Escrita
Escrever é sempre reafirmar minha solidão. Os outros podem ler as palavras que escrevo, mas não podem ler o que sinto. Podem ler as entrelinhas, a ironia e as técnicas de escrita que emprego. Mas jamais poderão ler quem sou de fato. Escrever é um vício solitário. É uma paixão egoísta travestida de ato social. O escritor engana tanto a si quanto à quem o lê. Faz firula solitária se valendo da palavra.
A escrita é arte feiticeira. E sempre fui atraído pela feitiçaria, pela magia. Um dos motivos pelos quais amo Harry Potter. E o encantamento sempre se dá pela palavra. A palavra conjura vida e a desfaz. (Quem nunca tentou matar alguém com um Avada Kedavra que atire a primeira pedra).
Escrevo porque sou só e amo sê-lo. Mas também porque às vezes isso me incomoda. Às vezes é ruim não ter para quem contar as efervescências que se passam dentro de mim. Conto para o Eterno minhas estranhices e heresias. Meus amores mal resolvidos. Minhas esperanças infantis. Meus questionamentos rebeldes. Meus ressentimentos ressentidos. Falo com Ele sobre os silêncios e solidões dos desertos. E Ele me entende bem. Ele sabe. No entanto, embora Ele esteja mais entranhado em mim que minha pele, sinto falta de meter o dedo nas chagas e no lado às vezes. Sou um pouco Tomé, afinal. Por isso escrevo.
Não por acaso o cristianismo também é uma religião “do livro”. Escrever é confeccionar um corpo onde Deus possa habitar. É se valer do poder criador do Criador para lhe criar um local de habitação cigana. Deus habitando o texto. Deus habitando a palavra. Deus sendo escrito.
Escrevo para criar corpos para Deus. Para sacrificá-los em Seu altar. Para dar-lhe outra carne e dizer que o Verbo habitou entre nós. Escrevo porque sou um homem de pequena fé. Escrevo porque Deus também é escrita.