Quem sabe?

Quem sabe a gente se esbarra
 um dia desses
 numa esquina qualquer
 sem fingir que não se conhece
 sem esse jeito blasé.

Despimos ali mesmo
 no meio da rua
 as roupas e as máscaras
 e fodemos feito loucos
 só para lançar fora
 tudo isso que nos fode
 e nos mata aos poucos.

Quem sabe o mundo muda
 e se despedaçam
 os jogos de liquidez e de orgulho
 o mundo deixa de ser tão etéreo
 adquire alguma solidez
 e se torna música
 ao invés de barulho.

O não se torna um sim
 não um possível depois
 ou um talvez
 e voltamos para o início
 no jardim
 onde nos encontrávamos 
 nós três.

Quem sabe voltamos no tempo
 antes de nos tornarmos adultos
 e corremos juntos feito crianças
 que trocam carícias ao invés de insultos.

Recebemos visita
 na viração do dia
 o mesmo Verbo que compôs o poema
 e que encarnou no ventre de Maria.

Quem sabe nós cansemos de brincar de religião
 deixemos a Sé de lado
 e nos entreguemos à Relação?

Tiramos Deus da caixa
 queimamos toda placa e toda faixa
 e aprendemos a olhar um ao outro como irmão.

Quem sabe descobrimos o botão do restart 
 e nossos pedaços quebrados
 se tornam num encaixe
 que orem juntos
 uma mesma oração?

Quem sabe?

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