“O Homem de Duas Vidas”

Brian de Palma, 1972

De Palma afirma que foi sabotado de todas as partes ao fazer essa comédia irônica. Só é impossível achar onde estaria sequer um filme regular mesmo que todas as condições para fazê-lo fossem as ideais. Terrivelmente sem graça, com atuações desinteressadas (Orson Welles incluso) e uma trama típica de comédias fracassadas dos anos 70.

Nada neste filme apresenta qualquer elemento visual ou temático de De Palma. A desculpa de ser um filme de formação não cola porque antes deste o diretor fez filmes, ainda que não necessariamente bem sucedidos ou com um experimentalismo tacanho, onde sua câmera viva, suas obsessões com Hitchcock, com o próprio cinema, voyeurismo e a imagem em si estavam impregnados em maior ou menor grau nos longas e curtas-metragens anteriores.

Ainda que “Murder A La Mod” ou “Dionysus in ‘69” hoje beirem o inassistível, tamanha distância contextual ou mesmo o experimentalismo já citado que foi tantas vezes deglutido desde a década de 60, são experiências bem mais interessantes que este “O Homem de Duas Vidas”. A comparação com “Saudações”, “Olá, Mamãe” e até mesmo “Festa de Casamento” (até então seu longa mais desinteressante) beira a covardia.

De positivo, resta imaginar que a experiência trabalhando com a linha C de um grande estúdio tenha sido tão traumática que De Palma se volta ao independente, tendo sua trajetória formada inicialmente por filmes de gênero invariavelmente paródicos, ou seja, projetos que dificilmente seriam bancados por estúdios. Após esta tragédia, De Palma engataria uma sequência fortíssima com “Irmãs Diabólicas”, “O Fantasma do Paraíso”, “Trágica Obsessão” e “Carrie, a Estranha”, todos clássicos do diretor e uma ou outra obra-prima no meio.

Creio que De Palma nunca tenha esquecido a péssima experiência de trabalhar como um diretor de aluguel, que ele voltaria a ser anos depois, mas já com um nome forte o suficiente para fazer obras interessantes.