Não Fale Nada

Edhson J. Brandão
Jul 21, 2017 · 8 min read
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tudo belo como num apartamento requintado e bem visitado nos arredores de Pinheiros, Jardim Europa e Bela Vista. Não ficava devendo nada para qualquer cenário de novela: algo de fino trato em peças, quadros e artigos décor colocados precisamente em planos e perspectivas que reluziam sobre os olhos. Principalmente nos olhos dos humildes e todo aquele povo que pensar ser riqueza andar de táxi vez e outra.

Todos deveriam chegar e passear pelos cômodos esbaforindo suas invejas e falso senso de bom gosto. Reparariam sim na fruteira de vidro pintado a mão porque era um grande destaque na mesa da sala. Aquilo tudo era um desbunde e, para o valor de tal moral, diziam ser uma jóia da família. Estes valores materiais que estirpes de sobrenome costumam manter em suas tradições e que os aspirantes à riqueza imitam para o consolo de seus desejos e frustrações.

O Juliano conhecia cada metro daquele lar todo planejado e faria cada qual se sentir a vontade saltitando pelo tapete de pelo sintético. Ele é um falso cara bacana que usa sempre os mesmos ternos apertados trocando gravatas e com um papo viciante que faz todo mundo parar para ouvir e acreditar.

A mãe dele deveria chegar do aeroporto as oito, mas chegou às nove e meia. Pediu que a buscassem porque não sabe andar de ônibus nessa cidade, então os dois chegaram de carro, despejaram a cortesia e seguiam as orientações do aplicativo que os conduziram até o condomínio enquanto a mulher contava as novidades da vida mansa no interior, das boutiques novas e das tendências de moda que demoram a chegar, mas que, graças a deus, tem a internet, tem a rede social e até aqueles blogs que contam tudo sobre como se vestir em determinadas ocasiões e sugerem vários outlets para compras com descontos.

Marcos ouviria tudo com apreço, esboçaria sempre seus sorrisos de bom garoto e esconderia seus trejeitos e seu vocabulário queer porque sabe das implicâncias e dos medos do Juliano, então teriam uma boa noite de frivolidades, espumantes e belos comentários sobre a mobília meticulosamente pensada.

Eram destas coisas ou de porra nenhuma que o casal se ocupava para se parecer diante da plateia que os seguiam. Ricamente as pessoas que frequentariam o lar dos dois anjos apoiariam com sobriedade e discursos clichês a questão social que os rapazes representavam.

A mãe de Juliano se ocupou, primeiramente, de fazer suas compras e visitar seus lugares preferidos na metrópole. Ela precisou de dois dias para se entretiver nas vitrines da Oscar Freire, pechinchar no J.K., dar uma olhada na São Caetano e fazer alguma vez na 25. Os perfumes viriam todos de lá. Depois da rotina de madame sim, ela estava pronta para as formalidades que a trouxera. Ela tinha uma notícia.

Marcos olhava a mãe do esposo com apreço e sutileza. No jantar da segunda noite, ele gastou elogios às joias e vestidos comprados. A mãe de Juliano se fez satisfeita e confortável, porém com um reduto de cinismo nos olhos. Juliano servia a batata soté com desamparo nos olhos e precavido. Enviava mensagens de censura a Marcos quando algumas expressões vulgares ou exaltadas surgiam. Marcos levantava as sobrancelhas e, vagarosamente, se incomodava com tamanha implicância. Suas náuseas pareciam se reativar à medida que os suspiros pesados e a boca de seu esposo se contorciam e a mãe de Juliano perdia seus sorrisos quando notava que havia um prato invisível a ser consumido naquela mesa.

Terminada a refeição, os três se ocuparam da sala com a tevê ligada e encerrando a noite com conversas antigas e um vinho branco chileno. Marcos manteve-se quieto reagindo apenas com reações mínimas: sorrisos e consentimentos. Juliano e sua mãe conversavam em um requinte distante, pareciam amigos de negócios rindo sobre os planos caros e sucedidos. Quando sua taça estava vazia, Marcos se adiantou:

― Juliano me contou que a senhora veio nos visitar e trazer uma notícia.

