Frenesi Policinematográfico Mês 01. Parte 04: Críticas 19/01/2017

19 de janeiro reservou uma sensível melhora em relação à semana anterior. Foram seis filmes lançados: “La La Land: Cantando Estações”, grande sucesso no circuito paulistano, ficando nove semanas em cartaz; “Manchester à Beira-Mar”, que, embalado pelas grandes premiações, segurou dez semanas em cartaz na cidade; “xXx Reativado”, continuação de uma série cinematográfica de sucesso mediano, aparentemente lançado em janeiro para não concorrer com outro filme estrelado por Vin Diesel que estrearia meses depois — “Velozes e Furiosos 8”; além de três estreias brasileiras, o que não me parece comum analisando o circuito exibidor de São Paulo: a refilmagem, homenagem, reimaginação, chame do que quiser “Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood”, “Os Penetras 2: Quem dá mais?”, globochanchada por excelência, até no título e o documentário que já havia passado na Mostra de São Paulo e em alguns eventos menores, “Axé, O Canto do Povo e Um Lugar”.

Antes de ir às minhas impressões de cada filme, importante salientar que não tive a oportunidade de ver o filme sobre o ritmo baiano nos cinemas e até junho, não foi lançado em formato on demand. Quando tiver a oportunidade de ver o filme, faço um adendo mais para frente. Então, é isso. Vamos aos filmes.

“La La Land — Cantando Estações” (La La Land, Estados Unidos, 2016)
 Direção: Damien Chazelle
 Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend
 Nota: 7,0

Não teria outro filme para iniciar as discussões da semana além de “La La Land”, tamanha repercussão que gerou. Obra apelativa para uns, gostosa nostalgia para outros e quase 1,5 milhão de ingressos vendidos no Brasil, o que está longe de ser pouca coisa.

Rever “La La Land” fora de uma sala de cinema é uma experiência curiosa. Além das limitações técnicas, como o tamanho da tela — não tem jeito, filme é para ser visto no cinema, ainda mais esse que abre com o logo de cinemascope — nossa atenção que na primeira vez é levada para os rumos simples da trama — Ele conseguirá o bar? Ela será bem-sucedida como atriz? Eles conseguirão ficar juntos — é voltada para outros aspectos do filme. Assisti-lo em casa é a prova dos nove das rebuscadas e super compostas imagens criadas por Damien Chazelle.

Sendo direto, muito do filme, além da expectativa gerada, os números de dança — que passado contato com a tela grande, nota-se que por si só não ficarão na memória coletiva do cinema, chegando até a alguns números musicais que dão uma engessada principalmente no meio do filme, tornando-o aparentemente mais longo que seus 127 minutos. Resta então admirar o trabalho de produção impecável, principalmente dos operadores de câmera, que fazem um trabalho complexo para manter o balé sempre em alto nível. Ainda que qualquer plano estático de “Sinfonia em Paris” valha mais que qualquer movimento rebuscado de “La La Land”. Outro ponto que sobrevive à revisita é a química dos atores. Se Ryan Gosling não é Geny Kelly, nem Fred Astaire, ao menos consegue levar com sua persona cinematográfica sempre debochada as curvas do seu personagem — já seu sapateado, deixa para lá, funcionam em um primeiro impacto e tchau. Já Emma Stone possui uma graça e leveza na sua composição que se encaixariam em qualquer época do cinema, como já demonstrou na estrutura clássica de filmes de Woody Allen e na esquizofrenia de Alejandro Iñárritu, sem nunca entregar um trabalho menos que adorável. Além do quê, sua imperfeição na dança nos leva a ter mais simpatia pelo seu personagem, algo que não aconteceria com uma Ginger Rogers ou Cyd Charrise nesse papel.

Deu para notar que é impossível falar sobre “La La Land” sem remeter ao passado do cinema. O próprio filme induz com referências presentes na trama (“Casablanca”), no visual (“Guarda-Chuvas do Amor, Cantando na Chuva e o já citado “Sinfonia de Paris”). Na verdade, cada plano de Chazelle parece querer homenagear alguém, mas Minelli mesmo só há um. E é de se imaginar a miséria que um Busby Burkeley faria na cena inicial do engarrafamento.

