Minha experiência com um psicopata

Era verão e eu completava 1 ano morando na Austrália. Após passar pela insegurança de ser estudante em um país de língua e cultura diferente eu me sentia adaptado e progredindo lentamente. Havia recém encontrado uma casa para morar, onde havia me mudado faziam poucos dias.

Era um momento da vida em que eu me sentia bem com minhas pequenas realizações. Tinha um trabalho estável que me dava um meio de sobrevivência, tinha um quarto em uma casa que amava, adorava meus housemates, estava curtindo a cidade e fazendo amigos. Estava solteiro e tranquilo comigo mesmo.

Com a vida ficando um pouco mais aliviada eu comecei a marcar encontros pelo Tinder para tomar cafés, conversar e praticar meu inglês. Foi em uma noite qualquer que recebi a mensagem “Ciao Ed, sono italiano? Che belo!”. Era Luca(usarei nome fictício), um italiano da mesma idade que eu e com fotos de viagens pelo mundo. Respondi que não era italiano e que sempre me confundiam e a conversa foi fluindo. Combinamos de marcar um café para o dia seguinte.

A primeira impressão que tive ao conhecer Luca foi de que ele não era meu tipo, nem bonito e nem atraente. Mas ele então sorriu e olhou em meus olhos, e a impressão mudou. Durante nossa conversa eu percebi que havia algo de diferente em seu olhar e não sabia explicar o que era (viria a entender somente depois que esse olhar é característica dos psicopatas). Me peguei olhando fixamente em seus olhos em retribuição. Achei que era uma forma de criarmos intimidade, mas eu estava sendo manipulado e não sabia.

Luca logo de início se demonstrou uma pessoa com um passado trágico, porém superado. Segundo sua versão inicial ele foi criado pela avó, nunca havia conhecido o pai, a mãe tinha esquizofrenia e havia morrido de Aids. Uma história bem impactante, impossível não se comover. O que me chamava a atenção é que ele contava isso de forma natural, sem demonstrar nenhuma dor. Eu pensei que isso fazia dele uma pessoa forte que havia superado o passado e isso fez eu me interessar ainda mais por ele. Eu ainda não sabia que era na verdade porque ele era incapaz de sentir emoções. Essa estória me fazia ter compaixão dele e pensar em não desapontar uma pessoa que já havia sofrido tanto. Eu pensei: “Eu não posso errar com ele nunca, coitado…”.

Começamos a nos encontrar diariamente. Rolou uma empolgação enorme. Ele me enviava mensagens durante todo o dia. Fazíamos piadas, conversavamos sobre planos de vida, enfim, estávamos nos conhecendo melhor. Luca então começou a frequentar minha casa, e poucas semanas depois já havia se tornado hóspede fixo.

O que mais me chamou a atenção nesse “relacionamento” foi o fato de que ELE me procurava constantemente e me falava coisas que eu nunca havia ouvido antes. Me dizia que estava impressionado de ter me encontrado, que nunca havia imaginado conhecer alguém tão inteligente, bonito e simpático como eu. Eu estava empolgado com as palavras, mas desejando que tudo acontecesse em seu devido tempo.

Uma noite qualquer, depois de seu trabalho, ele apareceu de surpresa em minha casa. Já era tarde e ele teria que acordar em poucas horas novamente, mas pegou ônibus e me avisou quando estava na esquina que queria me falar algo importante. Eu desci para esperar no portão e o vi chegando com pressa, me beijar com paixão, olhar nos meus olhos e dizer “eu te amo!”. Foi um ataque fulminante. Começamos a namorar nessa noite.

Nessa fase dedicávamos muito tempo juntos. Saímos por Sydney, rimos juntos, tínhamos interesses semelhantes (depois entendi a técnica de espelhamento que eles usam) e a mesma paixão por idiomas e viagens. Comecei a ensinar português para ele, a pedido dele próprio.

