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Por que ler os clássicos da ficção científica

*Por Ana Rüsche

Imagine um objeto “equivalente ao universo, à semelhança dos talismãs antigos”. Será algo poderoso, desenvolvido por uma civilização alienígena? Será algo inescapável, capaz de provocar uma fenda espaço-temporal? Segundo Italo Calvino, trata-se de algo acessível e presente em muitas estantes: é assim que o autor descreve um livro clássico.

Em sua apaixonada defesa à leitura, Por que ler os clássicos (Companhia das Letras, trad. Nilson Moulin), Calvino aponta que clássicos são livros que exercem uma influência cultural significativa e mimetizam-se como inconsciente coletivo ou individual. Convida-nos à leitura e à releitura, pois quando se lê um livro na juventude e depois na maturidade se desfruta de um livro distinto, experimentam-se outros sabores.

A partir das ideias de Calvino, como podemos refletir sobre os clássicos internacionais da ficção científica?

Durante o século XX, livros de ficção científica foram responsáveis por moldar a imaginação sobre avanços tecnológicos industriais por gerações. Uma construção coletiva, ao longo de encadernações e páginas, para se discutir o que seja a ciência no agora, seus propósitos, conquistas e suas consequências.

Padrões imaginativos foram instituídos ao longo da história da ficção científica. Por exemplo, embora ninguém ainda tenha pisado em Marte, consegue-se imaginar perfeitamente o que seja este passo e outros muitos mais distantes, basta ler Fundação de Asimov. Ou questionar como é viver sob a égide de uma rede planetária interligada por computadores sugerida por Neuromancer, que vislumbramos hoje. Uma literatura que flerta adivinhar o futuro: a velha e poderosa metáfora para se analisar o presente.

Ler um clássico de ficção científica também é uma aventura criativa: um convite ao desconhecido. Embora algumas tramas e personagens sejam famosos, pois fazem parte de nossa memória coletiva, ao ler pela primeira vez, sensações imprevistas surgirão. Afinal, é uma visita ao mundo novo – dos detalhes da trajetória do caçador de recompensas Rick Deckard em Androides sonham com ovelhas elétricas?, aos perigos do planeta Inverno em A mão esquerda da escuridão.

Indicar clássicos não é tarefa simples. Afinal de contas, fazer listas é cometer injustiças, há sempre algo que poderia ter sido incluído. Escolhas modificam-se ainda com a passagem do tempo, a definição do que seja clássico também se altera com novas sensibilidades históricas – como diria Camões, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Calvino, ao listar na década de 1980 seus “clássicos”, fez uma escolha baseada na literatura europeia, com uma ou outra exceção. Talvez em 2018, escolhesse outras obras, tivesse outros horizontes.

O mesmo princípio vale para a ficção científica internacional: a obra de Octavia Butler hoje, no contexto atual brasileiro, torna-se cada vez mais clássica e referência obrigatória, considerando reflexão que faz sobre o período escravagista, assim como nos leva a explorar outros imaginários, inclusive, sobre novas possibilidades de futuro.

A seu tempo, cada pessoa termina por instituir seus próprios clássicos ao longo da vida. Acabamos por construir um arcabouço da imaginação afetiva. Assim, qual é hoje o seu grande clássico internacional da ficção científica?


Livros que conformam a imaginação de uma época:

Frankenstein, ou o Prometeu moderno – Mary Shelley (1818**)
DarkSide, trad. Carlos Primati e Márcia Xavier de Britto

Há 200 anos, nascia nas páginas de Mary Shelley a criatura de Dr. Frankenstein. Com este livro, nasce a ficção científica, dado que a obra é considerada o marco de início do gênero. Construído pela costura de estilos literários que vão do gótico ao romance de aventura, Frankenstein irá consolidar o questionamento a respeito do que seja o avanço científico e a qual moral serve. No período, um conto interessante é o fantástico O Homem da areia (1817) do alemão ETA Hoffmann, que inclusive influenciará Freud nas pesquisas a respeito do inconsciente. Após A Ilha do Dr. Moreau de H. G. Wells (1896) é um exemplo de como temas de Frankenstein irão ser debatidos ao longo do século XIX, pois Wells cria um médico que opera criaturas monstruosas em uma ilha tropical.

