10 motivos que fazem de John Scalzi “O cara” da ficção científica contemporânea

Por Leandro Saioneti*

Ele nasceu entre nós. E nem foi em uma gigantesca metrópole com arranha-céus ou engarrafamentos caóticos à la Nova York, Tóquio ou Londres. Foi na singela Farfield, fundada em 1903, no meio do caminho que liga as cidades californianas de São Francisco e Sacramento. Mas nem por isso, tal limitação do cosmos — em ser um terráqueo de carne e osso — impediu que John Scalzi refletisse sobre o que existe além do nosso pequeno planeta azul ou dentro do ponto mais íntimo da mente humana. E sorte a nossa que ele conseguiu imprimir tamanha criatividade justamente no papel — mas não só.

Considerado um dos mais admirados e respeitados escritores de ficção científica dos nossos tempos, o autor, responsável por best-sellers como Guerra do Velho (publicado pela Aleph) e Redshirts (inédito no Brasil), foge de convencionalismos e mostra uma habilidade singular não apenas na arte de se relacionar com o público, mas com a própria vida e carreira. Assim, conquistar um prêmio Hugo (um dos mais prestigiados da literatura do gênero) e fotografar o seu gato preso a um pedaço de bacon ganham igual equivalência em seus conceitos.

E já que esmiuçar John Scalzi em apenas dois parágrafos é algo praticamente impossível — e até ultrajante –, aproveitamos o lançamento de Encarcerados pelas prensas intergalácticas da nave-mãe, para listarmos 10 motivos que fazem do escritor O cara. Aqui, no espaço ou em qualquer ponto que a criatividade alcance. Mas não se esqueça: é uma viagem sem volta.

Ainda bem.

1 — No interior da mente humana, surge uma história

Terceiro livro de Scalzi a desembarcar em terras brasileiras, Encarcerados foi publicado originalmente em 2014 e narra a investigação dos agentes do FBI Chris Shane e Leslie Vann, frente a um assassinato cometido em um quarto de hotel em Washington. Mas diferente do nosso mundo normal, ambos vivem em uma realidade na qual parte da raça humana se tornou portadora de uma condição que aprisionou suas mentes em corpos completamente paralisados. Só que graças aos avanços tecnológicos, os chamados Hadens conseguem viver em sociedade através de hospedeiros robóticos ou biológicos. Inclusive, Chris é um deles.

“Para mim, como escritor, pensei que seria interessante dizer, ‘aqui está a doença e isso muda o mundo, mas não acaba com ele’. O mundo não colapsa; o mundo encontra uma maneira de seguir em frente”, explicou John ao site de Christine Otis.

Desta forma, é interessante notar como aquele que é conhecido por criar mundos que a nossa própria realidade teima em procurar pelas vias racionais, também conseguiu olhar para dentro da mente humana e, literalmente, aprisioná-la e/ou libertá-la sob as mais diferentes perspectivas.

A versão brasileira do livro conta com 328 páginas, ilustração de Josán Gonzalez, capa de Pedro Inoue e tradução de Petê Rissatti. Por fim, a sequência Head On foi confirmada e deve chegar nos Estados Unidos ainda em 2018.

2 — O pote de ouro no fim do arco-íris

Entender a importância de Guerra do Velho no cenário literário atual não é complicado. A principal trama de Scalzi, que gira em torno da colonização de novos mundos e o conflito interespacial que isto provoca entre as raças alienígenas — incluindo a nossa –, não apenas desenvolveu e oxigenou a temática bélica além Terra, principalmente já conhecida nos textos de Robert A. Heinlein, como ampliou as ramificações do assunto. Ou alguém não acha curioso ver um exército de ex-septuagenários fortalecendo as defesas terráqueas galáxia à fora?

