Um relato sobre depressão

Edgar Ignácio
Aug 23, 2017 · 3 min read

Tive depressão pela primeira vez em 2016 (exatamente há um ano), resultado de um trabalho abusivo, onde não bastava o que eu fizesse nada estava bom, ocupava duas posições, me desdobrava em dez e ainda assim não era suficiente. Somava-se a isso um relacionamento inseguro, onde eu sentia que mais me doava do que recebia, desequilíbrio. Receita perfeita pra ansiedade e pro medo.

Na época recorri aos remédios, que só me pioraram. Até que encontrei uma terapia chamada Kinesiology, que foi a responsável por me ajudar a melhorar na época. Um tempo depois, meu namoro foi encerrado e eu consegui mudar de trabalho. Aparentemente o macro também colaborou para que eu saísse dessa.

Um ano se passou e os sintomas voltaram, na última semana tive a crise de pânico mais assustadora pela qual já passei. Você se vê sozinho em casa, e todas as coisas possíveis passam pela sua cabeça. “Eu moro no 12º andar, deve ser suficiente”, “O metrô está na próxima quadra, os trilhos não devem ser tão ruins”, “Cortes? Cortes não, podem levar a dor emocional e psicológico agora, mas irão continuar”.

A terapia ajuda, esclarece algumas coisas e até te oferece um caminho, mas são caminhos longos com passos curtos e lentos, os frutos do tratamento são colhidos lá na frente, mas você sente que não tem tempo, quer que tudo isso passe logo, a ansiedade piora tudo. Nesse meio tempo você tem duas escolhas, tentar olhar pra outro lado e ignorar tudo isso ou bater de frente. Eu bato de frente, eu preciso enfrentar isso e vivenciar o “luto”, é da minha personalidade não deixar as coisas de lado e saber que quando isso é feito, se volta contra mim cinco vezes pior.

Recentemente tenho visto na minha bolha uma série de pessoas como eu, homens gays, se entregando a depressão, eu não os conhecia mas os relatos das mortes chegaram a minha linha do tempo das redes sociais. Eu queria poder ter ajudado todos eles. Eu tenho medo que eu seja o próximo, afinal quando a coisa bate, o controle parece estar muito longe, ou nem existir.

As drogas e o álcool se tornam válvulas de escape, que te ajudam a aliviar toda a dor, mas por apenas algumas horas. O risco de vício é gigante, uma vez que você pode entrar num ciclo onde apenas essas válvulas de escape colaboram e quando você percebe, pode ser tarde demais.

Acredito que o número grande e o fácil surgimento de casos de depressão e de outros distúrbios mentais no circulo em que vivo (gay) deve-se aos traumas que vamos acumulando desde a infância por “sermos diferentes”. Inclusive existem estudos comprovando que, não só tais distúrbios mas também que o número de câncer e alergias, por exemplo, são mais frequentes em homossexuais do que em heterossexuais.

A vida vai nos mostrando que nosso apartamento bonito e bem localizado serve mesmo para nosso conforto, e só. Que o corpo melhor definido e mais próximo dos padrões estéticos impostos pela sociedade não nos traz muito mais do que tínhamos antes da academia, a não ser olhares que vão te proporcionar prazer momentâneo e nada demais. Não estou dizendo que devemos abrir mão de conquistas como estas, jamais. Só não devemos dar tanta importância assim, se fossemos mais empáticos e mais amorosos, talvez esses tantos que já se foram ainda estariam aqui, eu tenho certeza que eles queriam estar. Eu quero continuar aqui.

Precisamos parar de nos matar.

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