PORRA, ISSO É STAR WARS! (e isso é bom?)

Pensamentos rápidos e soltos sobre a volta à galáxia.

Por Daniel Lameira, Space Publisher da Aleph.

EEEEEE! Fomos convidados, como editores dos livros de STAR WARS no Brasil, para assistirmos à pré-estreia, nessa terça-feira (15/12) em São Paulo, de O despertar da Força. Não darei spoilers da trama nesse texto, mas preciso dividir o sentimento de ver esse filme com vocês.

Cada momento dessa volta da franquia às telas exala a essência do que STAR WARS representa para o público. Cada cena ou diálogo, criados meticulosamente para tocar os fãs, causava os esperados aplausos na sessão emocionada, que misturava jornalistas, membros do Conselho Jedi, convidados e celebridades. Desde o primeiro acorde da trilha de John Williams ao subir dos créditos, fomos presenteados não só com referências (que por vezes beiravam o fan service), mas também com uma trama que busca emular a cada seguimento a fórmula que George Lucas criou em Uma nova esperança.

A ameaça fantasma dos prólogos criou um mantra mundial pela volta às origens da essência da saga, e foi isso o que fizeram. O despertar da Força traz algo que nunca vimos antes nos cinemas, não nessas proporções: um reboot fantasiado de continuação: uma história muito semelhante à já contada em 1977, agora adaptada para uma nova geração, utilizando elementos clássicos para catapultá-la a todos os públicos.

O projeto talvez encontre paralelo apenas no bem-sucedido Jurassic World, mas aqui elevado à enésima potência (fazendo, na verdade, ainda mais sentido terem chamado justo Colin Trevorrow, diretor desse reboot de Jurassic Park, para dirigir o episódio IX).

J.J. Abrams, também um grande fã, entrega o esperado na direção: ótimas cenas de ação, grandes homenagens, atuações medianas (como é também praticamente um clássico da saga), com exceção de Harrison Ford e Adam Driver e efeitos práticos de encher os olhos. A equipe de roteiristas, que conta com Lawrence Kasdan, que assinou o roteiro de O Império contra-ataca, retorna (exageradamente) à fórmula de Lucas, seguindo a Jornada do Herói passo a passo e colocando o sentimento de goofy but not silly, que Kasdan defende sempre ter sido o espírito da saga, de volta ao equilíbrio certo.

Era isso o que pedíamos? Mas era isso o que deveriam ter feito?

Um dos grandes feitos da franquia foi ter revolucionado a indústria do cinema em inúmeras frentes: diversão, efeitos especiais, relação com o fã, marketing, velocidade, som etc. Aqui perdemos completamente esse aspecto. Não há revolução, pois exatamente o que foi criado por Lucas ainda rege as regras dos blockbusters mundiais. Fiquei um pouco triste por não ter sido surpreendido, e me peguei perguntando se era assim mesmo que deveriam ter feito tudo aquilo.

Claro que sim. A franquia multibilionária que pretende se estabelecer para o resto das nossas vidas (e dos nossos filhos) como referência de cultura pop não arrisca em nada nesse novo despertar. Colocaram o 4–4–2 no campo galáctico e jogaram em cima do resultado o tempo todo. As pessoas que conhecem STAR WARS conseguirão matar o próximo passo a cada cena, relacionando-o facilmente às cenas do primeiro filme que estão sendo ali revisitadas. Decidiram sabiamente guardar as ousadias para o futuro, talvez para usá-las em séries de TV, como tem feito a Marvel, ou em spin-offs, livros e quadrinhos.

Mas há um ponto de que senti falta, justamente aquilo que faz do primeiro STAR WARS algo único e impossível de se emular nos dias atuais: a força da improvisação. Ok, explico. Muito do que fez de STAR WARS um filme fora do comum veio da incapacidade de George Lucas em realizar o que ele de fato imaginava. Um budget que hoje não seria suficiente nem para dar cabo a um filme independente o fez tomar certas decisões, como criar uma Tatooine vinda praticamente de um filme de Sergio Leone. A descrença no sucesso do primeiro filme o fez não ter as continuações programadas, o que manteve a falta protagonismo de Vader e a sua consquente importância na trama inesperadas paternidade de Vader, deixando-o como esse personagem que aparece pouquíssimo no primeiro filme, por exatos 12 minutos; esse mesmo desconhecimento, aliás, fez com que Luke e Leia formassem um par romântico, deixando depois ainda maior o impacto da “notícia”. A dificuldade de relação de George Lucas com atores levou a algumas das melhores cenas da saga. O resgate de Han Solo em O retorno de Jedi (uma das únicas cenas em que vemos os heróis agindo juntos), por exemplo, só foi possível pois havia dúvidas se Harrison Ford renovaria o contrato e, por isso, o melhor era congelá-lo em carbonita no final do episódio V, caso a decisão fosse negativa. Ah, e ainda nessa cena o famoso diálogo: “I love you / I know” também foi fruto de dezenas de tentativas fracassadas de ater-se ao diálogo que estava roteirizado, até que a improvisação entrasse para a história — e para o caráter — do canalha mais amado da galáxia.

Esses elementos inesperados que são parte essencial do sucesso e do charme de STAR WARS se diluem no esforço programado de reintroduzir o filme às novas gerações e agradar aos fãs simultaneamente.

Estou bem ansioso para ver se essa nova geração, que cresceu com Harry Potter, ou com Divergente e Jogos Vorazes, vai aceitar a ingenuidade complexa de STAR WARS. Pensei em compará-la à ingenuidade presente em Guardiões da Galáxia, mas aqui acho que ela é ainda maior, pelo fato de ser menos escrachado, com coincidências forçadas no roteiro que podem não passar batidas como no passado.

STAR WARS PARA SEMPRE!!11

Saí do cinema mais ansioso do que entrei. Por estarmos trabalhando diariamente com isso já havia me convencido de que, até mais do que os filmes de super-heróis, STAR WARS é um gênero em si. A grandiosidade e a possível complexidade da galáxia possibilitam uma gama sem fim de histórias a serem contadas. Rogue One, o spin-off já anunciado, será um filme de guerra; a história pregressa de Han, também já em produção, será a consequência de 007 e Indiana Jones, com que Lucas e Spielberg sempre sonharam. Histórias de formação, de assalto, dramas, comédias, suspense; tudo é viável em STAR WARS, e diversas dessas possibilidades já foram exploradas no universo expandido durante as décadas de 1990 e 2000.

Pessoalmente, quero ver os limites dessas histórias. Espero que a Lucasfilm perceba rapidamente que grande parcela do público gostaria de ver tramas com profundidade semelhante às de renomadas séries de TV.

(PELO AMOR DE DEUS, DÁ PRO JOSS WHEDON FAZER UM FIREFLY DE STAR WARS, NUNCA TE PEDI NADA, LUCASFILM!)

Para finalizar, o que de fato é revolucionário dessa nova fase é exatamente a opção ousada de se contar uma única história em diversas mídias. É algo que a Marvel simplesmente ignora e que Matrix tentou fazer em uma escala infinitamente menor. Livros, quadrinhos, séries, jogos, filmes, todos contando uma única história coesa sobre a galáxia. Esse é um processo que pode ser extremamente problemático, como foi em Matrix, que apresentava furos de roteiro no segundo filme que só faziam sentido para alguém que houvesse jogado o game; mas, ao mesmo tempo, ele pode criar uma nova era para a cultura pop, caso consigam referenciar outras obras mantendo o interesse do público geral.

Bom, vou lá correr com os nossos livros, e que a Força esteja com vocês.

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