Contudo, anos antes de chegar às livrarias, o público já tinha acesso à história no site Whatever, criado por Scalzi para falar sobre os mais variados assuntos — geralmente relacionados à ficção científica, claro, e ativismo social. No portal, publicou um capítulo por dia a partir de dezembro de 2002, até ser contatado por Patrick Nielsen Hayden, editor da Tor Books (uma das editoras especializadas em sci-fi mais prestigiadas do mercado), interessado em publicar o romance. Acordo aceito, a versão impressa de Guerra do Velho foi lançada em janeiro de 2005 e rendeu a John uma indicação ao Prêmio Hugo de Melhor Romance em 2006 e a conquista do Prêmio John W. Campbell de Melhor Autor Estreante em 2005.

E se o arco-íris já era lindo, ficou ainda mais colorido ao longo dos anos. Hoje, mais de 10 livros de Scalzi, entre sagas e novelas independentes, já foram publicados pela editora, que em 2015 ofereceu um contrato de 10 anos com o escritor, para a publicação de uma dezena de novas obras. Com o valor do acordo girando em torno de US$ 3,4 milhões, a oferta fez de John um dos mais bem-sucedidos escritores de ficção científica hoje.

3 — Admiráveis mundos novos

Vencedores do Hugo 2013: John Scalzi, Pat Cadigan e Brandon Sanderson (sexy, não?)

Se analisarmos o portfólio de Scalzi, Guerra do Velho seria a ponta de lança em meio ao exército literário do autor, guarnecido em ambos os lados pelas sequências Brigadas Fantasmas (já publicada pela Aleph) e The Last Colony (previsto para o segundo semestre de 2018). Contudo, logo atrás da trilogia que alçou o nome de John, diversas outras obras fazem parte de sua bibliografia. Por exemplo, não apenas encontramos obras que compõem o universo de Guerra do Velho (ebooks The Human Division e The End of All Things), como também as sagas em desenvolvimento The Android’s Dream (dois livros publicados) e The Interdependency (livro 1 da trilogia publicado).

Scalzi também faz sucesso com os seus romances independentes. E foi justamente com um deles que em 2013 o autor levou o sonhado Prêmio Hugo de Melhor Romance: Redshirts (ainda inédito no Brasil). Tratando com humor o conceito das space operas clássicas (vide Star Trek), o livro brinca com o jogo hierárquico entre as tripulações espaciais e concede protagonismo aos que geralmente são vistos como meros figurantes do gênero. Em resumo, os que acabam morrendo antes do episódio chegar ao fim.

John "Redshirts" Scalzi

Já em um processo mais dinâmico, Scalzi também é autor de vários contos de ficção científica, que estamparam as páginas de revistas temáticas ou foram pixeladas em diferentes portais relacionados ao universo sci-fi. E é sempre bom lembrar que antes de virar o universo de cabeça para baixo, John era um exímio escritor de guias sobre investimentos online e cinema, por exemplo.

4 — Letra e música

Quando a escrita dá as cartas, John é polivalente. Além de escrever obras de ficção e não ficção, ele constantemente elabora artigos em seu blog sobre política, economia, games, literatura, gatos e bacon (veja o tópico 7). Por outro lado, ele também ganhou a vida escrevendo críticas de cinema para o jornal californiano The Fresno Bee, além de trabalhar como freelancer do jornal Chicago Sun-Times ainda na época da faculdade de Filosofia.

Para completar, Scalzi foi presidente da Organização dos Escritores de Ficção Científica e Fantasia da América entre 2010 e 2013, posto que já foi ocupado por mestres do gênero, como Robert Silverberg, James E. Gunn e Marta Randall. E como nada parece impossível para ele, o escritor também arrumou tempo para compor um álbum em 2015. Chamado Music for Headphones (ouça aqui), o disco de 11 faixas possui ritmos eletrônicos que caberiam em qualquer filme de ficção científica. Aliás, uma das trilhas recebe o nome de sua filha, Athena.

5 — Das páginas dos livros para a tela do celular

Seria possível prever que com tanta criatividade, Scalzi logo não se satisfaria apenas com os trabalhos literários. Em meados dos anos 2010, ofereceu sua imaginação para outro propósito: jogos eletrônicos.

