Sócios e casal ao mesmo tempo: quem sobrevive?

A vida nos proporciona inúmeros desafios. Alguns escolhemos, outros não. Dentre aqueles para os quais nos voluntariamos, manter a harmonia no casamento é um dos grandes. Empreender e administrar a própria empresa não fica atrás. E o que dizer sobre educar os filhos de modo que estejam saudáveis, autônomos e ainda mantenham os valores de sua família quando adultos? Quem de fato assume a responsabilidade pelo desenvolvimento de uma criança sabe o tamanho da dificuldade. Agora, você consegue imaginar que existem alguns seres impetuosos que escolhem encarar todos esses desafios ao mesmo tempo?

Nos workshops e nas sessões de coaching que conduzo encontro com frequência esses abnegados que me trazem diferentes histórias semelhantes. Esses relatos e a minha própria experiência me levaram a concluir que quando as pessoas que formam um casal resolvem se relacionar também como sociedade empresarial elas abrem uma porta que pode ser a do paraíso ou a do inferno. Inferno, neste caso, significa que cedo ou tarde o casal de sócios ficará à frente do dilema sobre qual sociedade dissolver antes que nenhuma reste. Aqui valem duas ressalvas. Ao falar de sociedade empresarial não me refiro, evidentemente, àquelas que existem apenas como manobra burocrática, sem a participação efetiva de ambos na administração. Segundo ponto: conheço muitos casais que não se separam e que, na verdade, são apenas sócios. A vida em casal não existe mais. Não raro manter a fachada de um bom casamento é somente parte do negócio.

Não creio que haja receita pronta para que o casal seja bem-sucedido na empreitada e consiga manter quarto e escritório harmonizados. Cada um segue com a sua bússola. Porém, há elementos que merecem a atenção de qualquer casal disposto a buscar o sonho de uma felicidade toda misturada, com muito amor, realização, qualidade de vida e ainda tempo para acompanhar de perto o crescimento dos filhos. Em minha opinião, antes de empreender, o casal deve estar o mais zerado possível quanto os seus problemas conjugais. Não quero dizer que os parceiros devam estar sempre bem. Os conflitos são parte de qualquer relacionamento. Nenhum problema com isso. Mas, ainda que prevaleça uma confiança profissional mútua, se o casal começar um negócio sem realmente estancar ressentimentos quase sempre camuflados, a chance de eles surgirem na empresa com mais força é imensa. Não há Business Plan que dê jeito em picuinhas. Nesse contexto, algumas sessões de coaching contribuem para realizar um bom começo.

Outro ponto que destaco é a necessidade da consciência de que mesmo que o negócio em si não apresente muitos riscos ou que todos os riscos estejam exaustivamente dimensionados, para o casamento o risco é sempre alto. Não dá para voar de asa delta com a ilusão de estar tão seguro quanto se estivesse a bordo de uma aeronave comercial. Quando sócios divergem, por exemplo, a negociação entre eles costuma ser tensa, ríspida e desprovida de afeto. Se a ética e o respeito ao indivíduo são preservados, tudo bem. Quando sócios casados divergem, ambos precisam lembrar sempre, sempre, sempre com quem estão discutindo para que “ganhar o debate” não se torne mais importante que o afeto e a parceria que estabeleceram para a vida. Sensibilidade é a palavra-chave.

Um terceiro aspecto para o qual chamo a atenção consiste em uma medida simples e, talvez, a mais difícil. O trabalho precisa ter lugar para acontecer e hora para começar e terminar. Há neste caso uma disputa desleal. Uma mensagem de cliente no celular, uma planilha no notebook ou um assunto corporativo invadem o quarto com uma naturalidade assustadora. Por outro lado, a plena intimidade, aquela que o torna o casal mais forte na alma e no vínculo, quase não tem chances na rotina diária. Como concorrer?

Procurei revelar em poucas pinceladas o quanto é complexo e significativo empreender como casal. Inviável, jamais. Por isso, convido os corajosos a também guardarem em si a convicção de que o melhor dos mundos é sempre possível quando mantemos o foco no essencial: o amor que impulsionou a construção.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.