A mulher mostrou uma leve surpresa pela interrupção dos assuntos. Encarou Juliano em pálida seriedade.

― Estamos curiosos, mamãe — Juliano precipitou-se em uma voz urgente — Mas a senhora fique a vontade para dizer quando se sentir a vontade.

Marcos ignorou o olhar furtivo de Juliano e não perdeu a ousadia. A mãe de Juliano então pousou a taça de vinho sobre a mesa de centro, entrelaçou os dedos e disse olhando apenas para filho:

― Sim. Há algo maior que me trouxe além dos meus passeios. Mas, vamos deixar para amanhã os assuntos de amanhã. Não é tão importante que precise ser dito hoje. Estamos rindo, afinal — ela sorriu — Beba um pouco mais de vinho, Marcos.

― Não, obrigado — ele franziu a testa, apoiou-se sobre os joelhos e se levantou. Eu já vou para a cama então. Boa noite, senhora Cora.

Marcou deixou a sala de um modo ríspido o que fez com que Juliano se sentisse irritado. A mãe, por sua vez, assentiu e tornou a tomar o vinho.

A noite terminou como tudo: em silêncio para as conversas adiadas. Na cama, Marcos mal se deixou conversar. Juliano encontrou-o já dormindo. Apagou a luz do abajur, não lhe deu boa-noite. Achou melhor que não transassem enquanto a mãe ocupava o quarto do lado. Seria uma má impressão, ele concluía.

No outro dia, Marcos se manteve sério e buscou todas as possibilidades de distância. Inventou compromissos e trabalhos extras até a noite no salão. Talvez não chegasse para jantar. Juliano sentiu-se aliviado e dispôs de seu dia para acompanhar sua mãe em visitas pelas casas das amigas. O jantar daquela noite já estava encomendado. Haveriam apenas que chegar.

― O que há com seu namorado, Juliano? — a mãe arriscou quando já voltavam para o apartamento.

― Não há nada, mãe. Ás vezes o Marcos se incomoda com algumas coisas que eu peço a ele.

― Como o quê, por exemplo?

― Ah, ele dá muita bandeira. Eu só quero que ele seja mais discreto.

― Realmente, não há quem diga que ele não é gay.

Juliano notou um tom de deboche na voz de sua mãe. Preferiu não se importar.

― Escute, eu já vou te adiantar… Não quero ter essa conversa na presença dele.

― Diga, mãe.

Ela buscou fôlego para falar.

― Você sabe que eu vim para ver algumas coisas para o casamento da sua irmã — ele assentiu — e, antes de eu vir, ela fez uma exigência.

― Qual?

― Ela não quer que Marcos vá com você ao casamento.

― O quê?

― Sim. Você sabe que eu sou a única que aceito tudo isso, filho. A sua irmã se casará na igreja e tudo isso pode ser deselegante.

― Mas eu não serei padrinho dela com ele. Ela já disse que entrarei com a Giovana. Qual o problema de Marcos estar lá? Mãe, ele é meu…

― Ela não quer, Juliano! E você terá de acatar isso. É o casamento dela.

― E para o casamento dela eu tenho que desfazer o meu?

― Não é isto que ela está pedindo, filho.

― E o que é então?

― Olha o sinal, Juliano!

Ele freou o carro avançando alguns centímetros sobre a faixa de pedestres. Sua face ardia e havia um ligeiro tremor sobre suas mãos. A notícia da mãe lhe surgia como um grande inconveniente para tratar com Marcos horas depois. Certamente os dois brigariam, Marcos ficaria absurdamente aborrecido. Juliano viu a chuva cair sem molhar.

Em casa, durante o jantar, Marcos insistia em saber o que a mãe de Juliano viera contar. Desde que havia chegado em casa e encontrado os dois em uma ausência alarmante, sem conversas, sem risos e longe da empolgação dos últimos dias, ele previa que havia um ponto de tensão sobre os três.

