10 fatos sobre a #vidaloka de Kurt Vonnegut

*Por Leandro Saioneti

Criaturas de Mercúrio, exército marciano excêntrico, religiões desinteressadas, infundíbulos cronossinclásticos… É impossível resumir em poucas palavras o livro As Sereias de Titã ou o homem por trás da obra: Kurt Vonnegut Jr., nascido em 11 de novembro de 1922 na cidade de Indianápolis, Indiana, Estados Unidos, América do Norte, Terra, Sistema Solar, Via Láctea, universo conhecido. Um dos grandes escritores de ficção científica do século 20, ele é autor de histórias que desafiaram o próprio gênero (já aberto para as mais diferentes suspensões de descrença), sem esquecer, claro, das pitadas de caos e ironia que as fizeram e ainda as fazem únicas.

Decifrar as ideias que transitaram por sua cabeça ao longo de uma vida é tarefa que deixo para as civilizações mais avançadas no tempo. Em vez disso trago 10 fatos sobre a #vidaloka de Vonnegut (e também sua morte), que podem dar pistas sobre os universos de sua mente ecoados em sua obra ao longo de décadas. Spoiler: é uma viagem sem volta.

Best-seller da guerra

Integrante do exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial, Vonnegut foi capturado por forças alemãs em 1944. Mantido refém em território inimigo, foi obrigado a trabalhar em uma fábrica de xarope de malte, enquanto passava as noites dentro de um matadouro subterrâneo em condições insalubres. Décadas depois do confronto, a terrível experiência serviu como base para escrever um dos seus grandes sucessos, Matadouro 5.

Ranking literário

Entre os hábitos mais “curiosos” do autor, estava o de dar nota para os próprios livros. E se engana quem pensa que ele era benevolente com sua criação: enquanto Cama de Gato (publicado pela Aleph) e Matadouro 5 ganharam A+, obras como Slaptstick or Lonesome No More! e Happy Birthday receberam um amargo e depressivo D.

Demissão recorde

Se você olhar o currículo do escritor, vai observar que ele trabalhou na famosa revista Sports Illustrated… Por algumas horas. Sem ser um grande fã de esportes, Vonnegut recebeu a tarefa de escrever um artigo sobre um cavalo de corrida. Mas após algumas horas em frente à máquina de escrever, registrou apenas uma frase, antes de sair da redação e nunca mais voltar: “O cavalo pulou a p#$%@ da cerca”. FIM.

Livro non grato

Embora Matadouro 5 seja um dos principais best-sellers de Vonnegut, a obra ainda é um dos títulos mais proibidos em escolas dos Estados Unidos no século 21, de acordo com a Associação Americana de Livrarias. Para argumentar sobre o caso, um professor chegou a dizer: “Esse é um livro que contém muita linguagem profana; faria um marinheiro corar de vergonha”. Em protesto, 150 exemplares do título foram distribuídos gratuitamente para estudantes de Indianápolis.

Tragédia em família

Um dos momentos mais trágicos da vida de Vonnegut aconteceu antes de ele ir para a guerra. Em 1944, ao voltar do treinamento militar para comemorar o dia das mães em família, ele encontrou sua própria mãe, Edith, morta (ela cometeu suicídio ingerindo uma quantidade elevada de pílulas para dormir). Já em 1984, frente a problemas familiares, ele próprio tentou tirar a vida, sem sucesso, da mesma maneira. A experiência de quase morte foi descrita no livro Fates Worse Than Death, uma coletânea de textos autobiográficos lançada em 1991.

Primeiro a série, depois os livros

Mestre da ficção científica, o escritor revelou — se em tom de brincadeira, nunca saberemos — que preferiria ter escrito o roteiro da sitcom norte-americana Cheers (1982/1993), em vez de seus próprios livros. Para o autor, a série do canal NBC sobre situações em um bar de Boston era um dos únicos programa que se salvava, considerando-o uma “obra-prima da TV”.

Twitter regado a caos e ironia

Embora Vonnegut já tenha deixado o planeta Terra há mais de 10 anos, um perfil no Twitter com o seu nome e foto segue ativo, reunindo cerca de 217 mil seguidores. O curioso é que o usuário da conta diariamente posta comentários que, sim, poderiam ter saído da boca do próprio escritor. Por exemplo, “Eu odeio bombas H e o show do Jerry Springs” e “Só porque alguns de nós podem ler e escrever e fazer um pouco de cálculo, não significa que merecemos conquistar o Universo”.

Homenagem ao legado

Seguindo os passos de grandes nomes da literatura mundial, ele também foi homenageado em diferentes situações. Além de uma biblioteca memorial em Indianápolis, que expõe diversos itens pessoais seus (incluindo uma máquina de escrever, cartas de rejeição de agentes literários, desenhos e fotos de família), o autor também dá nome a um asteroide, o 25399 Vonnegut.

Acessório indispensável

Dentre os itens pessoais do escritor, um galo vermelho chama atenção. Aliás, um abajur vermelho com a forma de galo. O item sempre acompanhou o escritor, servindo como item indispensável enquanto ele escrevia suas histórias. Após sua morte, em abril de 2007, o objetivo foi levado para a biblioteca memorial.

Assim por diante…

Estas três palavras (no original, So it goes), que isoladamente talvez não expressem nada, tornaram-se uma espécie de mantra para gerações de leitores que as viram escritas várias vezes em Matadouro 5, sempre que Vonnegut cita uma morte no enredo. Representando o fim inevitável, a citação já foi replicada em camisetas, tatuagens e slogans mundo afora.


E para curtir as obras do mestre da danação daquele jeito, aproveite a playlist #vidaloka que preparamos para você:

Clique aqui para ouvi-la.

*Leandro Saioneti é jornalista cultural e membro da comunicação intergaláctica da nave-mãe

Fontes: Sites Mental Floss, The Guardian, All Thats Interesting e Legacy