Contratado pela Industrial Toys, empresa fundada em 2012 com o objetivo de aumentar a disponibilidade de games mobile no mercado, John ficou responsável por roteirizar justamente o primeiro produto da companhia: o shooter Midnight Star. E o seu chefe? Ninguém menos que Alex Seropian, criador da popular série de games Halo. A trama escrita gira em torno da tripulação da nave de pesquisas MSRV-Joplin, que resolve seguir um sinal vindo de uma lua em Saturno e acaba entrando em um conflito pela galáxia que não estava nos planos.

O game foi lançado em fevereiro de 2015 e pouco mais de um ano depois rendeu o lançamento da sequência Midnight Star: Renegade, também com roteiro de Scalzi e lançado exclusivamente para os sistemas IOS, igual ao antecessor. Fora isso, antes mesmo do primeiro game da franquia, John ficou encarregado de escrever a graphic novel Midnight Rises, com arte do desenhista Michael Choi, que narra os acontecimentos prévios da saga espacial.

6 — VozAtiva.com VS O escritor mais odiado da ficção científica

Se John Scalzi é famoso por criar realidades alternativas, ele também é mestre em mostrar como o presente é tão importante quanto qualquer obra ficcional. E faz isso sendo uma voz ativa na defesa de diversas questões fundamentais, como igualdades de gêneros e aspectos sociais, além de orientação sexual.

Assumidamente feminista, a sua maior ‘batalha’ contra aqueles que acham que o cromossomo XY tem alguma vantagem sobre o XX ainda é com “o escritor mais odiado da ficção científica”, segundo o Wall Street Journal, Theodore Beale — vulgo Vox Day. Contrário aos escritores que levantam bandeiras de cunho social em suas obras, Beale escreveu anos atrás um artigo no qual colocou as mulheres em um grau inferior aos homens dentro do ambiente universitário.

“Enquanto homens escutam os professores de História, Economia e Engenharia, muitas mulheres se ocupam em choramingar sem parar nas aulas de Estudos Feministas”, dizia parte do texto completamente infeliz.

Tais palavras foram parte do estopim para várias trocas de farpas entre os dois, que culminaram na promessa de Scalzi de doar US$ 100 para uma organização que defenda os interesses de igualdade de gêneros e orientação sexual, toda vez que Theodore pronunciasse o seu nome. Apoiado pela comunidade de fãs, mais de US$ 50 mil foram arrecadados. Fora isso, ele também já ajudou organizações que tratam o Lupus, como também uma instituição que defende a separação entre Estado e Igreja.

Por outro lado, não apenas Beale foi expulso da Organização dos Escritores de Ficção Científica e Fantasia da América (a mesma instituição em que Scalzi até já foi presidente…) devido outras polêmicas, como no início de 2017 ele ousou parodiar a obra de John The Collapsing Empire, escrevendo o romance The Corroding Empire. O livro foi lançado um dia antes do original, com capa semelhante e sob o pseudônimo de Johan Kalsi.

7 — Bacon, felinos e uma lei

Já que a lei da gravitação universal de Isaac Newton provavelmente surgiu graças a uma maçã caindo da árvore, não há como negar que a equação “gato + bacon + fita adesiva” de fato deu origem a uma importante ordem da internet mundial: a Lei de Scalzi. E se você nunca ouviu falar sobre ela, duas coisas: primeiro, que vergonha. Segundo, preste atenção, por favor.

Certo dia, em 2006, Scalzi olhou para o seu gato Ghlaghghee e achou que seria uma ótima ideia prender o bichano a uma fatia de bacon cru. Mas não satisfeito com tal singularidade do tempo e espaço, também fotografou o animal e compartilhou a imagem com os seus fãs, a fim de que eles não o deixassem esquecer do ocorrido para o resto da vida. E o objetivo deu tão certo — com os seus meios de comunicação inundados por comentários, links e imagens relacionados ao tema –, que naturalmente surgiu a lei em questão:

“Qualquer conversa na internet deverá incluir bacon de alguma forma. E então será encaminhada imediatamente para John Scalzi.”