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Nós –Yevgeny Zamyatin (1924)
Aleph, trad. Gabriela Soares

Nós pode ser considerado uma “distopia-mãe”: inaugura um tema importante ao século XX, a crítica a regimes totalitários. Escrito em russo em 1920, por seu conteúdo contestatório, foi publicado pela primeira vez somente em inglês em Nova York, sendo distribuído na União Soviética em 1988. Zamyatin dialoga com escritores de sua época como Jack London da obra O Tacão de Ferro (1907), publicado pela Ed. Boitempo. Institui a imaginação sobre o que seria viver sob um regime totalitário e suportar uma eterna vigilância até a perda do senso crítico. Será referência a outras obras como as distopias Admirável mundo novo de Huxley (1931, Editora Globo), 1984 de Orwell (1949, Cia. das Letras) e O Conto da Aia de Margaret Atwood (1985, Rocco).

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Eu, Robô – Isaac Asimov (anos 1950)
Aleph, trad. Aline Storto Pereira

Em Eu, Robô (1950), Asimov utiliza o termo criado por Karel Čapek e reunirá contos, instituindo as três leis da robótica, normas a respeito de obrigações de robôs para não ameaçarem a humanidade, utilizadas por gerações de escritores. Asimov é autor central para conferir ao gênero da ficção científica a valorização acadêmica das ciências exatas e o gosto pelas viagens espaciais. Há um asteroide batizado em sua homenagem: 5020 Asimov.

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Fundação Isaac Asimov (anos 1950)
Aleph, trad. Fábio Fernandes

A trilogia Fundação é das obras clássicas de ficção científica dos anos de 1950. A gênese da obra inicia-se de uma maneira bastante típica da FC à época: em histórias curtas publicadas na revista pulp Astounding Magazine, editada por John W. Campbell. Não somente esse formato reflete um espírito da época, mas o autor irá nos livros subsequentes consolidar uma maneira de escrever a respeito do espaço e, na trilogia, constitui uma forma de representar uma nova ciência – matemática e previsões sociais, a psicohistória.

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2001: uma odisseia no espaço – Arthur C. Clarke (1968)
Aleph, trad. Fábio Fernandes

Ao lado de Asimov e Heinlein (Um Estranho numa terra estranha, 1961), Arthur C. Clarke constitui o famoso trio de autores da ficção científica no pós-guerra nos EUA. Sua longevidade de 90 anos permitiu-lhe assistir em vida muitas novidades tecnológicas. É um dos maiores responsáveis pelo duradouro relacionamento entre a literatura de ficção científica e o cinema: em parceria com Stanley Kubrick, definiram em imagens e ações uma estética definidora da representação do espaço com 2001 uma odisseia no espaço. Também nomeou um asteroide em sua memória, 4923.

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Solaris Stanisław Lem (1961)
Aleph, trad. Eneida Favre

Solaris, do polonês Stanisław Lem será também paradigma de adaptações audiovisuais. Após uma adaptação para televisão russa por Boris Nirenbur e Lidiya Ishimbayeva, em 1972, torna-se um filme de referência ao ser dirigido pelo russo Andrei Tarkóvski até que, em 2002, Steven Soderbergh lança sua versão com George Clooney. O livro traz a representação do alienígena, do incompreensível, da linguagem que não se termina por captar, um planeta-oceano.

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Duna – Frank Herbert (1965)
Aleph, trad. Maria do Carmo Zanini

A obra de vida de Frank Herbert gira em torno de um único planeta: Duna. Herbert consolidara um novo grau de complexidade na construção de universos: o romance destaca-se por criar ecossistemas, configurar religiões e por constituir trama política intrincada e intensa. Seu milhões de fãs foram compradores ávidos de muitas continuações, escritas por Herbert e outras produzidas por seu filho, Brian Herbert, em parceria com Kevin J. Anderson.

