Empreendedorismo para professores? De onde veio esta ideia?

Elita de Medeiros (1)
Eder Cachoeira (2)

Geralmente a palavra empreendedor parece ser, para a maioria das pessoas, um sinônimo de empresário. Não é bem assim. Empresário é o “dono de ou responsável por uma empresa […] [ou] agente responsável pelos assuntos profissionais de pessoas com carreira pública: empresário de cantores” (CALDAS AULETE, 2004, p. 302). Já empreendedor é aquele que põe em prática; decide e/ou tenta realizar uma tarefa […] demorada (CALDAS AULETE, 2004). Logo, não são sinônimos.

Há também outras definições que ajudam a entender o empreendedorismo: “Protagonismo social, ruptura de laços de dependência, crença dos indivíduos e comunidades na própria capacidade de construírem o seu desenvolvimento através da cooperação” (DOLABELA, 2002, p. 01).

O Empreendedorismo constitui-se em um conjunto de comportamentos e de hábitos que podem ser adquiridos, praticados e reforçados nos indivíduos, ao submetê-los a um programa de capacitação adequado de forma a torná-los capazes de gerir e aproveitar oportunidades, melhorar processos e inventar negócios.

Segundo Drucker, “Qualquer indivíduo que tenha à frente uma decisão a tomar pode aprender a ser um empreendedor e comportar-se como tal. O empreendedorismo é um comportamento, e não um traço de personalidade. Suas bases são conceito e teoria, e não a intuição” (apud CACHOEIRA, 2016, p. 13).

Tomamos inúmeras decisões todos os dias, desde levantar da cama ou continuar dormindo, a roupa que vamos vestir, se tomamos café da manhã ou não, e assim por diante. Estas decisões parecem ser automáticas, porque nem percebemos que estamos fazendo escolhas.

O curso Empretec, do SEBRAE, traz um conjunto de características do empreendedor: Busca de oportunidade e iniciativa; Correr riscos calculados; Exigência de qualidade e eficiência; Persistência; Comprometimento; Busca de informações; Estabelecimento de metas; Planejamento e monitoramento sistemático; Persuasão e rede de contatos; Independência e autoconfiança.

Agora, você deve estar pensando: e o que isto tem a ver com professores?

Nossa proposta é utilizar este conjunto de características e as premissas do ensino eficaz de empreendedorismo para o cotidiano do professor na sala de aula e para que ele possa empreender outras áreas, como sua carreira, seus alunos, suas aulas, e tantas outras.

Premissas do Ensino Eficaz do Empreendedorismo: Não há regras rígidas; Não existe um modelo único de ensino; Não existe fórmula mágica que leve ao sucesso; Empreender não pode ser imperativo; O foco deve ser nas pessoas (equipe), e não apenas no empreendedor individual; Empreender não é sinônimo de ser empresário; Empreender não é sinônimo de (apenas) ganhar dinheiro; O modelo tradicional de ensino (centrado no professor) nem sempre é eficaz; O modelo centrado no aluno, no aprender fazendo, é o que mais traz resultados; Poder não é sinônimo de sucesso.

Ao exercer a função de professor, também tomamos inúmeras decisões. Na sala de aula, até há algum tempo, o relacionamento entre alunos e professor centrava-se no poder: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Mas, na atualidade, boa parte dos alunos não aceita a relação de obediência que os mais velhos aceitaram em outros tempos. Isto torna o ato de ensinar um verdadeiro desafio para o professor, que lida com desrespeito, falta de interesse e comportamento inadequado, sem falar que muitos pais não participam da escolarização de seus filhos por razões diversas.

É neste contexto que se encaixa nossa proposta, utilizando os princípios do empreendedorismo:

1. Busca de oportunidade e iniciativa — quando nos deparamos com situações difíceis, como problemas de aprendizagem ou comportamento inadequado, precisamos ter iniciativa e tomar atitudes diferentes para alcançar objetivos diferentes: quem faz tudo igual tem sempre os mesmos resultados.

2. Correr riscos calculados — ao inovar e criar, sempre precisamos calcular os riscos. Não podemos simplesmente nos deixar levar pelas emoções. Assim, é preciso traçar objetivos e planos para alcançá-los, e isto pode ser a respeito do conteúdo, das aulas, do comportamento dos alunos…

3. Exigência de qualidade e eficiência — este deve ser um comportamento de todas as pessoas: querer o melhor de si e dos outros. Se cada um empenhar-se pelo melhor, os objetivos são alcançados mais facilmente.

4. Persistência — Nem sempre se alcança os objetivos ou se consegue executar planos ou atividades na primeira tentativa. É preciso persistir.

5. Comprometimento — Quem está comprometido com seus objetivos calcula riscos, exige qualidade e eficiência de si e da equipe (seja dos colegas ou dos alunos), mas ainda reflete para ter certeza de que a estratégia ou plano traçado pode levar ao alcance do objetivo. Caso se perceba que isto não vai acontecer, é hora de redefinir os objetivos e planejar novamente seu alcance.

