Autobiografia Maltrapilha

Meu nome é Edgar. Costumava dizer que “sou o Edgar”, mas hoje encaro as coisas por outra ótica. Edgar é meu nome, mas não é quem eu sou. Recebi esse nome do meu pai. Ele viu em um filme e gostou. Não sei qual filme ou como era a personagem. Só sei os fragmentos que minha mãe me contou e que acreditei. Então eu recebi esse nome e passei a responder e me identificar por ele, assim como o farei por, provavelmente, toda a vida. No entanto, esse nome não diz tudo sobre mim. Há algo em mim que se furta ao meu nome. Há um eu mais profundo que é maior que eu.

Para dizer a verdade, eu tenho outro nome. Só não sei qual é ainda. Vou descobrir quando me encontrar com meu Senhor face a face. Vou receber esse nome Dele e vai ser algo nosso, um segredo íntimo de casal.

Meu nome, minha história, meus sucessos e fracassos dizem sobre mim, mas não contam a história toda. Sei que, das palavras que conheço, há algumas em particular que quase me definem e eu amo. Amo a palavra “maltrapilho”, aprendida e apropriada de um dos meus autores favoritos (de quem inclusive acabei recebendo influência do estilo de escrita) Brennan Manning. A palavra “deslocado”, uma das que melhor me define porque não interessa o grupo de pessoas, eu simplesmente não pertenço a nenhum. Sempre há algo em mim que reluta em pertencer ao que quer que seja, senão à relações íntimas e profundas, no caso, outro ser e eu. Sou ótimo em ser três (O Eterno, eu e mais alguém). Passou disso essa sensação de ser deslocado se faz presente.

A expressão “lobo da estepe” de um romancista alemão, Hermann Hesse, me é extremamente cara. Há algo nesse eu que chamo de Edgar que é extremamente lupino. Algo selvagem. Animalesco. Solitário. E creio que não é à toa que sou fascinado pela lua. A solidão é minha eterna companhia. Não se trata para mim de estar com outros ou não. Geralmente quanto mais companhia, mais sozinho me sinto. Por isso gosto de estar a sós comigo ou com um grupo seleto. Seleciono bem minhas companhias. Gosto de nudez e intimidade. Bailes de máscaras não costumam me atrair. Amo pessoas de osso, carne, sangue, suor, fezes, urina e ejaculações. O resto não me atrai.

Solidão para mim é questão de ser. Só eu sou eu. Essa dor e delícia de me suportar, de me ser, de TER que ser e não poder fugir de mim, ainda que seja impessoal às vezes, é somente minha. O Eterno me fez, me conhece, me habita e é Nele que sou. Mas só eu me sou. O que meus olhos veem no mundo só eles veem. Que grandioso! Que terrível! Que delícia! Que miséria!

Sou uma contradição ambulante. Há momentos em que me amo profundamente. Em outros me odeio e dá vontade de rasgar a pele e fugir. Porém, me persigo para onde quer que vá. Ainda não sei se gosto de caminhar para me encontrar ou para fugir de mim. Talvez seja um pouco dos dois.

Às vezes subo ao terceiro céu na quinta à noite e despenco ao sétimo inferno na madrugada de sexta. Há dias em que sou tão casto que faria um anjo ter vergonha (isso nunca aconteceu, mas a esperança é a última que morre… hahaha). Outros em que sou tão libertino que os céus escurecem para esconder das hostes celestiais tamanha devassidão. Em alguns momentos sou tão companheiro que chego a incomodar de tão presente. Em outros, sou tão distante que me recolho a minha fortaleza da solidão e é impossível me fazer vir para perto.

Não sei quantas almas tenho. Nem sempre confio na minha memória e nos meus sentidos. Sou relativamente aberto a todos que me procuram e procuro muitas pessoas, mas não deixo ninguém entrar na minha vida com facilidade. Sou seletivo com meu coração e sou eu o suficiente para reconhecer isso. Não digo “eu te amo” com facilidade ou de modo leviano. Não costumo mentir e inventar histórias, embora tenha recebido essa fama de modo injusto. Não tenho pretensão em desconstruí-la. O Eterno sabe e me conhece.

Já amei com tudo. Já tive o coração destroçado. Já me fechei ao amor. No momento não tenho interesse em me abrir novamente, mas possivelmente o farei um dia. Existo de modo poético e minha sensibilidade não é fachada. Os detalhes, o simples me fascina e me ganha ou me perde. Aprendi a deixar ir quem quer ir e valorizar quem quer ficar. Preciso do meu espaço para uivar sozinho. Amo beber café e fumar um cigarro. Cigarros para mim são poemas e orações.

Amo Rock’N’Roll. Amo escrever. Costumo ser sincero e bancar minhas escolhas. Sou hipócrita. Sou um impostor. Cometo pecados bobos e erros infantis. Às vezes uso máscaras fingindo que não e sou falso sendo sincero. Costumo me auto enganar mais que a todos. Troco a eternidade por momentos fúteis de prazer. Tenho afetos em desarmonia. Meu mundo interior por vezes é um caos. Tenho amores mal resolvidos, questões em aberto, feridas que me tiram o sono e vez ou outra bebo para me esquecer de mim. Não tomo porres. Apenas curto dar uma relaxada e fingir que não estou ali. Embora sempre esteja.

Às vezes me alieno em filmes e séries. O entretenimento me auxilia a não ter que me encarar nos momentos em que me odeio. Não é baixa estima. É apenas minha dialética humanidade. Ou talvez seja de fato baixa estima. Mesmo dizendo que não, muito do que faço é para ser aceito, querido e amado. Só porque me esqueço que já sempre sou. E de um jeito que sequer posso mensurar.

Tenho uma ligação forte com a mística. O Eterno não é um velho que encontro num templo todo domingo. É uma força viva que invade meus dias. Um Amor Violento e irresistível que me persegue enquanto tento fugir. Minha Eterna Delícia, meu Doce Amigo, meu Apaixonado Amante. Odeio Ele talvez do mesmo modo como O ame. Talvez mais. O que importa é que Ele sempre vence. A graça sempre me derruba e me atrai. E a atração é mais forte que um corpo curvilíneo e nu de mulher. E ah, como eu amo um corpo de mulher…

Meu nome é Edgar. Quem sou além disso ainda não sei bem. Sou um maltrapilho. Um deslocado. Mas acima de tudo, o que há de mais profundo em mim é isso: sou um filho amado do Aba!