Após 3 meses de uma relação aparentemente sadia e construtiva ele me fez um convite. Segundo ele, teria pouco tempo de visto e teria que decidir se iríamos ficar juntos por longo tempo, então me convidou a alugarmos um apartamento juntos e iniciarmos algo. Eu adorava a casa que morava e ofereci para ele morar comigo lá, mesmo que ainda resistente na idéia de morar junto. Ele insistiu por mais alguns dias dizendo que era importante morarmos somente os dois e começarmos uma vida juntos. Entre olhares, beijos e risos fui cedendo e quando percebi estava fazendo visitas em apartamentos e decidindo localização. Logo assinamos contrato, pegamos as chaves do apartamento e ele me levou para lá, ainda sem móveis, para celebrarmos. Me lembro de sentir uma profunda felicidade pelo momento que vivia e deixei isso claro para ele.

No dia da mudança da minha casa, eu parei na porta do meu antigo quarto, já vazio e com o caminhão estacionado na porta da casa, e perguntei: “Você tem certeza do que está fazendo, correto?”. A resposta foi: “Eu nunca tive tanta certeza em minha vida, amore mio!”.

Enfim nos mudamos. Eu tinha todos os móveis, e ele tinha 2 malas de roupas (vida de viajante). Minha única condição foi que ele se focasse em nosso relacionamento e deixasse o passado para trás. Ele havia estado por quase 1 ano com outro rapaz, que havia ido viajar a trabalho por 2 meses para a China e segundo Luca eles haviam “terminado” e já não se falavam mais. Ele se comprometeu, espontaneamente, a não ter nenhum tipo de contato com seu ex. Eu disse que era exagero e que respeitava a história deles, mas ele fez questão de deixar claro que o que sentia por mim era muito mais forte do que jamais havia sentido antes. Me falou milhares de coisas más que seu ex havia feito e os motivos pelo qual não havia dado certo (coitado do ex).

Menos de 2 semanas depois da mudança, em uma noite qualquer, Luca chega em casa, abre a porta e diz: “Meu ex está pedindo para voltar comigo, acredita? Que tonto…” e riu. Essa foi nossa primeira discussão. Eu disse que ele havia quebrado o compromisso que tínhamos e que não gostava dele estar trocando mensagens com seu ex sem me dizer, já que eu deixava sempre o diálogo aberto. Eu também disse que não era correto ele falar dessa forma do ex, já que ele havia sido o motivo do término e o ex não fez nada de errado. Ele se vitimizou, argumentou coisas aleatórias. Eu fui firme em minha opinião e coloquei a condição de que ele deveria imediatamente dizer para seu ex que ele estava em outro relacionamento e que isso seria respeitoso comigo e com o ex. Lembro de sentarmos na mesa para falarmos sobre isso, e após quase 3 horas de conversa e uma exaustão psicológica enorme ele não cedeu. Segundo ele, havia machucado demais seu ex e não queria machucar mais. Ou seja, preferia me machucar me escondendo. Eu dei a liberdade que ele queria, deixei ele administrar essa situação da forma que entendia ser correta, para então eu observar e tirar minhas conclusões. Alguns dias depois ele me disse que havia dito para o ex que não poderiam voltar porque ele tinha “outros planos”. O ex nunca soube de mim. Mais tarde eu descobriria que o Luca mantinha suas vítimas anteriores em uma rede, alimentando expectativas, traços comuns do Transtorno de Personalidade Narcisista (psicopatia).

Foi depois desse acontecimento que o trabalho psicológico começou. Eu não percebia, mas nossa intimidade e a forma de fazermos piadas com tudo estava dando liberdade para ele fazer brincadeiras sobre coisas que futuramente me machucariam. Aos poucos as críticas construtivas foram se tornando cobranças e argumentar qualquer coisa com ele parecia ofensivo, mesmo sendo óbvio seu comportamento errado. Foi então que comecei a ser criticado pela minha nacionalidade, pelos trabalhos que fazia na Austrália e até mesmo pela forma que me vestia. Não que ele fosse exemplo em alguma dessas coisas. Inicialmente eu usava do respeito e tentava argumentar que ele estava invadindo liberdades que eu não havia dado ainda, mas não havia barreiras para seu comportamento.

