Superpoderosas

Cento e um. Há meses não encarava uma balança para não ter o desgosto que a consumia naquele instante. Três dígitos. Três malditos dígitos cintilavam no display. Bem sabia que estava no limite — noventa e oito na última pesagem — não havia razão para se surpreender, ainda assim, entristeceu. Nos tempos em que era a garota mais paquerada do colégio jamais imaginou que a obesidade mórbida faria dela prisioneira. Agora, arruinada antes dos trinta. Não compreendia o que deu errado em sua vida. O casamento, minha cara. O casamento! A tal voz da consciência não perdoa. Celinha desejou vomitar cada quilo de ansiedade armazenada no seu corpo. Se resistisse às caixas de bombom devoradas compulsivamente ou aos pratos volumosos de comida gordurosa, quem sabe, não passaria dos cem. Se isso, se aquilo, se, se, se. Estagnou hipnotizada pelos algarismos.

A algazarra do filho à porta da drogaria lhe trouxe de volta ao chão e à lembrança de que — merda! — precisa pagar as contas. Cinco para as quatro. Catou a bolsa pendurada no suporte da balança, puxou Sam pelo braço e, grudados, saíram pela calçada a passos largos. Ela chegou suada, exausta. Mal conseguia se manter em pé na frente da agência bancária. O vigilante se preparava para encerrar o expediente. Celinha olhou esbaforida para a porta giratória. Sentiu um medo estranho de não conseguir passar ali, como se, afinal, pesasse trezentos quilos. Quis dar meia-volta, mas, sempre adimplente, tomou coragem. Respirou fundo. Expôs chaves, celular e guarda-chuva antes que o segurança considerasse a possibilidade de barrá-la. Entrou sem problemas com o filho a tiracolo.

Sam era um menino que sabia cativar. Acontece que, aos cinco anos, gracejos e carinhas bonitas não bastavam para render um lugar privilegiado à sua mãe na fila extensa. Postaram-se no fim. Quieto, mas, impaciente, Sam procurava algo interessante para se distrair durante a espera. Mexia-se. Cantava. Observava. Opa! Cessou a busca quando descobriu uma pessoa diferente. Mais alta e elegante que os demais, para ele, alguém intrigante.

Desde o nascimento, Sam engoliu todas as porcarias que a curiosidade solicitou e a sua agilidade permitiu, contudo, jamais engoliu uma interrogação.

“Mãe, é homem ou mulher?”, apontou.

Difícil precisar se Celinha sentiu primeiro a desolação por Deus tê-la escolhido para ouvir aquela pergunta que a sua educação cristã não havia lhe preparado para responder ou a raiva pelo mesmo motivo. Ela sabia a quem o menino se referia. Certo é que se arrependeu de não carregar um rolo de silver tape junto com os apetrechos normais de uma bolsa feminina. O Sam, inocente, esperava a resposta sem imaginar que sua mãe devaneava, com prazer, amordaçá-lo. Ela se arrependeu novamente, desta vez, pela maldade de seus pensamentos. Ora, uma criança tinha o direito de perguntar o que lhe viesse à mente. Sem saída, Celinha soltou um “ai meu Jesus” tão baixinho que nem o divino foi capaz de escutar. Por fim, concretamente, fez-se de surda. Tudo em menos de três segundos, que podem ser uma eternidade.

“Mãããããe! É homem ou mulher?” — insistiu em tom suficiente para toda a fila ouvir.

“Fica quieto, menino!” — reagiu com um sussurro energético.

“Por quê?”

“Por quê? Por quê? Por quê?” — e prosseguiu irada: “Toma um pirulito!”

“Não quero.”

“Não quer?!” — Celinha quase descontrolada. O rosto alvo e redondo corava enquanto identificava risinhos sarcásticos ao redor. Olhou para os caixas ainda distantes. A fila não encurtava.

Sam decidiu utilizar a infalível tática do menino educado.

“Mamãe, por favor, eu gostaria de saber se…”

Celinha o interrompeu. Retirou o celular da bolsa e, com alguma dor no coração, emprestou-o para o garoto.

“Pode brincar.”

“Posso?” — surpreendeu-se. Sam adorava fazer ligações a esmo quando ela descuidava do aparelho.

Celinha acenou a permissão.

Funcionou. Na trégua, agachou-se para tascar um beijo estalado no filho entretido com as teclas. Mas, ao levantar-se, estremeceu. Ela vinha em sua direção. Não. Sim. Não. Sim. Sim. Sim… em sua direção! Uma bela transexual que finalmente conseguira se livrar dos boletos bancários que carregava. Os cabelos eram lisos, compridos, negros. Talvez balançassem em comerciais de xampu. Exibia a estatura das jogadoras de vôlei. Os glúteos, claro, bem definidos. As próteses mamárias ajustadas com perfeição. Silicone por silicone, ela — ou ele — se orgulhava de ter seios tão verdadeiros quanto os da capa da Playboy de aniversário. A face, porém, denunciava a virilidade. Usava um longo vestido grená combinado com um xale artesanal. Finíssima!

Imponente, aproximava-se. Celinha era um avestruz na busca desesperada por um buraco que lhe coubesse o pescoço. Dissimulava. Desviava o olhar ao mesmo tempo em que não conseguia parar de invejar a silhueta curvilínea daquele mulherão, homão, que confusão! Jade, nascida Jardel, sorriu para Celinha. Solicitou permissão para presentear o menino com uma barra de chocolate. Celinha consentiu meio sem jeito, ainda que simpática. Sam esqueceu o celular. Assistia a cena com olhos arregalados.

“Qual o seu nome?” — a voz nem tão fina e nem tão grossa.

“Samuel.”

“Quer um chocolate, Samuel?”

Ele abriu um belo sorriso de afirmação e recebeu o mimo.

“Dê um beijo na titia.”

Com o pedido atendido, Jade se despediu do garoto, sorriu para a mãe e saiu. Celinha a observava partir quando recebeu um cutucão no ombro. Não havia notado que a fila se movimentou.

Sam gesticulou pedindo que sua mãe se abaixasse. Queria lhe cochichar algo no ouvido.

“Mãe, é homem ou mulher?”

Celinha refletiu um instante.

“É homem. Mas, mas… tem a alma das Meninas Superpoderosas.

“Uaaaaaau!” — a verdade é que o menino nem assimilou direito a resposta, nem sequer curtia as personagens, contudo, não teve dúvida de que se tratava de uma enorme descoberta.

Lambuzado de chocolate, Sam quis fazer outra pergunta.

“Mãe, o que é alma?”

Celinha suspirou aliviada. Enfim, uma pergunta fácil.