6. Busca de informações — Esta característica é imprescindível ao professor: para ensinar precisamos estar constantemente atualizados e adaptados aos tempos, tecnologias, saber refletir e tomar decisões sobre novas estratégias de ensino e, para isso, é preciso obter informações.

7. Estabelecimento de metas — Este comportamento serve para todas as áreas da vida, seja pessoal, na carreira, nos planos de ensino e, principalmente, com os alunos. Se eles souberem o que devem ser capazes de fazer em determinado tempo (meta), ficará mais fácil e mais atrativo para que consigam realizar.

8. Planejamento e monitoramento sistemático — Para saber se nossos planos estão caminhando na direção certa, precisamos avaliá-los constantemente. O mesmo ocorre com os alunos: não avaliamos por meio de provas? Quando há falhas no aprendizado não é necessário realizar a recuperação paralela? Para que o aprendizado se efetive não é imprescindível utilizar outra estratégia, principalmente em razão do tempo ser mais curto?

9. Persuasão e rede de contatos — Para conseguir que os alunos se emprenhem nas tarefas, é necessário persuadi-los a realizá-las. Por meio da rede de contatos (colegas de classe e outros professores ou pais, por exemplo) é possível incentivá-los ainda mais no empenho do alcance de objetivos.

10. Independência e autoconfiança — a partir do momento em que professor e aluno utilizam estas princípios, tornam-se mais independentes e autoconfiantes, evoluindo na área acadêmica e pessoal.

Em complemento, podemos utilizar as Premissas do Ensino Eficaz do Empreendedorismo para o fazer docente:

  1. Não há regras rígidas — dentro da sala de aula, o professor tem autonomia de ação. Mesmo que as regras sejam para que os alunos se mantenham sentados nas carteiras, em fila, o professor pode mudar seu arranjo, utilizar os alunos mais adiantados como monitores, entre outras ações.
  2. Não existe um modelo único de ensino — ensinar não é apenas transmitir conhecimento, mas despertar o interesse do aluno e sua capacidade de refletir sobre o que aprende para utilizar para a vida.
  3. Não existe fórmula mágica que leve ao sucesso — também não existem atalhos: o caminho mais curto nem sempre é o melhor.
  4. Empreender não pode ser imperativo — com o perfil que os alunos demonstram hoje em dia, onde não há mais a hierarquia tradicional professor-aluno, não é mais possível trabalhar de forma imperativa, no já mencionado modelo manda quem pode, obedece quem tem juízo.
  5. O foco deve ser nas pessoas (equipe), e não apenas no empreendedor individual — o foco deve ser no grupo de alunos, não centrado no professor. O ideal é adotar o princípio de Nash, não o de Adam Smith.
  6. Empreender não é sinônimo de ser empresário — como empreendedorismo compreende um comportamento caracterizado por um conjunto de atitudes, professor e alunos podem empreender em diversas áreas, principalmente na educação.
  7. Empreender não é sinônimo de (apenas) ganhar dinheiro — ganhar, não apenas dinheiro: ganhar conhecimento, atingir objetivos, evoluir como pessoa, como profissional, como estudante…
  8. O modelo tradicional de ensino (centrado no professor) nem sempre é eficaz — conforme mencionado anteriormente, na atualidade, o perfil dos alunos já não condiz com a teoria, necessitando de diferente postura e atitudes do professor.
  9. O modelo centrado no aluno, no aprender fazendo, é o que mais traz resultados — além de despertar o interesse dos alunos, já não se pode mais formar meros repetidores, mas cidadãos capazes de refletir e agir para modificar sua própria vida e o meio em que vivem.
  10. Poder não é sinônimo de sucesso — e o poder em sala de aula também não é sinônimo de eficiência no ensino.

Respondendo à pergunta do título, então: aplicar os princípios do empreendedorismo e as Premissas do Ensino Eficaz do Empreendedorismo veio de um curso Empretec do Sebrae realizado pelos professores autores deste texto, que perceberam o potencial de tornar a atividade docente mais eficaz e menos trabalhosa para todos nós, educadores.

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REFERÊNCIAS

CACHOEIRA, E. Empreendedorismo para professores. 2016. Disponível em: <http://pt.slideshare.net/edercachoeira1/palestra-sobre-empreendedorismo-para-professores-58378823>. Acesso em 19 fev. 2016.

CALDAS AULETE, Mini dicionário contemporâneo da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.

DOLLABELA, F. Crianças aprendem na escola a importância do empreendedorismo.

Exame.com. 2002. Disponível em: <http://exame.abril.com.br/carreira/noticias/criancas-aprendem-na-escola-a-importancia-do-empreendedorismo-m0059204>. Acesso em 18 fev. 2016.

SEBRAE. Empretec: Manual do participante. Brasília, DF, 2011.

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