Agora, o ponto mais polêmico, que pode sim ser defendido com o argumento do resgate ao passado. Vamos a ele. É difícil imaginar um filme mais branco e heteronormativo, com margem para não o ser que este aqui é. Que Los Angeles de 2016 tem dança sem destaque para a cultura negra? Sem relevar a coreografia e a presença de gays em tela? Que filme ousa falar sobre jazz tem a coragem de entregar uma cena que um branco explica o que é o ritmo, as suas nuances, o seu espírito, sua relevância?

Acho que atribuo à inocência e falta de vivência de mundo de Chazelle para lidar com pessoas que não estejam em seu universo cotidiano. Afinal, seu filme anterior, “Whiplash, Em Busca da Perfeição” também segue o padrão de não dar voz a um negro para falar sobre o jazz. Sempre a visão do branco impera. No universo retrógrado de Chazelle, só há espaço para o talentosíssimo John Legend servir quase como um vilão de “La La Land”.

Me parece óbvio que Chazelle sabe filmar, além de um talento fenomenal para escolher seu elenco. Não sei qual seria o correspondente disto nos Estados Unidos onde mora, mas aqui diríamos que faltou boteco para entender melhor outras visões do mundo e trabalhar na verossimilhança de seus filmes. Garanto que atrapalhar não vai.

“Manchester à Beira-Mar” (“Manchester By The Sea”, Estados Unidos, 2016)
 Direção: Kenneth Logerman
 Elenco: Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler 
 Nota: 7,0

Estranho seria se Casey Affleck não ganhasse o Oscar de Melhor Ator por seu trabalho aqui. Não porque realmente é a melhor interpretação do ano passado (valor impossível de mensurar, talvez o tempo nos ajude a iluminar a “justiça” das premiações), mas por ser a mais “oscarizável” do primeiro ao último frame. Seu personagem está lá com todas as características para um ator competente realizar um bom trabalho. Ele é o brigão, ele não quer e não sabe ser pai, ele tem um trauma do passado, ele tenta controlar sua raiva, ele tem que lidar com a morte do irmão. Um sem fim de oportunidades para Casey Affleck destacar-se. Até mais que Denzel Washington, que se dirigiu em “Um Limite Entre Nós”, outro excelente veículo para premiar atuações.

À trama: Lee Chandler (Affleck) é um zelador/faz-tudo em Boston, quando recebe a notícia da morte do irmão na cidade próxima que dá título ao filme. Lee se vê obrigado a voltar à sua cidade natal para resolver preparatórios de enterro e encarar as consequências do acontecimento. Além disto, ele lida com um evento misterioso para o espectador em seu passado, que faz todos da pequena cidade o olharem com desconfiança.

Explicar mais do que isso da trama é bobagem, o que importa no filme de Kenneth Lonergan é acompanhar as revelações do passado de Lee e o porquê de ser um sujeito de trato tão difícil, inclusive para seu sobrinho, uma das responsabilidades deixadas em testamento pelo falecido irmão. Se cabe ou não as reações do personagem aos acontecimentos à sua volta, cabe ao público avaliar. Acredito que o roteiro seja bem equilibrado ao não pintá-lo como uma figura vilanesca, assim como assistimos uma redenção completa cada vez mais distante.

“xXx Reativado” (“xXx: Return Of Xander Cage”, China, Canadá, Estados Unidos, 2017)
 Direção: D.J. Caruso
 Elenco: Vin Diesel, Donnie Yen, Samuel L. Jackson
 Nota: 4,5

Vin Diesel tem uma carreira curiosa como astro de ação. Após chamar atenção em um pequeno papel em “O Resgate do Soldado Ryan” e ter um sucesso surpreendente com o modesto “Eclipse Mortal”, teve a chance de encabeçar dois projetos que poderiam garantir um futuro tranquilo no filão dos filmes de brucutus. “Velozes e Furiosos”, onde dividia protagonismo com Paul Walker e “Triplo X”, veículo moldado para sedimentar a persona cinematográfica do ator.

