Leia um trecho de Leviatã Desperta

Ícone da ficção científica contemporânea, Leviatã Desperta é a space opera noir que inspirou a série The Expanse — disponível na Netflix — e que, desde a sua primeira temporada, vem acumulando uma legião de fãs por todo o mundo.

No romance, que se passa duzentos anos após sua expansão para o espaço, a humanidade vive um momento crítico em que a população ocupa diversos planetas e se divide em interesses conflitantes. Quando um relutante capitão de nave e um detetive decadente se envolvem nas investigações do desaparecimento de uma garota, o que eles descobrem leva nosso sistema solar à beira de uma guerra civil e expõe a maior conspiração da história humana.

A obra estará disponível a partir de 31.05, mas você já pode reservar seu exemplar:
– Saraiva Online: http://bit.ly/2qSTjBx
Amazon.com.br:http://amzn.to/2pYzJ7L
Cia dos Livros: http://bit.ly/2qhWwP1
Grupo Livrarias Curitiba: http://bit.ly/2pWv9ZO
Livraria Cultura: http://bit.ly/2prF4Ud
Livraria da Travessa: http://bit.ly/2prjSNV
Livraria Martins Fontes: http://bit.ly/2qK2WpW

Leia abaixo um trecho do livro:


Prólogo

A Scopuli fora tomada havia oito dias, e por fim Julie Mao estava pronta para levar um tiro.

Foram necessários oito dias inteiros presa em um armário para chegar àquele ponto. Durante os dois primeiros dias, ela ficou imóvel, certa de que os homens armados que a colocaram lá dentro falavam sério. Nas horas iniciais, a nave para a qual fora levada não estava em movimento, então ela flutuou dentro do armário, dando toques suaves para não bater nas paredes ou no traje ambiental com o qual dividia o espaço. Quando a nave começou a se mover, o impulso devolveu seu peso, e ela ficou em pé, em silêncio, até que suas pernas começaram a ter espasmos,então, devagar, ficou em posição fetal. Urinava no macacão, sem se importar com a coceira úmida e morna ou com o cheiro, preocupada apenas em não escorregar e cair na mancha molhada que deixara no chão. Não podia fazer barulho, ou atirariam nela.

No terceiro dia, a sede a obrigou a entrar em ação. O barulho da nave estava por todos os lados: o fraco estrondo subsônico do reator e do propulsor; o assobio e o baque constantes dos sistemas hidráulicos e das cavilhas de aço quando as portas de pressão entre os conveses abriam e fechavam; o amontoado de botas pesadas batendo sobre o metal. Ela esperou até que todo barulho audível soasse distante, então tirou o traje ambiental do cabide e o colocou no chão do armário. Atenta a qualquer som próximo, desmontou o traje lentamente e pegou o suprimento de água dele. O líquido estava velho e estagnado; era óbvio que o traje não era usado ou reparado havia décadas. Mas ela não bebia nada havia dias, o que tornou a água morna e barrenta no reservatório do traje a melhor coisa que já tomara. Teve que se esforçar para não engolir e se obrigar a vomitar.

Quando a vontade de urinar voltou, ela pegou o reservatório com cateter do traje e se aliviou nele. Sentada no chão, agora acomodada no traje acolchoado e quase confortável, Julie se perguntou onde estariam seus captores — a Marinha da Coalizão, piratas ou algo pior. De vez em quando, ela dormia.

No quarto dia, o isolamento, a fome, o tédio e a diminuição do número de lugares para armazenar a urina enfim a incentivaram a fazer contato. Ouvira gritos de dor abafados. Em algum lugar ali perto, seus companheiros de nave estavam sendo espancados ou torturados. Se atraísse a atenção dos sequestradores, talvez eles simplesmente a levassem até os outros. Estava

tudo bem. Ela podia aguentar espancamentos. Parecia um preço pequeno a pagar se isso significasse reencontrar pessoas.

O armário ficava ao lado da porta de uma câmara de descompressão interna. Durante o voo, não era uma área de muito tráfego, embora Julie não soubesse nada sobre a planta daquela nave em particular. Pensou no que dizer, em como se apresentar. Quando escutou alguém seguindo em sua direção, tentou gritar que queria sair. A rouquidão seca de sua garganta a surpreendeu. Engoliu em seco, mexendo a língua para tentar criar um pouco de saliva, e tentou de novo. Outro barulho fraco.

