o carro da Pernambucanas, o carro do Centro de Exposições, sete motos ensurdecedoras sem escapamentos , uma família de Testemunha de Jeová apertando a campainha e, com um pouco de sorte, um grito do ”Olha o gás!” — com uma trilha sonora que remete a infância. Enfim, todos os acontecimentos externos sem sair de casa. O que é da rua, do vizinho, é nosso por osmose, assim mesmo. Tudo junto e misturado! Viva a comunidade! Vida a vida alheia e a nossa também!

Assim como convicções cegas de certos integrantes de partidos políticos, proponho também sermos utópicos com essa nobre causa — que assumo que boa parte da população nem considera um problema grave. Temos que mudar essa cultura complacente da poluição sonora. Além de leis que proíbam carros de som e horários mais restritos para decibéis produzidos em bairros residenciais, devemos valorizar o bom senso do próximo. Um clichê cai bem por aqui: a sua liberdade termina quando começa a do outro.

Tenhamos mais respeito o em todos os sentidos. Falemos mais baixo, resguardemos nossas discussões sem anunciar para o bairro todo.e por aí vai. Que tenhamos o bom senso fundamental em tomar ampla consciência de que não deve-se ter um cachorro de médio-grande porte em uma casa que não comporte com o mínimo de espaço. A garagem da frente com carro não é moradia de cachorro. Por mais lindo que aquele Golden Retriever seja, pergunte-se: tem mesmo como dar as condições básicas para esse ser neste cubículo? Cuidando do seu quadrado talvez você consiga aliviar para seus vizinhos. E para o seu cachorro. Com certeza!

Tudo isso pra dizer: seje menas.

P.S: Obrigado Senhor por ter boa audição, mesmo que involuntária. Amém!

Este é o primeiro post da série “Bachianas Brasileiras” na qual buscarei contemplar os aspectos culturais vistos por um brasileiro que ainda se sente gringo.

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