Erros e acertos depois, ele ao menos pode ser considerado corajoso ao dispensar participação nas continuações dos dois filmes e arriscado com papéis novos (“O Vingador” é um filme surpreendente bom), ter feito um esforço para trabalhar com Sidney Lumet (ainda que em final de carreira e vida) em “Sob Suspeita” e investido em continuações de seu papel menos famoso, o Riddick de “Eclipse Mortal” — que rendeu duas porcarias monumentais, mas isso é outra história.

Ao que parece, os planos de seguir nessa carreira, digamos, alternativa de astro de ação deu um pouco errado e Vin Diesel se vê de volta à franquia “Velozes e Furiosos”, assumindo também o cargo de produtor. Sabe-se lá como, a partir do quinto filme, a série deixa de ser sobre corridas, dando espaço à trama de assaltos e rendendo no mínimo um bilhão de dólares em bilheteria a cada edição. Surfando nessa onda de sucesso, por que não ressuscitar outro personagem para ganhar uns milhões fora da temporada do verão americano? Essa já estaria ocupada por “Velozes e Furiosos 8”.

O que leva a esse “xXx Reativado”. Como produtor, Vin Diesel deve ser uma pessoa muito vaidosa, afinal, quem quer que tenha escrito o roteiro deste filme faz um louvor a persona do ator ao, por exemplo, mostrá-lo transando com mais de dez mulheres antes do filme chegar aos 25 minutos de metragem, deixando qualquer James Bond no chinelo no quesito sedução. Sem contar as infinitas vezes que os coadjuvantes ficam nervosos ao encontrar Xander Cage, aparentemente uma lenda no projeto Triplo X.

Tal qual na franquia “Os Vingadores”, Samuel L. Jackson “morre”, aqui junto com Neymar (isso é sério) e obriga a tal organização que comandava reativar (título explicado) o agente Cage para impedir que novos satélites sejam derrubados através de uma tecnologia qualquer que aparentemente serve apenas para derrubar satélites. Para tal, o protagonista monta uma equipe de outros rebeldes, cada um com sua especialidade e característica bem definida: a atiradora, o louco e outros devidamente apresentados com cartelas engraçadinhas no melhor estilo “Esquadrão Suicida”. Paralelamente, outra equipe, chefiada por Donnie Yen (astro oriental de ação que vem fazendo carreira em Hollywood, como neste filme e no último Star Wars) também está atrás da tecnologia por motivos posteriormente explicados.

A trama, como pôde ser percebido, é uma mera desculpa para a colagem de cenas de ação em diferentes países, de uma forma meio confusa e acelerada, inclusive prestando auto-homenagens aos dois filmes anteriores (esqueci de mencionar que Ice Cube assumiu o papel enquanto Vin Diesel tocava os outros projetos) refazendo algumas cenas e aproveitando premissas. De resto, é aquilo: muita música eletrônica, tiros, uma virada ou outra de roteiro e um filme que já está velho cinco meses depois de lançado. Acredito que, assim como Tom Cruise tem seu “Missão Impossível” mais baratinho com “Jack Reacher”, Vin Diesel pode usar Xander Cage novamente enquanto outro “Velozes e Furiosos” não é lançado. A única coisa que realmente espero é que nasça um braço da franquia estrelado por Neymar, aí sim o negócio ficaria interessante.

“Os Penetras 2: Quem Dá Mais?” (Idem, Brasil, 2017)
 Direção: Andrucha Waddington
 Elenco: Eduardo Sterblitch, Mariana Ximenes, Danton Mello
 Nota: 5,0

De boas intenções, o inferno e o rol de filmes ruins estão cheios. Andrucha Waddington, que está alguns patamares acima dos artesãos de “globochanchadas” padrão (apesar de ter cometido bobagens como o “Sob Pressão”, lançado ano passado), resolve aqui prestar uma grande homenagem ao diretor Billy Wilder, principalmente para uma de suas obras-primas: “Quanto Mais Quente Melhor”

Todos os filmes de Wilder (26 no total) trabalham com a confusão de identidade. Por acaso ou por querer, seus personagens sempre passam pela situação de serem confundidos com outras pessoas, ter sua identidade real escondida ou tirar proveito da confusão e dar-se bem ou mal por isso no final dos filmes. Obviamente, não raro a ironia e o fracasso do plano encaminham a conclusão.