Eu comecei a me sentir sob pressão, agitado e confuso. Eu ainda não conseguia ver que o problema era estar dormindo ao lado de um psicopata. De forma geral eu estava em transe, perdido e inseguro. Eu achava que os problemas que tinha em meu relacionamento eram coisas normais de qualquer relacionamento. Ele me fazia acreditar que eu exagerava em minhas reações. Era comum eu descobrir uma mentira e questionar ele sobre isso. Ao invés de respostas claras eu acabava depresso em um canto, me sentindo culpado por “cobrar demais”.

Esse comportamento foi se tornando rotina. As tentativas de conversas respeitosas e compreensivas não tinham êxito. A exaustão de pensamentos e confusão mental foi me deixando completamente perdido. Comecei a questionar minha própria realidade. Coisas que eram óbvias e claras começaram a parecer que era loucura. Ele era tão incisivo em me demonstrar isso que chegava a fazer expressões de incredulidade quando eu tentava argumentar algo.

Aqui é preciso fazer uma observação de que eu NUNCA fui submisso a ninguém e que sou conhecido por ter uma personalidade independente e objetiva. O problema é que eu também NUNCA havia lidado com um psicopata desse nível.

No auge da minha confusão mental eu não sei explicar como, mas fiquei louco. Eu comecei a perder minhas referências, esquecer meus planos de vida, me sentir uma pessoa péssima e inferior por estar estragando o relacionamento com uma pessoa tão especial. O poder de manipulação de um psicopata é tão forte que são normalmente chamados de “vampiros sociais” exatamente porque colocam suas vítimas em transe.

Perdi a vaidade, perdi o controle e perdi a vontade de viver. Me lembro de passar noites trancado no banheiro chorando e me amargurando por ser uma péssima pessoa e não ser bom em nada na vida. Eu não havia percebido a mudança, mas aquele rapaz super charmoso que inicialmente era adorável comigo já não era o mesmo. Luca já não sorria mais. Qualquer tipo de assunto que eu tentasse conversar era tido como ofensa. Eu mesmo em minha confusão mental confrontava a verdade, e cada vez que havia o confronto um pedaço maior era tirado de mim.

Muitas vezes tentei calmamente convidar ele para conversar e chegarmos a um acordo. Eu sentia que estava machucando ele profundamente. Essa inversão é típica do jogo do psicopata, uma pena que eu só viria a aprender isso depois. Ele já não conversava mais, começou a sair com “amigos” que eu nunca vi, chegava tarde, bêbado e feliz da noite. Me ignorava e muitas vezes ria de ironia ou repetia “Você está ficando louco, você precisa se tratar!”. Então comecei a acreditar que estava louco.

A última semana foi o período mais intenso do abuso que sofri. Eu já não tinha mais nada a perder, então endureci. Já não havia conversa, nem respeito, nem intenção de resolver nada ou me dar explicações sobre as milhares de dúvidas que eu tinha. Nesse ponto ele chegou em casa um dia dizendo o quanto ele havia ganhado de salário (que era 3 vezes o meu salário), sabendo que meu visto não permitia que eu trabalhasse o mesmo quanto ele. Ele me falou de uma forma como se eu fosse preguiçoso. O abuso aumentou quando uma noite, enquanto ele trabalhava(ou badalava, não sei) eu estava em casa e recebi a polícia e divisão de narcóticos. Fui interrogado e meu apartamento revistado, sem entender nada. Me perguntaram se eu era traficante de drogas e fiquei em choque com a pergunta. Haviam recebido uma ligação anônima denunciando. Quem faria isso se ninguém que conheço tinha meu endereço? Ficam as dúvidas…