Pessoas estavam do lado de fora do armário. Uma voz falava discretamente. Julie ergueu o punho para bater na porta quando ouviu o que era dito.

Não. Por favor, não. Por favor, não.

Dave. O mecânico de sua nave. Dave, que colecionava trechos de desenhos animados antigos e conhecia um milhão de piadas, implorava em voz baixa e entrecortada.

Não, por favor, não, por favor, não, ele dizia.

O sistema hidráulico e os ferrolhos estalaram quando a câmara de descompressão se abriu. Houve um baque de carne quando alguma coisa foi jogada lá dentro. Outro estalo quando a câmara se fechou. Um silvo de ar escapando.

Quando o ciclo da câmara de descompressão terminou, as pessoas do lado de fora do armário se afastaram. Julie não bateu na porta para chamar a atenção delas.

Tinham limpado a nave. Serem detidos por armadas dos planetas interiores era uma situação ruim, mas eram todos treinados para lidar com isso. Dados sensíveis da ape, a Aliança dos Planetas Exteriores, foram apagados e sobrescritos com registros de aparência inócua e marcas de tempo falsas. O capitão destruiu qualquer coisa delicada demais para ser confiada a um computador. Quando os atacantes vieram a bordo, eles puderam se fingir de inocentes.

Não fez diferença.

Não houve questionamentos sobre cargas ou autorizações. Os invasores chegaram como se fossem donos do lugar, e o capitão Darren rolou como um cão. Todos os outros — Mike, Dave, Wan Li — simplesmente levantaram as mãos e seguiram em silêncio. Os piratas, traficantes de escravos ou o que quer que fossem, tinham-nos arrastado da pequena nave de transporte que fora o lar de Julie e levado todos eles pelo tubo de acoplamento, sem um traje ambiental sequer. A fina camada de Mylar do tubo era a única coisa entre eles e o vazio: era melhor que não rasgasse, ou adeus pulmões.

Julie fora junto, mas então os cretinos tentaram colocar as mãos nela e arrancar suas roupas. Cinco anos de treinamento de jiu-jítsu em baixa gravidade e depois em espaço confinado sem gravidade. Ela fizera um bom

estrago. Quase começara a pensar que podia ganhar deles quando um punho enluvado surgiu do nada e acertou seu rosto. As coisas ficaram meio confusas depois disso. Então o armário e Atirar nela se fizesse barulho. Quatro dias de não fazer barulho enquanto espancavam seus amigos lá embaixo e jogavam um deles

para fora pela câmara de descompressão.

Depois de seis dias, tudo ficou em silêncio.

Alternando entre surtos de consciência e sonhos fragmentados, ela só estava vagamente ciente enquanto os sons de passos, de conversas, da porta de pressão e o estrondo subsônico do reator e do propulsor desapareciam aos poucos. Quando o propulsor parou e a gravidade sumiu, Julie acordou de um sonho, no qual viajava em seu antigo barco a vela, para descobrir-se flutuando ao mesmo tempo que os músculos gritavam em protesto para depois relaxarem devagar.

Empurrando o corpo contra a porta, Julie pressionou o ouvido no metal frio. O pânico tomou conta até que ela percebeu o som baixo dos recicladores de ar. A nave ainda tinha energia e oxigênio, mas o propulsor não estava ligado e ninguém abria a porta, caminhava ou falava. Talvez a tripulação estivesse em reunião. Ou em uma festa em outro convés. Ou todos estavam na casa das máquinas, consertando um problema sério.

Ela passou um dia ouvindo e esperando.

No sétimo dia, o último gole de água se foi. Ninguém se mexera na nave dentro do alcance de sua audição nas últimas vinte e quatro horas. Depois de chupar uma presilha de plástico que arrancou do traje ambiental para juntar um pouco de saliva, Julie começou a gritar. Gritou até ficar rouca.

Ninguém apareceu.

No oitavo dia, estava pronta para levar um tiro. Não tinha água havia dois dias, e a bolsa de resíduos estava cheia havia quatro. Ela encostou os ombros na parede dos fundos do armário e apoiou as mãos contra as paredes laterais. Então chutou com as duas pernas o mais forte que pôde. Os espasmos que se seguiram ao primeiro chute quase a fizeram desmaiar. Em vez disso, gritou.