Recebeu muitas adaptações audiovisuais, sendo as mais célebres a de David Lynch (1984) e o curioso Duna de Jodorowsky, documentário sobre “o filme mais influente de ficção científica jamais realizado”, em que se conta como o processo de elaboração de um filme nunca filmado foi responsável em antecipar esteticamente outras obras depois – o chileno Jodorowsky teria reunido um time de Salvador Dalí, Orson Welles a Pink Floyd, passando por Moebius, para representar nas telas o que seria o planeta desértico. Em 2018, está prevista a versão de Denis Villeneuve, diretor de Blade Runner 2049.

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Piquenique na estrada Arkádi & Boris Strugátski (1971)
Aleph, trad. Tatiana Larkina

Publicado inicialmente na União Soviética, Piquenique na estrada refletirá a respeito do momento histórico da Guerra Fria. Narrado em quatro partes distintas, a obra desloca a metáfora do que seja alteridade e detalha uma invasão alienígena ao planeta Terra, que agora possui zonas proibidas e fenômenos misteriosos. O livro recebeu adaptação cinematográfica com Stalker, filme teuto-soviético dirigido por Andrei Tarkóvski (1979).

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Kindred: laços de sangue Octavia Butler (1979)
Morro Branco, trad. Carolina Caires Coelho

Octavia Butler inaugura uma nova maneira de tratar sobre o tema clássico das viagens pelo tempo ao inserir uma nova reflexão: questionar a posição de quem viaja. H. G. Wells irá, em A máquina do tempo (1895), popularizar este tópico, que se tornará trivial em contos e novelas da ficção científica. Entretanto, Butler torce a narrativa popular, pois a protagonista negra Dana sairá de sua de Los Angeles em 1976 para retornar a uma plantation escravagista em Maryland no século XIX, lugar extremamente perigoso para uma mulher negra. Assim, a viagem ao tempo é discutida como ameaça e não como aventura.

A autora inova na ficção científica ao sublinhar a existência de outras narrativas possíveis que partam de vozes menos lidas no meio – particularmente as vozes de mulheres negras – e também ao usar de maneira detalhista e questionadora a história dos Estados Unidos a partir de discussões sobre direitos civis.

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Androides sonham com ovelhas elétricas? Philip K. Dick (1968)
Aleph, trad. Ronaldo Bressane

Popularizado como Blade Runner, é das obras seminais da ficção científica no século XX. Foi escrito por Philip K. Dick, o “Shakespeare da ficção científica”, segundo Fredric Jameson. O livro é responsável por inovar nas discussões do que seria o humano, a incorporação da máquina a qualquer detalhe cotidiano, a degradação ecológica, sem esquecer da religião e o consumismo mediados pelos meios de comunicação.

A metáfora do androide evoca discussões sobre a falta de autenticidade e da despersonalização radical pelas quais passam as pessoas nesses cenários, em que a vida das pessoas é unida pelo ruído de fundo da televisão ligada e a empatia é distribuída por uma máquina. O suspense da trama, elaborada dentro dos moldes de histórias de detetive, termina por embalar o romance em uma forma popular e instigante. Em 1982, Ridley Scott adaptou a obra ao cinema e, em 2017, Villeneuve propôs uma continuação ao universo com Blade Runner 2049.

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A mão esquerda da escuridão – Ursula K Le. Guin
Aleph, trad. Susana Alexandria

Ursula Le Guin será responsável por trazer discussões sobre gênero, história, colonialismo e política em A Mão Esquerda da Escuridão (1969). No planeta Inverno, convivem duas nações opostas, embora pacíficas e não conhecem a guerra. Seus habitantes são andróginas na maior parte do tempo. Entretanto, quando entram em “kemmer”, uma espécie de cio, adquirem características corporais masculinas e femininas. A narrativa, conduzida em parte por um homem negro terráqueo, gira em torno das tentativas do Ekumen (uma liga supraplanetária, como uma ONU ou OMC) em entrar em contato com este planeta para que integre este comércio intergaláctico.