Claramente fui liberado pela polícia por não haver nenhum indício do que a denúncia tratava. Com meus sentimentos á flor da pele chorei como criança nessa noite. Quando ele chegou em casa eu esqueci completamente nossos problemas pessoais e lhe abracei. Ele me abraçou de volta, de uma forma fria. Ele não se importou como eu estava me sentindo pela falsa acusação e por ter a polícia em casa. Disse que eu estava me vitimizando, que eu era louco e isso era normal, ainda mais por eu ser brasileiro e termos fama de traficantes. Foi exatamente essa afirmação que me fez tomar a decisão de partir. No auge da minha confusão eu entendi que havia algo de muito errado acontecendo e a melhor forma de me salvar era sair dali.

No dia seguinte á visita da polícia eu comecei a procurar informação na internet sobre relacionamentos e depressão. Foi então quando caí dentro de páginas sobre psicopatas. Eu inicialmente levava isso de forma cética, mas segui lendo. Foi chocante quando li relatos de tantas vítimas narrando exatamente o que eu estava vivendo. Haviam termos e literatura específica sobre o assunto. Foi quando descobri que eu sempre tive um conceito errado sobre psicopatas, achando que são somente os serial killers em filmes. Foi quando eu descobri que eles são pessoas aparentemente normais e que estão no meio da sociedade, causando dor e sofrimento por sentirem prazer nisso.

Ainda fiquei no apartamento por 4 dias, até conseguir encontrar outro lugar. Eu já sabia que ele era psicopata, mas estava em processo de aceitação desse fato. Eu realmente queria acreditar que eu estava errado, mas os fatos eram claros, óbvios e não deixavam dúvidas. Nesses últimos 4 dias eu já não dormia com ele, dormia no sofá. Na verdade não dormia, passava a noite chorando e depresso. Ele nunca se importou de me ver dessa forma e nunca me ofereceu nenhuma ajuda. Pelo contrário, aproveitou do momento mais frágil e instável que eu vivia para mostrar quem realmente era. Começaram as ofensas, as críticas duras nas coisas que ele sabia que me machucaria e chegou a gritar algumas vezes. Fisicamente não havia como ele me fazer nada, porque sou maior e mais forte que ele, mas tenho certeza que se ele pudesse fazer algo ele faria.

Na última noite eu confrontei ele: “Você está fazendo gaslighting comigo e eu sei que você é psicopata!”. Foi um grande erro na esperança de que ele assumisse o que estava fazendo, pois uma característica dos psicopatas é exatamente não terem noção do que fazem, eles fazem isso por instinto natural e mesmo quando chegam a entender que é errado, não se importam. A reação dele para minha afirmação foi uma risada irônica de desespero e dizer que eu estava completamente louco, tão louco que agora estava culpando ele por eu ser inferior.

No dia seguinte ele acordou, se arrumou logo cedo e, colocando tranquilamente sua roupa de esporte e seus fones de ouvido, se dirigiu para a porta. Foi quando eu disse, com ele na porta: “Luca, eu vou embora hoje daqui…” e sua resposta foi “Ok, e eu vou correr” enquanto aumentava o volume e fechava a porta sem dar nenhuma importância.

Durante o dia peguei o máximo de coisas que podia (tudo era meu no apartamento) e encontrei um quarto de último minuto na mesma região. No final da tarde já havia levado algumas malas, deixando meus móveis para trás.