Até faz sentido usar esses recursos de Billy Wilder na trama de “Os Penetras 2”. Após a morte do personagem de Marcelo Adnet, o resto do elenco, Eduardo Sterblitch, Mariana Ximenes e Stepan Nercessian separam-se e cada um pensa em um novo golpe para ganhar o dinheiro perdido no início do filme. A situação converge para um leilão de obras raras (justificando o trocadilho do título), com a adição de Danton Mello, também um picareta tentando tirar vantagem.

O resto do filme é previsível. Sterblitch interpreta o inocente, o personagem que pertence ao universo do cinema, com seus excessos, tiques, reflexos e inflexões exageradas, enquanto o resto do elenco mantem-se no registro do realismo e acompanham como escada as inúmeras referências cômicas do ator. Aliás, quando bem usado, é um intérprete de muitos recursos, resta saber como irá gerir sua carreira no cinema.

A trama realmente se esforça para chegar justamente na referência-mor a Billy Wilder, mas com pouca graça ou sutileza, até a frase genial que encerra “Quanto Mais Quente Melhor” é utilizada de maneira muito forçada. Não podemos esquecer também que perder Marcelo Adnet no elenco, mantendo-o apenas como “fantasma” em poucas aparições é um baque que Danton Mello não tem cacife cômico para substitui-lo a altura.

Portanto, o saldo é uma comédia ordinária, abaixo de outras comédias da Globo Filmes com menos pedigree no elenco e na direção, como “Um Suburbano Sortudo”, lançado ano passado e inferior também ao primeiro filme de “Os Penetras”, muito mais engraçado e muito mais filme que essa continuação bobinha. Dispensável.

“Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood” (Idem, Brasil, 2016)
 Diretor: João Daniel Tikhomiroff 
 Elenco: Renato Aragão, Dedé Santana, Letícia Colin
 Nota: 6,0

É uma sacada interessante concluir a história dos Trapalhões com uma reimaginação de “Os Saltimbancos Trapalhões”. Se não é o melhor filme do quarteto, está ali entre os mais cotados para quem conhece a obra dos Trapalhões no cinema. Prestes a estrear uma nova formação do grupo na televisão, essa produção da Globo Filmes parece ser uma despedida com Didi e Dedé, interpretados por Renato Aragão e Dedé Santana. O resultado não é dos melhores, mas é uma forma honesta de terminar a saga dos responsáveis por grandes bilheterias no cinema brasileiro. Porém, de cara, é possível indicar que talvez tenha faltado orçamento para voos maiores nesse filme.

A trama é a mais trivial e conhecida possível, adaptada para os novos tempos. Em um circo à beira da falência, a trupe, comandada por Didi, tem que montar um espetáculo que faça sucesso e salvar o futuro do circo. Utilizando a mesma trilha sonora fantástica do original, de Chico Buarque e Edu Lobo. Assim, fica até fácil criar números musicais inventivos, um bom balé etc. Destaque claro para “A História de Uma Gata”, já era o melhor momento do original e repete a dose aqui. Ressenti a falta de mais um personagem cômico, todas as piadas nas costas de Renato Aragão, invariavelmente com Dedé de escada, funcionam até certo ponto, depois as rimas passam a se tornar repetições chatas e o filme fica sem escape. Destacando-se no resto do elenco, Letícia Colin leva com graça o papel que fora de Lucinha Lins.

O resultado final é mediano, até um pouco triste por ver uma ideia boa não poder ser posto em prática do jeito que o legado dos Trapalhões entrará na história de nosso cinema, onde inegavelmente, estão. O grande problema é saber para quem vender este filme. O público que cresceu vendo as obras dos Trapalhões dificilmente voltaria aos cinemas assistir esta quase despedida. E falta ao diretor Tikhomiroff habilidade para criar uma obra que possa ser assistida com prazer fora do público infanto-juvenil. A verdade é que queria ter gostado mais deste filme do que o resultado final apresentou. Pena.