Cemitério
Hoje fui ao cemitério. Visitei nós dois em cada sepulcro. Comecei pelo lugar do nosso primeiro encontro. Você estava enterrada com aquela saia florida e com as botas que usou naquele dia. Eu estava com o rosto em decomposição, mas ainda era possível ver aquele sorriso idiota no rosto e também fazia-se presente o ar de surpresa daquela conexão semi-mística. Nossas mãos estavam atreladas e sua cabeça repousava sobre meu ombro. Dentro do caixão, além de nossos corpos haviam duas caixas de “Bis”, três livros estranhos e uma garrafa de suco de uva, já que você disse não gostar de vinho, embora tenha tentado me agradar ao levar algo similar.
Lá estavam enterradas risadas, cumplicidade, um encontro muito adiado e finalmente consumado, bem como o começo de nosso futuro juntos. Foi naquele dia que tudo mudou. Foi naquele dia que eu soube que seria épico. E foi.
Depois visitei as duas praças. Aquela na qual demos nosso primeiro beijo como namorados, depois de algum tempo sem nos vermos. Dessa vez você estava enterrada de calça jeans e trazia consigo uma pesada mochila e eu continuava me decompondo com a cara de idiota, um sorriso ainda mais bobo e aquela camisa preta surrada. Junto de nossos corpos semi-cobertos de terra, havia um retrato de uma cauda de baleia, prova de uma sincronicidade inexplicável, uma câmera fotográfica e, em um pequeno vidrinho seguro em uma de minhas mãos, havia água daquelas poças onde contemplamos nosso reflexo e espelhou-se nosso rosto na foto. Havia também uma foto daquele beijo tímido e ao mesmo tempo voraz, mas, sobretudo, apaixonado.
Na outra praça estávamos enterrados com muitas roupas. Muitos encontros diferentes. Era uma espécie de “Bosque entre dois mundos” para nós. Nosso ponto de encontro para depois nos encaminharmos para outro lugar. Dessa vez estávamos abraçados e seus longos cabelos castanhos cobriam meu rosto. Eu poderia jurar que ainda conservavam aquele mesmo perfume que me inebriava. Um sorvete derretido jazia conosco no caixão e uma pequena placa com os dizeres “Sempre” gravados em ambos os lados.
Prosseguindo com minha procissão solitária e necrófila, deitei-me no sofá da sala de casa, onde, tantas vezes, nos aninhamos abraçados assistindo um filme e fazendo cena. Você estava deitada no meu colo, com uma blusa rosa que para mim tem um significado todo especial. Estava vestida com aquela calça cinza que costumava usar para dormir aqui. Eu estava somente com o short do pijama e trazia meus braços envoltos em você num abraço fusional. No caixão estava um “Kindle” quebrado, uma cópia impressa de Bukowski e um dvd que já não funcionava mais de “O Sol é para todos”. Acho que não nascerá mais para nós dois juntos.
Poderia falar como foram minhas visitas ao banheiro, ao velho recinto rural, diante daquele hotel barato que você sugeriu passarmos a lua de mel, do ponto de ônibus que cada vez levava embora um pedaço maravilhoso de mim e, por fim, do lugar onde morremos juntos pela última vez. Mas creio ser melhor não. Algumas despedidas funcionam melhor quando permanecem no anonimato.