― Pois então, qual é a notícia? Estou curioso — Marcos controlava sua voz, mas sua obstinada intenção não se escondia.

― Não é nada importante, meu caro — Cora fingia um conforto — Eu já conversei com Juliano. Logo mais, ele lhe contará.

― É algo, então, sério?! — Marcos olhava Juliano incisivamente.

― É algo que eu prefiro conversar depois, Marcos.

― Está bem — Marcos deu de ombros e se preocupou em finalizar seu prato. Estava irritado e desconfortável. Sabia que algo nada agradável deveria vir nas próximas horas.

Na sala, como na noite anterior, Marcos ignorou todas as preocupações de seu esposo e investiu em longas conversas com Cora. Propositalmente exagerou nos seus gestos e nos jargões que costumava usar constantemente. Não permitiu que os receios e constrangimentos de Juliano lhe podassem. Mesmo a falsa empolgação da mãe dele a ouvir e rir de suas histórias não lhe impediu. Quem encerrou o momento foi Cora que se despediu e prometeu dormir em poucos instantes. Em silêncio, os rapazes ouviram os passos da mulher até a suíte dos hóspedes. Juliano media os quadros na parede. Marcos completou sua taça de vinho e finalmente pôde encarar seu esposo para ter suas verdades.

― Acho que já é hora de eu saber onde errei desta vez, não?

― O que está dizendo?

― Estou dizendo que te conheço e sei que o que sua mãe veio contar tem a ver comigo. Agora quero que me conte.

Juliano tinha olhos pequenos e fundos. Coçou a barba, deu um gole no vinho.

― A gente pode deixar isso pra depois? Até que ela volte pra sua casa?

― Mais dois dias? Não. Eu não quero esperar.

― Por favor, Marcos.

― Não, Juliano.

Marcos era direto e não tinha paciência para esperas, Juliano sabia. O ar se tornou pesado e suas veias pulsavam diante da previsão que ele tinha. Marcos não aceitaria estas condições de sua família. Ele não queria contar, ele preferia que a noite acabasse sem aquilo.

― Você sabe que minha irmã se casará no fim do ano.

Marcos assentiu.

― Minha mãe veio ver umas coisas pra ela e… — ele respirava fundo, parecia desconsolado — me disse que eu devo ir sozinho para o casamento.

Os olhos de Marcos giraram, ele pareceu confuso.

― Não entendi. O que isso quer dizer?

― Não há convite pra você.

Juliano encolheu-se sobre o sofá tapando os olhos com a mão. Marcos permaneceu quieto enquanto seus olhos ardiam e sua boca secava.

― Quer dizer que sua família não quer que eu vá ao casamento? É isso?

Juliano assentiu sem olhá-lo. A voz de Marcos vacilou. Ele deixou a taça de vinho e passou as mãos pelo rosto. Chorava.

― E o que você vai fazer, Juliano? — disse após tomar fôlego. Havia uma fúria escondida.

Juliano olhou pra ele e já tinha os olhos molhados. Era uma criança desesperada em um abandono pequeno. Sua resposta foi balançar sua cabeça enquanto a boca tremia até que se escondesse seu pranto entre os punhos.

Marcos olhou tudo aquilo, não se permitiu mais que duas ou três lágrimas. Deixou a sala levando sua taça. Depois tomou seu banho e foi fumar na sacada para a noite desabitada. Juliano que se ocupou de arrumar a cozinha chegou quando Marcos estava em seu segundo cigarro. Os dois estavam com os cotovelos sobre a bancada. Os dois queriam a pressa da vida e a morte das palavras.

― Marcos, eu não…

― Não fale nada — ele se virou, deixou o cigarro no cinzeiro e estava lindo — eu já conheço esta resposta.

Beijou-o na testa e deixou-o sozinho com um cigarro por fumar.

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