Machista, eu? Claro que sim

Ainda pulava sete ondinhas quando soube que um homem da minha idade, na minha cidade, assassinou a ex-mulher, o filho de oito anos e mais uma dezena de parentes das vítimas, mortos enquanto comemoravam a chegada do ano novo. Imerso naquela coragem característica que somente os extremamente covardes são capazes de ter, suicidou-se tão logo concluiu a chacina. Deixou diário, carta e áudios com as suas razões misturadas a um enfadonho chororô. Nenhuma novidade: um machista matou novamente. O assassino do momento, porém, quis e conseguiu que dessa vez fosse com espetáculo. Seu ato e suas mensagens foram expostos e analisados à exaustão pela mídia. Em uma delas, como guru motivacional, ele convida a nós, homens, a seguirmos o seu exemplo quando deparados com “vadias” similares às que ele mataria. Um convite desnecessário. Há tempos o feminicídio está no cotidiano brasileiro.

Ao me despedir do ano velho não imaginava que esse sujeito se tornaria a primeira pessoa a me provocar uma reflexão profunda em 2017. Instigou-me a olhar para dentro de mim mesmo e me perguntar se de alguma forma também contribuo para legitimar a ação desses assassinos e estupradores. Machista, eu? Claro que não (desde que me restrinja a observar apenas a superfície de quem sou). A verdade da vida prática me mostra que, no fundo, ainda que revele apoio às causas feministas, sou mais um a me beneficiar da cultura machista. Eu sei, por exemplo, que ao disputar um posto mais elevado na hierarquia da empresa, tenho a meu favor uma espécie de vantagem silenciosa e inconfessável sobre as mulheres e os gays que estão no mesmo patamar. Eu sei, intimamente, que os meus valores vanguardistas não me livram de sentir um estranhamento bastante sutil ao imaginar a vagina tão livre quanto o pênis. Eu sei do machismo que reside em mim.

Segundo os costumes seculares de nossa tribo os machos nascem com o direito e quase o dever de submeter as fêmeas ao seu domínio, como se estas fossem incapazes ou selvagens a serem domesticadas. A sociedade, a começar pela família e pela religião, concede com tanta naturalidade esse poder opressor aos meninos que eles não têm a menor dificuldade para deduzir que se trata de algo inerente à masculinidade. Com a maturidade, a transformação dos valores sociais e, óbvio, a reação das oprimidas, a certa altura de sua existência qualquer homem é capaz de perceber o engodo em que se meteu. A igualdade social dos gêneros é evidente. A partir de então, milhares optam por se manter trogloditas e fazer valer à força o direito que pensa ter adquirido ao vir à luz varão e hétero. Milhões fazem uma opressãozinha aqui, outra ali, apenas usufruindo do ambiente favorável e estimulando, consciente ou não, a violência dos primeiros. Sim, há exceções. Alguns são até fofos. E daí?

Acredito que a ação governamental a favor de um sistema educacional alicerçado em pilares mais humanistas possa transformar os costumes da tribo ao longo das gerações. Essa utopia, porém, não exime a mim e a outros homens da responsabilidade de erradicar o próprio machismo agora. Eu mesmo não sei ao certo como fazer. Desconfio que devamos renunciar a qualquer pensamento, sentimento e atitude, sutil ou grosseiro, que tente subtrair da fêmea a sua humanidade e relegá-la à condição de animal doméstico, bem material ou incapacitada mental. Devemos renunciar a esse poder ilusório. Na dúvida, perguntemo-nos: estou sendo machista? Talvez essa nova postura nem faça tanta diferença para as mulheres em particular, afinal, não são coitadas. Muitas sabem se livrar de um machistinha em dois segundos e outras escolheram ser tão machistas quanto. Para um mundo com menos opressão, sim, a mudança faz toda a diferença.

Os homens poderão se surpreender ao descobrir que a sua virilidade permanece intacta sem o machismo e que a força do masculino, a força do macho, não tem absolutamente nada a ver com oprimir. Livres do machismo, creio que os homens finalmente conseguirão disponibilizar ao mundo o seu autêntico valor para ser complementado à força nada frágil do feminino e, juntos, começar a construir a paz, a sustentabilidade, a equidade, enfim, o século 21 que teima a chegar.

Então, machos, vamos à luta! Dentro de cada de um de nós.

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