Ficção científica que descreve

*Por Roberto Fideli

Toda vez que pergunto sobre o que se trata a ficção científica, recebo respostas do tipo: “é uma literatura que fala sobre o futuro”; ou, “uma literatura que fala sobre tecnologia”; ou, “uma literatura que prevê o futuro”. A verdade é que criar uma definição precisa sobre o que é ficção científica é algo muito difícil. Teóricos e filósofos têm tido debates acalorados há décadas e ainda não chegaram em um consenso (e podemos discutir também que teóricos entrando em consenso é algo inalcançável).

Essa característica de prever o futuro não é nova na ficção científica e nem nas discussões que envolvem esse gênero literário/cinematográfico. Muito do sci-fi já foi descrito como ficção especulativa, ou seja, uma literatura que pega certas tendências e ansiedades e as extrapola para uma visão de como seria o futuro se as coisas continuarem nesse caminho. Mas a ficção científica não prevê: descreve.

Quem diz isso é Ursula K. Le Guin na introdução de seu livro A Mão Esquerda da Escuridão.

Le Guin foi uma autora estadunidense nascida em Berkley (Califórnia), no ano de 1929, e que faleceu no começo deste ano, aos 88 anos. Durante sua carreira, que durou quase seis décadas, ela publicou inúmeros romances de ficção científica, fantasia, ficção mainstream, contos, artigos acadêmicos, ensaios e histórias infantis. E seus dois livros mais famosos são justamente A Mão Esquerda da Escuridão e Os Despossuídos, ambos publicados no Brasil pela Aleph.

A escritora fez parte de um movimento na ficção científica chamado New Wave (Nova Onda). Iniciado na Inglaterra nos anos 1960, ele introduziu ao gênero elementos das chamadas ciências “soft”, como sociologia, psicologia e antropologia, aliando esses conceitos a um grau maior de experimentação muito associado à literatura modernista. Fizeram parte desse movimento, entre outros, Philip K. Dick, Michael Moorcock e J.G. Ballard.

Não é surpresa, portanto, que esses elementos previamente mencionados apareçam de forma marcante em A Mão Esquerda da Escuridão. Publicado originalmente em 1969, o livro ganhou os prêmios Hugo e Nebula, e se tornou um grande sucesso literário nos Estados Unidos na época de seu lançamento, traduzido para mais de 30 países. No Brasil, a tradução ficou por conta de Susana de Alexandria e é um dos pontos altos da edição.

A história acompanha Genly Ai, um emissário de uma confederação de mundos chamada Ekumen, que visita o planeta Gethen (que na língua local significa “Inverno”) com o objetivo de agregá-lo ao restante da comunidade. Ainda que a trama do livro não seja das mais complexas, sua ambientação é. Isso porque, em Gethen, os habitantes não possuem gênero.

Funciona da seguinte maneira: na maior parte do tempo, os habitantes do planeta são assexuados. Já durante um breve período do ciclo lunar chamado Kemmer, eles entram na fase sexual. Nesse momento, um indivíduo do casal assume características fisiológicas masculinas ou femininas, sem controle do processo, enquanto o outro membro do casal, por consequência, assume as características sexuais opostas. Por fim, passado o Kemmer, eles voltam a ser perfeitos andróginos.

Por não ter as tenções entre os sexos masculino e feminino, Le Guin argumenta que a sociedade de Gethen difere em vários aspectos fundamentais da nossa. Por exemplo, em Inverno não existe estupro, nem guerra. A violência é algo presente, mas nunca é sexual e não envolve mobilização armada. O que levanta o questionamento: o impulso de guerrear, por exemplo, é predominantemente masculino?

Em contrapartida, o mito do progresso tecnológico inexiste: uma mesma máquina pode ter seu projeto inalterado e ser usada para a mesma função durante milhares de anos, sem que a sociedade sinta a necessidade de modificá-la ou aperfeiçoá-la. E por também não terem animais voadores, o conceito de máquinas mais pesadas do que o ar capazes de voar é algo que não se desenvolveu na sociedade getheniana.

No livro, Le Guin não apenas se delonga em descrever os aspectos fisiológicos dos habitantes de seu mundo inventado (há um capítulo dedicado somente à essa discussão, intitulado A Questão do Sexo), como também busca descrever de forma eloquente e minuciosa o funcionamento dessa sociedade e seus aspectos religiosos.

Assim como em Duna, de Frank Herbert, também publicado pela Aleph, A Mão Esquerda da Esuridão cria toda a cultura em torno de seu clima. Inverno, como o próprio nome pressupõe, é muito frio. Há uma certa reverência ao Gelo, mas também toda arquitetura, culinária e vestuário são projetados para sobreviver ao clima extremo do planeta. Em termos religiosos, a maior parte dos habitantes tem uma religião parecida com o hinduísmo e o budismo, com uma aceitação quase universal de conceitos semelhantes ao Karma.

“É o yin e o yang. A luz é a mão esquerda da escuridão… Como era o verso? Luz, escuro. Medo, coragem. Frio, calor. Fêmea, macho. É como você, Therem. Ambos e um. Uma sombra na neve” — pág. 257

O aspecto religioso talvez seja um dos elementos que mais destaquem A Mão Esquerda da Escuridão no panteão de obras de ficção científica — mais até que a questão do gênero. Historicamente, a ficção científica buscou um distanciamento do mito e da linguagem mitológica. É o que Karen Armstrong chama em seu livro Breve História do Mito de logos:

“[ao] contrário do mito, (…) [o logos é] essencialmente pragmático. Enquanto o mito se volta para o mundo imaginário do arquétipo sagrado ou para um paraíso perdido, o logos olha para a frente, tentando constantemente descobrir algo de novo, refinar conhecimentos anteriores, apresentar invenções surpreendentes e adquirir melhor controle sobre o ambiente” — pág. 32

Isso se dá por conta de uma ruptura no pensamento ocidental que passou a relegar o mito como algo superficial e desnecessário, em prol de um pensamento racional. A ficção científica, tal como gênero literário plenamente estabelecido, consolidou-se em cima dessa premissa, por conta das ansiedades e mudanças que aconteciam de forma galopante nas sociedades que passavam pela revolução industrial do século XIX.

É interessante, portanto, encontrar uma obra como A Mão Esquerda da Escuridão, que une de forma sofisticada conceitos mitológicos, tanto na construção de mundo quanto na história em si, aos elementos que caracterizam a ficção científica: neste caso, as ciências “soft”, o “estranhamento cognitivo” como diria Darko Suvin, ao se deparar com uma sociedade diferente da nossa, em um tempo nosso.

Le Guin argumenta, também, que talvez sem as tenções entre masculino e feminino, todos poderíamos ter uma perspectiva mais espiritualista em nossas vidas. É um argumento sutil que a autora insere de forma quase despercebida em sua obra, mas essa sutileza é uma de suas marcas registradas e pode ser encontrada em qualquer um de seus livros.

Voltando um pouco à discussão do começo do texto, o pesquisador britânico Adam Roberts argumenta em seu livro de título sugestivo Science Fiction, que o argumento mais potente da ficção científica é a alteridade, do “encontro com o outro”. De fato, a figura do alienígena é uma das mais facilmente reconhecíveis dentro dessa literatura e, se Roberts estiver correto, então Ursula K. Le Guin descreveu uma das sociedades alienígenas mais interessantes que já li.

E ela o fez usando a boa e velha arte de contar histórias.

* Roberto Fideli é jornalista e mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero, além de editor do site Who’s Geek.