Sua estúpida, ela se repreendeu. Estava desidratada. Oito dias sem atividade eram mais do que suficiente para desencadear uma atrofia. Deveria pelo menos ter se alongado. Ela massageou os músculos enrijecidos até desfazer os nós

que se formaram; alongou-se, concentrando a mente como se estivesse de volta ao dojo. Quando assumiu o controle do corpo, chutou mais uma vez. E outra. E mais outra, até que a luz começou a aparecer através das frestas do armário. E de novo, até que a porta ficou tão encurvada que as três dobradiças e a trava eram os únicos pontos de contato com a lateral do armário.

Uma última vez fez a porta se curvar o bastante para que a trava não encostasse mais no ferrolho e balançasse livremente.

Julie saiu correndo do armário com as mãos meio erguidas, pronta para parecer ameaçadora ou aterrorizada, dependendo de como fosse mais útil.

Não havia vivalma em todo o convés: na câmara de descompressão,no depósito de trajes onde ela passara os últimos oito dias, nem em meia dúzia de outros depósitos. Todos vazios. Julie pegou uma chave inglesa magnetizada com o tamanho ideal para soltar o capacete de um kit de atividade extraveicular e desceu a escada da tripulação em direção ao convés de baixo.

Depois desceu mais um andar, e mais outro. As cabines da tripulação, em ordem quase militar. O refeitório, onde havia sinais de luta. O compartimento médico, vazio. O compartimento dos torpedos. Ninguém. A estação de comunicação estava deserta, desligada e trancada. Os poucos sensores de registro que ainda funcionavam não mostravam sinal algum da Scopuli. Um terror

novo deu um nó em suas entranhas. Convés após convés, sala após sala, sem vida. Algo acontecera. Um vazamento de radiação. Veneno no ar. Algo que obrigasse uma evacuação. Ela se perguntou se seria capaz de guiar a nave sozinha.

Entretanto, se todos tinham evacuado, ela os teria escutado saindo pela câmara de descompressão, não teria?

Julie chegou à entrada do último convés, aquele que levava à engenharia. Parou quando a escotilha não abriu automaticamente. A luz vermelha no painel da trava mostrava que a sala fora trancada por dentro. Ela pensou mais uma vez em radiação e em outras falhas de impacto. Mas, se fosse esse o caso, por que trancar a porta pelo lado de dentro? Ela passara de painel em painel, e nenhum deles mostrava qualquer tipo de aviso. Nada, nem radiação nem outra coisa.

Havia mais sinais de briga ali. Sangue. Ferramentas e contêineres bagunçados. O que quer que tivesse acontecido ocorrera ali. Não, começara ali. E terminara atrás daquela porta trancada.

Foram necessárias duas horas com um maçarico e um pé de cabra da oficina mecânica para abrir a escotilha. O sistema hidráulico estava comprometido, por isso ela teve que forçar a abertura com a mão. Uma rajada de ar morno saiu, trazendo consigo um cheiro de hospital sem o antisséptico. Um odor de cobre, nauseabundo. A câmara de tortura, portanto. Os amigos dela estariam

lá dentro, espancados ou cortados em pedaços. Julie ergueu a chave inglesa e se preparou para arrebentar a cara de pelo menos uma pessoa antes que a matassem. Flutuou para dentro.

O convés da engenharia era imenso, abobadado como uma catedral. O reator de fusão dominava o espaço central. Havia alguma coisa errada com o equipamento. Uma camada de algo com aparência de lama parecia envolver o núcleo do reator, bem onde Julie esperava ver mostradores, blindagens e monitores. Devagar, ela seguiu naquela direção, mantendo uma mão na escada. O cheiro estranho se tornara insuportável.

A lama endurecida em torno do reator tinha uma estrutura que não se parecia com nada que ela vira antes. Era entrecortada por tubos como veias ou vias respiratórias. Partes da coisa pulsavam. Não era lama.

Carne.

Uma saliência da coisa se virou para ela. Comparada ao todo, não parecia maior do que um dedo do pé, um mindinho. Era a cabeça do capitão Darren.

– Me ajude — a coisa pediu.

Acompanhe a nave Aleph por aí:

https://www.facebook.com/editoraaleph
http://www.instagram.com/editoraaleph
https://twitter.com/editoraaleph
https://youtube.com/editoraaleph