Brasil: até quando?

Com cuidado para não exagerar, digo, que não tinha mais de 10 anos quando fui atraído por aquele livro de capa vermelha, escrito com letras amarelo-alerta: “Brasil: nunca mais”. A capa ainda trazia ma ilustração bem sugestiva de um cara dentro de uma elipse com os braços presos ao alto e ajoelhado, funcionando, quase, como uma embalagem de remédio, que alerta para o perigo. Justamente por isso, eu tive que ler. Tenho, inclusive a certeza de que, se as caixas de remédios fossem bege ou cinza, não seria necessário deixar fora do alcance das crianças.

Toda vez que ia a casa da minha vó, abria em uma pagina qualquer e lia um tipo de tortura diferente. — importante mencionar: se você imaginou minha falecida avó como uma integrante do MR 8, lenço no pescoço e carabina em punho, dê um Crtl Z. Ela era uma dona de casa pacata semi-analfabeta que fazia bolinhos.

Pimentinha, geladeira, pau-de-arara e cadeira do dragão são alguns nomes de procedimentos de tortura que me lembro. Haviam algumas com o uso de cobras, jacaré, ratos e insetos que eram largados ou introduzidos em pessoas. Haviam torturas especificas para mulheres, outros eram usados como cobaias em aulas de torturas para uma plateia, entre outras coisas absurdas que na minha cabeça não poderia passar de ficção. Lia como se fosse “Contos da Cripta” (Um título de Quadrinhos de terror), um dia, um tio ao me ver lendo, me alertou, não lembro com quais palavras, sobre o que significava aquelas páginas, já amareladas. Lembro dele falando com outra pessoa sobre o livro de forma quase ameaçadora: “Eles pegavam qualquer um! não precisava ter feito nada, se eles achassem que tu era suspeito, te levavam!”.

Percebi que PESSOAS DE VERDADE, passaram realmente por aquilo e minha pequena cabeça começou a inflar como se tivessem colocado uma mangueira injetando hélio em meu ouvido. Me pegava imaginando involuntariamente situações onde eu ou meus pais e irmãos eramos dependurados nus, de cabeça para baixado, enquanto recebíamos descargas elétricas. E se pegassem meus pais, meus irmãos? A palavra “Ditadura” ocupou um lugar de destaque entre os vampiros, lobisomens e bruxas que costumavam amedrontar meu imaginário.

Por muito tempo acreditei que se todas as pessoas lessem aquele livro, ninguém jamais toleraria a ditadura ou qualquer tipo de tortura novamente. Hoje, porém, sei que me enganei.

Embora o livro sirva como um alerta, o que é claro na, capa-rótulo, as pessoas vão interpretar de forma a embasarem suas teses.

Algumas ficarão chocadas e não passarão de duas páginas, ignorando que isso possa existir no seu mundinho feliz, outras, duvidarão e alegarão que naquela época é que era bom, porque se podia andar a noite e os vagabundos estavam presos. E o mais preocupante é que, ainda existirá, a quem o livro sirva de inspiração.

Faço parte dos ingênuos que acreditam que é importante falar.
Falando, talvez aquela pessoa, que esteja hoje na mesma situação infantil que me encontrava aos 10 anos, deduza, que poderia ser ela um dos amigos, filhos, pais, irmão, marido ou esposa, rezando para que, a pessoa que ama muito, apenas, tenha resolvido sumir e mudar de vida e que um dia quando menos esperar, aparecerá sorrindo na porta de casa. Ilesa.

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