Se uma maçã mudou o mundo que conhecemos, imagine o que um bacon ainda pode fazer… Mas se você ainda é uma/um descrente, confira A Página Canônica do Bacon criada pelo autor e veja o seu mundo mudar de perspectiva.

Scalzi realmente ama os gatíneos ❤

8 — Farfield, a terra adotiva de um mestre

Como já escrito no texto introdutório, Scalzi nasceu em Farfield. Porém, é importante dizer que o autor passou muito pouco tempo na terra-natal, mudando-se com a mãe e os irmãos para outros municípios do condado de Los Angeles durante a infância. Mesmo assim, tal ligação com a cidade já é suficiente para relacionar Scalzi com outra personalidade, em uma junção de universos pouco provável de acontecer, mas totalmente relevante para as pequenas curiosidades da vida.

Na mesma cidade que John deu o seu primeiro choro, também cresceu Pat Morita, ator que interpretou o Senhor Miyagi da franquia Karatê Kid, um dos mestres mais conhecidos da cultura pop. Infelizmente, Scalzi nunca chegou a tratar sobre esta coincidência, mas já foi comparado por fãs de seu blog ao mestre de Daniel San. Será que ocorreu uma falha na Matrix?

9 — Twitter, creme de manteiga e um amigão muito especial

Quantos seres humanos na Terra podem dizer que são bons amigos de Neil Gaiman? Embora esse número talvez seja desconhecido pelo próprio escritor inglês, é certo dizer que Scalzi está na lista de felizardos. E isso fica evidente pela constante interação entre os dois nas redes sociais, que até já rendeu um caso, no mínimo, excêntrico.

Gaiman e Scalzi têm o hábito de trocarem tuítes hilários

Em 2012, prometendo se cobrir de creme de manteiga (uma cobertura para doces) caso atingisse o número de 30 mil seguidores no Twitter, John não esperava que Gaiman entrasse de cabeça na campanha e angariasse a quantidade suficiente de followers para o pagamento da promessa. No fim, Scalzi foi coberto de creme no jardim do próprio autor de Sandman (que registrou a cena), com a ajuda da assistente de Neil, Lorraine, e as amigas patinadoras dela. E para completar tamanha história, sobrou tempo até para Scalzi fazer uma espécie de ensaio frente às lentes do famoso fotógrafo Kyle Cassidy. Assim, nasceu também o pôster de um dos maiores filmes não feitos pelo homem (aquele imagem ali acima).

10 — John Michael Scalzi II

Depois de tantos relatos — que foram muito além de dois parágrafos –, talvez não haja muito o que ainda dizer sobre o garotinho que apostou na sorte (cara e coroa) para seguir o sonho de ser escritor. Hoje, aos 48 anos, Scalzi mora na cidade de Bradford, Ohio, estado este que já lhe honrou com um prêmio em razão de seu trabalho literário. Lá, vive em paz ao lado da mulher, Kristine, e da filha, Athena. No mais, nas horas vagas ele não abre mão de boa música — seja ela entoada por sua bateria ou pelos acordes de seu ukulele (que se ainda for o mesmo de anos atrás é da marca Mahalo), destinados apenas a ele e seus gatos e as paredes. Mas como ele próprio já revelou: “Eu nunca disse que queria ser uma estrela do rock”.

Não é uma estrela do rock, mas nem por isso deixa de ser O cara.


Onde encontrar os livros do autor:

– Encarcerados: http://amzn.to/2u7uacQ
– Guerra do Velho: http://amzn.to/2pwGvCL
– Brigadas Fantasma: http://amzn.to/2HUVSM1


*Leandro Saioneti é jornalista colaborador das revistas Monet, Galileu e Mundo Estranho.