O livro gera debates até hoje a respeito de uma questão simples: como seria imaginar um mundo em que a divisão de homens e mulheres não existisse? Ursula Le Guin será responsável por discutir ciências humanas e sistemas políticos de forma profunda em outra obra fundamental à ficção científica: Os despossuídos (1974). Ao lado de Le Guin, importante lembrar as obras utópicas de Kim Stanley Robinson, sem tradução ainda ao português: Red Mars (1993), Green Mars (1994) e Blue Mars (1996).

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Neuromancer William Gibson (1984)
Aleph, trad. Fábio Fernandes

Neuromancer é um livro que inspirará gerações posteriores, inclusive na ficção científica brasileira. A partir da configuração de um novo território em disputa, cyberespaço, Gibson retrata um padrão de consumo cada vez mais acelerado, onde megacorporações atuam com concentração de poder maciça, inclusive pela intrusão corpórea. A exemplo do Velho Oeste, cuja expansão em busca de ouro e terras somente se deu com a tolerância a crimes que fariam arrepiar a nuca dos ditos bem educados cidadãos da Costa Leste, em Neuromancer há uma zona de ilegalidade justificada, inclusive, pela necessidade sistêmica de experimentar novas drogas e tecnologias industriais.

A estética da obra e o movimento em que se insere, o cyberpunk, ditará aspectos da narrativa, ambientação e os conhecidos figurinos de Matrix (1999) das irmãs Wachowski.


Aposta: clássicos do futuro

Quais títulos internacionais constarão na prateleira de clássicos? Como a ficção científica se usa do futuro para discutir o presente, nesta listagem não se fará diferente.

Estação Perdido China Miéville (2000)
Boitempo, trad. Fábio Fernandes

Em Estação Perdido, Miéville cria um mundo, o planeta Bas-Lag, que será também palco de outras obras. Inova ao estabelecer o que é denominado, no século XXI, de weird fiction – uma mescla de gêneros que incorpora aspectos da ficção científica, fantasia, gótico e terror – a obra de H. P. Lovecraft poderia estar nos antecedentes desta vertente e um nome atual a essas experimentações seria Jeff Vandermeer de Aniquilação (2014, publicado pela Intrísenca). Pessoas com cabeça de besouro ou com bicos e asas serão habitantes de um mundo com ambientação vitoriana, embora com um capitalismo muito familiar.

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Justiça Ancilar Ann Leckie(2013)
Aleph, trad. Fábio Fernandes

A narrativa de Ann Leckie inova pela narrativa elaborada por um ponto de vista incomum: uma onipresente inteligência artificial, fruto de uma civilização que não faz distinção entre homens e mulheres. O livro recebeu os principais prêmios da ficção científica, Arthur C. Clarke, BSFA, Hugo, Locus e Nebula. A obra que trabalha, ao mesmo tempo, linguagem e pontos de vista narrativos é um presente para quem gosta de uma boa ficção científica, com direito a naves, suspense e viagens espaciais.

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A quinta estação N. K. Jemisin (2015)
Morro Branco, trad. Aline Storto Pereira

A quinta estação é o primeiro livro da trilogia Broken earth, seguido por The obelisk gate (2016) e The stone sky (2017), a serem publicados em português. A quinta estação apresenta território da Quietude, onde há constante atividade sísmica e o apocalipse é uma estação que se segue ao verão ou ao inverno de tempos em tempos. A autora discutirá como pessoas com poderes especiais, a orogenia, serão ameaçadas e perseguidas em tempos de catástrofes. Jemisin é dona de um feito nas premiações de ficção científica: cada um dos livros da trilogia recebeu um Hugo de Melhor Romance, algo absolutamente inédito na história do prêmio.


*Ana Rüsche é escritora, seu último livro é Do amor o dia em que Rimbaud decidiu vender armas (Quelônio, 2018). Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo com a tese Utopia, feminismo e resignação em The left Hand of Darkness (de Ursula Le Guin) e The Handmaid’s Tale (de Margaret Atwood), participa do grupo Fantástika 451. Para download de livros, assinar newsletter e ouvir podcast: www.anarusche.com.

** Datas entre parênteses referem-se às edições originais.