Dúvidas

Confesso que sou cheio de dúvidas. Cheio de questionamentos e questões irrespondíveis. Me pergunto sobre o que é o amor, a natureza da fé e sobre a morte. Todas minhas questões existenciais podem ser enfeixadas e reunidas sob um único significante: Deus.

Seja a problemática do amor, isto é, de sua natureza, sua efemeridade ou eternidade, sua imutabilidade ou permanência, sua inexorável dialética; seja a problemática da fé, da ausência quase absoluta de certezas, dos enganos inevitáveis do coração e da razão, das apostas que dão muito errado ou muito certo, do salto no absoluto vazio ou na obstinada certeza medrosa; seja no completo esquecimento e nulidade de sentido ou no abraço caloroso da eternidade, no convidativo suicídio ou no sentido de viver; todas essas questões, para mim, desembocam no Oceano insondável chamado Deus.

Mais que um velho caduco e arcaico de uma religião antiga e vazia, Deus ou o Senhor, como prefiro chamá-Lo mais intimamente (ou o Eterno), é minha questão de vida. Viver ou não para Ele. Amá-Lo ou desprezá-Lo. Viver a vontade Dele ou a minha. E esse conflito vitalício se expressa nas mínimas coisas, desde continuar sendo um ermitão egoísta apaixonado com a literatura ou ser um pouco mais empático e dedicar um tempo à meu irmão.

O Eterno ao qual me refiro se chama YHWH. Mas para mim também assume certa faceta de Abraxas. É Deus, mas também é demônio. É bem, mas também é mal. Temos de convir que uma faceta sem a outra soa estranho. Sem dia não há noite. Sem oposição de contrários dificilmente se discerniria algo. E essa complexidade paradoxalmente divina me desconcerta. Confesso ter muita dificuldade em conciliar o eterno ao temporal. Aquilo que tem fim ao que é verdadeiro. É estranho lidar com verdades efêmeras. Com coisas que acabam. Com amores que acabam. Vidas que acabam. Eu’s que acabam.

Tenho muitas dúvidas sobre Deus. As caixinhas teológicas me ajudam com algumas de minhas perguntas, mas mesmo elas não engendram todas as respostas. Se fosse para me definir utilizando figuras da ortografia, definir-me-ia como reticências seguido de interrogação.

Senhor, por favor, senta aqui. Vamos conversar. São tantas dúvidas… Será que está me ouvindo?