Eu desisti de você

Edgar Paulino
Feb 24, 2017 · 4 min read

Eu desisti de você. Já faz algum tempo. Foi mal. Mas não dava para continuar fazendo o que eu estava fazendo comigo. Talvez você entenda. Talvez não. Você desistiu primeiro. Você me deixou primeiro. Será que você ainda se lembra o tipo de loucura que eu era capaz de fazer só para te ver? Já fui o cara que pulou o muro do seu prédio para chegar de surpresa e te arrancar um sorriso. Para poder olhar seus olhos. Para ver nossas mãos se encaixarem ao acaso. Não fui o cara que você teve coragem de apresentar para sua mãe ou suas amigas. Te acompanhei na sua pior fase, na sua fase de transição. Na sua fase de redescoberta. Eu fui uma espécie de muleta que você jogou fora no lixão assim que começou a deixar de mancar.

Dói olhar para o passado e não saber o que da nossa história foi real. Para os outros você diz que nunca houve nossa história. Que foi uma história que inventei. É isso que você diz para o seu sobrinho? Que a voz que ele ouvia do outro lado do telefone era de um estranho qualquer na rua? É isso que você diz para si mesma? Que o boquete que você me fez num velho parque foi apenas você chupando um galho de árvore? Erramos muito um com o outro. Mas, no meu caso, o amor sempre falou mais alto. Eu teria morrido por você. Ou melhor, eu morri por você. Morri em muitas coisas para ficar ao seu lado e morri de verdade quando você decidiu partir. Você sempre foi egoísta. No entanto, poderia levar um pouco mais em conta os sentimentos dos outros.

É triste, mas não conservo boas lembranças de você. Nem consigo engolir os elogios que aqueles que não te conhecem como eu te dirigem. É triste olhar para um amor do passado e sequer conseguir lembrar do que havia de bom. Havia coisas em você que eu gostava muito. Eu te amava com tudo. Você era a mulher com quem escolhi passar a vida. Será que um dia você entenderá o peso que isso tinha para mim? O peso que tinha eu te apresentar como minha “futura esposa”? Não é para te fazer sentir culpa… Mentira. É sim. Por trás dos meus mecanismos de defesa, das minhas formações reativas, gostaria que você entendesse pelo menos um pouco o quanto me lesou. Sabe quão difícil é para mim confiar em outra pessoa? Quão difícil é deixar alguém entrar? Você tem alguma ideia do que me fez? Do quanto me machucou? Você sequer pensou nisso? Isso alguma vez te fez perder o sono?

Quando passamos lado a lado sem nos olharmos nos olhos, você sente um pequeno nó na garganta? Lembra que eu já fui a porra de um amor? A porra de um amor que você engoliu após sarrarmos no meu banheiro?

Eu desisti de você. Desisti após perceber o quão fácil foi para você desistir de mim. O quão fácil foi para você se envolver com alguém, meses depois de me dizer que precisava ficar um tempo sozinha para se achar, já que sempre me teve por perto. É isso que vai dizer a ele quando for terminar também? Ou vai se casar e fingir que eu fui só um erro louco de uma fase rebelde da sua juventude? Para qual porra de deus você ora que sequer te incomoda em relação à isso? Vai tratar da alma dos outros sendo que você sequer consegue ficar sozinha com a sua?

É fácil chamar as pessoas de amor. Difícil é pagar o preço por amá-las. Difícil é amar para além das palavras. A dificuldade que tenho em desistir de você, em te superar, me mostra minha dificuldade em lidar com perdas significativas em vida e o quanto te amei. Apesar disso, eu desisti de você. Vez ou outra me lembro. Vez ou outra falo de você com alguém. Vez ou outra tenho saudade, principalmente quando é para dialogar sobre o Reino e a profissão. Porém, eu desisti de você.

É a mentira que conto a mim todos os dias: eu desisti de você. E continuarei contando, até que seja verdade. E-U-D-E-S-I-S-T-I-D-E-V-O-C-Ê. EU DESISTI DE VOCÊ. Eu desisti de você.

O problema é que quando se ama alguém como eu te amei, nunca se desiste de fato. E não é por você que estou sozinho. É por mim. Eu desisti de você. Ainda te amo, em parte. Porque, em parte, amores morrem, mas em parte, não morrem. Te amo, mas não gosto mais de você. Te amo, infelizmente, sem querer te amar, te odiando, mas não posso tolerar a pessoa que você é. Foi mal. Eu desisti de você. Espero não desistir de desistir. No entanto, se um dia quiser me fazer desistir de desistir, depois que fizer um esforço hercúleo, simplesmente me mostre que desistir de você não vale a pena. Caso contrário, eu desisti de você.

Edgar Paulino

Written by

Existência poética. Maltrapilho coxeante e rebelde vencido pela graça. Homem de dores. Aprendiz de feiticeiro.