A simplicidade da morte

Com a morte abrupta de um jovem boa praça, ambicioso e promissor bate uma sensação, um tanto generalizada, de que algo muito errado aconteceu, de que houve uma subversão na ordem das coisas. Primeiro deveria morrer os avós, depois os pais e, por último, os filhos quando já fossem avós. Um acidente ou um infarto fulminante nos faz lembrar que essa ordem de partida reside no quintal dos nossos desejos e, eventualmente, reside também no da realidade. A morte pode chegar a qualquer instante. Baixemos a cabeça.

Apesar da dor quase insuportável que o falecimento de uma pessoa querida nos provoca, creio que seja um bom caminho perceber a morte com uma dose a mais de simplicidade. Não a vejo encapuzada com uma foice na mão. Tampouco a encaro com mais tranquilidade por crer que a vida continue em outra dimensão. Não acredito e nem desacredito que haja vida após a morte, mas, quando chegar a hora, torço para descobrir que sim. Veja só: também não quero morrer. Hoje, consciente dos meus limites, escolho entender a morte, assim como o nascimento, apenas como parte da vida. Bem simples.

A vida, porém, não fica a dever em mistério. Tentar explicá-la é um esforço inútil que nos serve para elencar um universo de perguntas sem respostas. Talvez entrássemos em uma pane filosófica se religiões e ideologias não nos acalentassem com algumas verdades, ainda que precárias. Portanto, sejamos simples outra vez. Além da morte, a capacidade para aprender é o que há de comum na vivência humana. Qualquer um que seja classificado como gente viva, mesmo com limitações, aprende a respirar, a utilizar o corpo e a comunicar-se. Aprendemos, aprendemos, aprendemos, morremos e já não há mais nada para aprender aqui.

As oportunidades para o aprendizado estão ao nosso redor a todo instante. Quase sempre não escolhemos a lição e nem a forma pela qual a recebemos. Sequer nos percebemos alunos. Seja com amor, com dor, enfim, tudo na vida pode se tornar um instrumento de aprendizagem, todos podem ser mestres e aprendizes involuntários. Nesse contexto está a morte. Ela trabalha para a vida. Ao perder pessoas queridas eu aprendi a seguir em frente de uma nova maneira, porque, como professora, a morte nos convida a uma única direção: renasça! Assim a vida continua.

Estamos ligados uns aos outros, por mais que tentemos individualizar a nossa existência. Nascimentos e mortes fazem diferença na evolução da humanidade, nem que seja somente no âmbito em que a pessoa que chega ou que vai está inserida. Ainda assim, eu continuo não querendo morrer e também não quero a morte trabalhando perto de mim. Se não pode ser desse modo, prefiro então que todos morram bem velhinhos. Desejo possível, embora, não menos fantasioso. A verdade é que sentirei muita dor quando a morte levar alguém que amo. Ficarei baqueado, derrubado. Depois, quero respirar fundo, como fiz quando cortaram o meu cordão umbilical. E seguirei para aprender a andar com uma companhia a menos.

Quando chegar a minha vez, deixarei um par de sandálias, papel, lápis, lousa e giz.

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