Naquela noite, completamente desorientado e em um lugar que eu não havia planejado estar, abri as redes sociais e vi uma publicação dele. Era uma foto da mesa posta, com apenas 1 prato e a legenda era celebração por ter se livrado do que ele chamava de “tormenta” que passou na vida dele. Foi então que começou uma nova fase que eu jamais esperaria, ele começou a criar o discurso de que havia sido vítima, mas não era muito claro o que eu realmente havia feito. Foi aí que minha confusão mental aumentou e eu comecei a me questionar. Nessa hora a validação é importante. Liguei para pessoas que me conhecem por muito tempo e que são próximas. Perguntei se achavam que aquelas afirmações poderiam ser verdadeiras. Foi nesse momento que meus amigos de longa data me disseram que eu era oposto disso. Sabendo que a principal característica de um psicopata é a total falta de empatia, percebi que eu jamais poderia ser um porque tenho empatia em excesso (inclusive é isso que atrai psicopatas, porque eles veem nas vítimas muito empáticas uma facilidade maior em destruir mentalmente).

Nas semanas depois que me mudei o abuso continuou, de forma indireta. Os amigos que antes ele havia me apresentado como “o namorado perfeito” agora começavam a me excluir do Facebook. Eu nunca soube a versão que ele contou. Amigos que eu tinha começaram a me procurar e fazer piadas dizendo que o Luca estava procurando eles para encontros. Por coincidência um amigo, que não sabia que o Luca era meu namorado antes, tinha um histórico de conversa de mais de 3 meses com o ele através de aplicativos para sexo. Ler esse histórico foi aterrorizante, porque foi a validação de que ele estava mentindo o tempo todo desde o início. Sua promiscuidade era tanta que eu fui dividir um quarto por algumas semanas e ao conhecer meu novo roommate descobri que até ele já havia saído com o Luca enquanto ele estava comigo, na nossa casa, enquanto eu trabalhava.

Esses últimos fatos já não machucavam, mas não deixavam de causar choque. Choque por lembrar das milhões de vezes que Luca olhou em meus olhos e me disse o quanto a parceria e fidelidade eram importantes para ele, enquanto ele tinha essa vida dupla. Choque por lembrar de seu olhar profundo para mim, quase frágil, dizendo como eu era especial para ele e que jamais teria vontade de estar com outro e se um dia isso acontecesse ele me contaria.

Herdei as contas do apartamento. Perdi meus móveis. Perdi meu emprego por faltar demais e estar com depressão, perdi meu melhor amigo em Sydney, que achei que me apoiaria mas o assunto foi muito pesado para ele e ele desapareceu. Me joguei para o outro lado da cidade por 1 mês, escondido, comigo mesmo para me recuperar perto do mar. Luca estava em celebração enquanto isso, como se nada tivesse acontecido. Foi um mês intenso onde me aprofundei no assunto da psicopatia, entrei em grupos de vítimas e me encontrei conhecendo termos para cada atitude dele. Aos poucos meu sentimento de culpa foi se desfazendo. Foi uma jornada intensa de auto descobrimento e reflexão.

Como tive certeza de que ele era psicopata? Alguns dias depois de me mudar resolvi ir de surpresa no apartamento, que ainda era meu também por contrato. Olhei pela janela da rua e ele estava ouvindo música, cozinhando feliz. Enviei uma mensagem dizendo que estava muito machucado e que ele estava fazendo eu me sentir mal, só para ver a reação. Ele leu e gargalhou. Bati na porta, ele abriu. Mudou completamente a expressão e fez cara de coitado, dizendo que estava com medo de mim (sem eu nunca ter demonstrado nenhum comportamento agressivo ou de vingança). Era mais uma tentativa de me sugar de volta para o sentimento de culpa. Não entrei. Educadamente perguntei se ele poderia ir até a praça ao lado do prédio para conversarmos. Sentamos ali e tivemos 3 minutos de conversa. Eu só queria ter a resposta de 1 pergunta: “Porque você quis começar esse relacionamento se não havia intenção de fazer nada do que falou?” ele tentou fazer a salada de palavras e eu firme segui: “responda claramente o que perguntei”. Tentativa de salada de palavras de novo. Fui duro e falei forte, pressionei e disse: “Olhe nos meus olhos como você me olhou no dia que nos conhecemos”. Ele olhou. “Fazia muito tempo que você não me olhava nos olhos. Agora responda da forma que tem que ser respondido para que eu vá embora e te deixe em paz”. Ele abaixou a cabeça e disse: “Eu pensei que sabia o que é o amor, mas creio que sou incapaz de sentir isso. Eu sei que a culpa é minha e isso me machuca muito por dentro. Eu sei que faço as pessoas sofrerem, mas esse é meu instinto e eu não consigo mudar isso.” Foi a única vez que senti que havia conversado com o verdadeiro Luca. Também foi uma experiência única de olhar nos olhos de um psicopata e ver sua confissão. Então me despedi e nunca mais tivemos contato.

