Aprender a ficar no casamento

Se as rugas ainda não lhe enfeitam a face, você não deve se lembrar que durante quase todo o século passado o casamento em nossa tribo consistia ou tinha a pretensão de consistir na união afetiva, sexual, monogâmica e eterna entre um homem e uma mulher destinados a juntos constituírem família. É verdade que ainda hoje, 2017, essa noção de matrimônio persiste e predomina, embora, não mais com a mesma força. Antes, romper um casamento exigia força hercúlea da mulher — sim, da mulher — que ousasse buscar a liberdade. Elas e eles ficavam aprisionados.

Quem tem criança em idade escolar sabe que o filho de pais separados que décadas atrás seria estigmatizado por colegas e professores, hoje olha com estranhamento para o amigo que mora junto com pai e mãe na mesma residência. A despeito de todos os conflitos inerentes ao processo de separação, em minha opinião, evoluímos. Valorizamos cada vez mais a qualidade das relações a dois em lugar das convenções em que estão inseridas, respeitamos mais a diversidade e começamos a despertar para a óbvia realidade que há tempos Vinícius vaticinara: o amor é infinito enquanto dura. Um mês? Uma vida? Se quer a certeza de um amor eterno, Disney.

Na época dos casamentos indissolúveis havia nos casais bastante conformismo com o gosto no mínimo insosso das relações conjugais, uma desmedida complacência com a cruz a ser carregada até a morte. A postura dos casais contemporâneos é diferente, ainda assim, não menos intrigante. Parece-me que a tal complacência desmedida está se transformando em intolerância igualmente exagerada com crises contornáveis e absolutamente comuns em qualquer casamento. Dito de outra forma: sinto que os pares desaprenderam a ficar na relação. Interrompem com a separação o que poderia ser um rico processo de crescimento compartilhado. Não tenho dados a esse respeito. Minha sensibilidade, minhas vivências e meus clientes são o instituto de pesquisa.

O desafio dos novos casais é saber se relacionar com verdade, equilíbrio e resiliência. Verdade para encarar o bom e o ruim de um casamento, de uma pessoa, de si mesmo. Equilíbrio para dar aos conflitos a importância e o tamanho que eles realmente têm. Resiliência para suportar e crescer com as adversidades. Não pense que ficar na relação seja manter uma situação insustentável de desamor, ao contrário, trata-se de tomar o amor que houver para aprofundar a busca de uma solução compartilhada. Dá trabalho, muito trabalho. Muito mais do que se conformar ou romper após meia dúzia de feridas expostas. A separação é uma saída legítima e muitas vezes necessária. O ponto crítico para o qual chamo a atenção é o crescimento de divórcios mal resolvidos que, em consequência, geram outras relações cheias de pendências. A fila anda, porém, a vida não segue para frente.

A essa altura do artigo eu deveria lhe revelar a fórmula infalível para obter esse aprendizado. Sinto lhe dizer que não a tenho. Desconfio que sequer exista. Nem para isso e nem para nada que envolva relacionamentos. O que existe é a coragem e a disponibilidade para, mesmo depois de vir à tona o que há de pior em um e no outro, conseguirem juntos responder: qual futuro somos capazes de construir com o amor que ainda temos? “Nenhum” pode até ser uma resposta. A última.

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