A coragem de ser ordinário

Edgar Paulino
Aug 25, 2017 · 3 min read

Vivemos em uma cultura onde o sucesso e as realizações pessoais são o ideal máximo. As preocupações com a vida interior, com a alma, com as pequenas conquistas que brotam do silêncio íntimo do ser lançando raízes na obscuridade de si mesmo e da existência, sugando nutrientes das profundezas e crescendo paulatinamente, de modo imperceptível, há muito foram deixadas de lado. Almejamos a todo custo a conquista visível, o ouro reluzente, o diploma, o casamento, o carro, o emprego ideal…

Em uma sociedade com tal carga axiológica, a própria religião cristã, a cristandade, adaptou sua mensagem. De modo um tanto quanto inconsciente, a noiva de Jesus colocou sobre a cabeça do noivo uma mitra de louros com as insígnias de Dionísio e Mercúrio. A simplicidade cristã, o anonimato, a intimidade e vida espiritual cederam lugar a um conjunto de práticas religiosas. Ser cristão tornou-se sinônimo de congregar em uma instituição eclesiástica, envolver-se ativamente em ministérios, células, projetos sociais e uma série de questões que supostamente são o desígnio divino. A santificação não mais é um processo fruto do relacionamento com O Eterno, antes, um conjunto de práticas acéticas que envolvem, sobretudo, privar-se do pecado terrível: qualquer um de cunho sexual.

Quão desafiador é para alguém ser autêntico em um mundo que valoriza tanto os black mirrors e as aparências! Onde o sucesso visível e os ideais revolucionários são elevados à realizações máximas, quanta ousadia é necessária para ser ordinário!

A fé da qual o Evangelho de Jesus fala a nós, homens comuns, não é aquela que irá nos tornar missionários famosos ou grandes homens e mulheres visivelmente comprometidos com a causa de Cristo diante das nações. Indago-me se, muitas vezes, nosso desejo de servir ao Senhor ou de fazer algo para Ele, para além de ser legalista, não é também uma outra forma de servir ao deus deste século, transfigurada em anjo de luz e suposto zelo pelo Evangelho. Somos semelhantes aos judeus, querendo um Cristo revolucionário e libertador e nos esquecendo que Ele veio numa manjedoura. Desprezamos a manjedoura da ordinariedade, onde Cristo quer nascer em nós, pelos palácios de Herodes. Indagamos como os discípulos: “pode vir alguma coisa boa de Nazaré?”. Pode O Eterno se glorificar e cumprir seu desígnio não quando sou um missionário ativo na África, mas um pai de família trabalhando para sobreviver com um ínfimo salário mínimo? Pode Deus ser glorificado não pelo meu envolvimento em um ministério, mas pelo meu cuidado com as pessoas que convivo no meu dia a dia? Posso glorificá-Lo não como um famoso pastor que ministra a casais, mas como um solteiro que vive em Cristo a plenitude de si e da vida?

Quão longe nos afastamos do Evangelho! Não apenas construímos uma suntuosa e sublime estrutura eclesiástica ou sistematização teológica, mas fizemos da simplicidade da mensagem, do engajamento existencial e compromisso apaixonado, uma espécie de ativismo materialista, um business teológico. São necessárias a sobriedade e a coragem cristã não para ser um bem-sucedido mártir que morre pela fé, mas um homem ordinário, sem grandes realizações, sem grande engajamento e revoluções sociais, mas que se satisfaz inteiramente em ser o homem que Cristo o convida a ser. Sem ressentir-se da vida. Sem sentir-se um fracasso. Não por conformismo ou ceticismo, porém, pela convicção íntima de se estar absolutamente agindo de acordo com a vontade de Deus, de seu propósito específico para a própria vida.

Onde todos queremos ser mártires e missionários, quem de nós terá coragem o bastante para ser apenas um “homem mediano”, um pai de família, ou apenas um “ninguém”?

Em “Oração” dos Arrais, a canção diz “e que o meu nome morra com meu corpo e que o de Cristo permaneça em tudo”. Sempre sou confrontado ao ouvi-la. Com meu desejo de imortalidade e vão reconhecimento dos demais a la “Augustus Waters”, meu maior ato de coragem não seria ser um herói bíblico. Seria apenas ser mais um nome em branco na história. Apenas um nome qualquer de um desconhecido numa lápide no cemitério.

Que o Senhor nos dê coragem de ser, nada mais, nada menos, que nós mesmos. Coragem de ser ordinários!

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Edgar Paulino

Written by

Existência poética. Maltrapilho coxeante e rebelde vencido pela graça. Homem de dores. Aprendiz de feiticeiro.

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