Eu decidi que guardar rancor me faria mal. Eu já não penso mais tanto nesse assunto, mas quando lembro não há sentimento. Há um vazio. Aprendi com outras vítimas que guardar rancor poderia ser perigoso, pois me daria curiosidade de ter respostas, e seguir em sua rede de vítimas assim como os outros seguem. Además, não existe forma melhor de relacionamento do que a reciprocidade. Se ele é incapaz de ter sentimentos, então é o mesmo que ofereço em troca para ele.

Porque não me vinguei? Porque eu me igualaria a ele e seria uma batalha que me tomaria mais energias, mais tempo perdido e nenhum efeito. Eu durmo tranquilo e de consciência limpa todas as noites.

Me recuperar do transe psicológico que fui induzido foi a tarefa mais difícil que enfrentei na vida. Ainda mais por estar sozinho e do outro lado do mundo. Mas uma vez que me recuperei me senti mais forte do que nunca. Segui minha vida, sabendo que essa estória ficará marcada para sempre como um grande erro que cometi, mesmo eu não tendo culpa. A parte mais difícil é falar sobre o assunto com quem não viveu essa experiência. Ouvi muitas vezes de outras pessoas que elas jamais passariam por isso, ou que eu era também culpado por deixar isso acontecer. É difícil demais explicar que isso pode acontecer com qualquer pessoa e ninguém está imune. O tabu criado em torno do assunto é parte mais difícil da superação. Principalmente quando você diz que foi vítima de um psicopata muita gente pode achar que na verdade você é louco. Talvez seja falta de informação, pois estima-se que entre 4% e 8% da população mundial nasce com essa disfunção no cérebro não permitindo sentir empatia e isso não é um número baixo. Saber sobre psicopatia é importante para sabermos nos relacionar melhor em todas as áreas de nossas vidas. Desde essa experiência tenho observado melhor determinados traços que podem indicar psicopatas toda vez que conheço uma nova pessoa.

Eu não fiquei com medo de amar novamente como a maioria das vítimas ficam. Pelo contrário. Descobri que ser vítima de um psicopata significa ter muita empatia. Abrir-me para o amor foi a forma mais concreta de vingança que me fez superar o que vivenciei. Também decidi não criar estereótipos. Italianos são pessoas adoráveis e tenho muitos amigos na Itália. Por coincidência é um outro italiano que está habitando meu coração nesse momento. Outra questão foi descobrir-se empático e isso foi produtivo. Tenho orgulho de ser empático e comecei a praticar mais essa minha qualidade, claro que tendo maiores cuidados agora.

Luca foi embora do país. Nunca me procurou para pedir desculpas, resolver as coisas do apartamento ou dar explicações sobre os milhares de assuntos e dúvidas pendentes. Me bloqueou em todas as redes sociais, ao contrário do que fez com as outras vítimas. Acho que ficou claro que ele não conseguiria mais suprimento da minha parte depois que eu comecei a falar que sabia que ele estava me manipulando. Eu também jamais aceitaria nenhuma forma de contato hoje. É parte do tratamento estar decidido a cortar qualquer tipo de contato para sempre. Um amigo me enviou uma foto dele viajando por outro país recentemente, ao lado de um rapaz que parece ser muito simpático. Desejo que o rapaz seja forte, porque psicopatia não tem cura.