Uma visita aos “Sonhos Elétricos” de Philip K. Dick

*Por Leandro Saioneti

Tão profundos quanto os seus populares romances, os contos de PKD (foram 121 ao todo) conseguiram enveredar pelos mais sensíveis pontos da condição humana, estimulando-os como se fossem feitos de carne, nervos e ossos. Em suas páginas, o autor criou personagens que colocaram em xeque a humanidade que existe em cada um de nós, como na mesma frequência também questionaram a nossa desumanidade. Afinal, o que é ser humano?

Diante de realidades futuristas, distopias apocalípticas ou apenas uma noite quente dentro de casa, Dick não esqueceu de mostrar o seu deslumbre e temor para uma sociedade cada vez mais tecnológica, que aos poucos perde a própria identidade. O interessante é que na via contrária, quando os seus protagonistas estão expostos a diferentes questões, perigos ou sentimentos, acabam demonstrando, talvez, o gesto mais particular que ainda temos acesso: a escolha.

E é neste cenário de infinitas possibilidades, que dez contos não apenas saíram do papel e deram vida à série Electric Dreams, disponível no Brasil pelo serviço de streaming Amazon Prime, como se reuniram em uma antologia que acaba de ser lançada pela Aleph com o nome de Sonhos Elétricos. Mas longe de compará-las de forma qualitativa (algo que nós, humanos, adoramos), saiba que o material live-action difere muito em relação à fonte original — começando, por exemplo, pela inserção de protagonistas femininas em quase todos os arcos. Assim, apenas se acomode e conheça um pouco mais sobre as histórias que lhe aguardam — seja nas páginas do livro ou nas telas de televisores, computadores ou celulares. E fique tranquilo, pois aqui será revelado apenas o suficiente para que você tenha bons sonhos…

Igual aqueles com ovelhas elétricas.

– Peça de Exposição (conto) | Real Life (episódio)

Aqui, as histórias apresentam a fuga de seus respectivos protagonistas para realidades alternativas, que figuram como uma espécie de porto-seguro artificial. Porém, enquanto em Peça de Exposição é fácil entender que George Miller, um funcionário da Agência de História no século 23, está deslocado no tempo e espaço, em Vida Real (roteirizado por Ronald D. Moore) é mantida a condição dúbia sobre o cenário cronológico e a própria identidade do/da protagonista. Seria a policial do futuro Sarah (Anna Paquin)? Ou o respeitado designer de séculos anteriores George (Terrence Howard)?

Já as motivações que os fazem se isolar em seus ‘botes salva-vidas’ também diferem. O George do livro sente que nasceu na época errada. Por outro lado, o George da série perdeu a esposa e ainda sofre com isso. Por fim, Sarah sente a perda de colegas do trabalho — e algo mais. Como já dito, aqui a questão das escolhas é fundamental, pois a partir delas os três protagonistas (ou os dois) definem o que pode ser real ou apenas faz de conta. A resposta até parece fácil, mas não chega nem perto disso. Afinal, estamos falando sobre seres humanos, lembra? E isso é o suficiente para que barreira físicas desmoronem feito castelos de areia.

– Autofab (conto) | Autofac (episódio)

Em resumo, um grupo de resistentes tenta ‘fechar’ fábricas autômatas que continuam extraindo recursos naturais desnecessários para ajudá-lo, mesmo anos após o fim da guerra nuclear que dizimou o mundo. Na obra de Dick, a perturbação é inevitável quando percebemos que a ‘culpa’ por este cenário é do próprio homem, quando assim programou os monstros de aço para trabalhar. Já o roteiro de Travis Beacham vai além e mostra a íntima relação dos humanos com A fábrica, quando esta se revela através de uma interface humanoide chamada Alice (Janelle Monáe).

Em Autofac e Autolab a crítica pelo massivo uso dos recursos do planeta e a automatização dos meios de produção é o carro-chefe do enredo, ganhando na adaptação seriada a cereja do bolo que, sem maiores revelações, pode ser entendida como ápice da questão. O interessante, porém, é que a série também dá maior dramaticidade à história, inserindo a hacker Emily (Juno Temple) como peça-chave da resistência e do mistério que envolve a criação da fábrica — diferente do conto de Dick, que conta com três homens na linha de frente. Mas antes que algum spoiler seja escrito a partir daqui, apenas saiba que, quase igual ao ser humano, uma máquina não está salva de defeitos de fábrica, ok?

– Humano é (conto) | Human Is (episódio)

O que é necessário para sermos humanos? Apenas ser? Algo além? Tanto no conto escrito por Dick, quanto no episódio de Jessica Mecklenburg, a questão é alvo de análise quando um marido cruel e desprezível se torna gentil e amoroso após uma viagem ao planeta Rexor IV. No livro, antes Lester era um toxicologista frio, calculista e racional. Na série, Silas (Bryan Cranston) era um rígido coronel doutrinado pela disciplina militar. Já sobre os dois, paira a suspeita que foram possuídos por um rexoriano clandestino. E nesse ponto, as esposas Jill (livro) e Vera (na série, Essie Davis) são a resposta para o mistério.

Jill é dona de casa. Vera, uma diretora militar. Mas independente do cargo que ocupem na dinâmica social, ambas sofrem com os abusos do marido e reagem a sua escancarada transformação. O interessante, contudo, é que enquanto Jill apresenta sua história de forma unilateral (ligada intrinsicamente a Lester), conhecemos os anseios íntimos de Vera, que a fazem humana por essência. Por outro lado, os conceitos de humanidade frente ao marido/alienígena são debatidos ao mostrar que isso não é uma característica particular aos moradores da Terra. É um conceito universal. Assim, o mistério dos enredos não é saber se Lester ou Silas ainda são os mesmos, mas sim, entender o que eram antes. Humanos? Duvido muito.

– Argumento de Venda (conto) | Crazy Diamond (episódio)

Em Argumento de Venda, Ed Morris tenta se livrar de uma realidade futurista, na qual marketing e tecnologia avançada praticamente se atrelaram a cada fresta do cotidiano. Já em Crazy Diamond, Ed (Steve Buscemi) é um fabricante de humanoides que não suporta mais viver em uma comunidade em que cada aspecto da vida parece ser controlado — como plantar uma laranja, por exemplo. Já a maior diferença se encontra nos pontos de escape. Enquanto o primeiro resolve finalmente fugir para Proxima Centauri quando um robô assistente tenta se vender a qualquer custo para ele, o segundo vê na paixão que sente pela humanoide Jill o estalo para finalmente viajar entre os sete mares.

O episódio, escrito por Tony Grisoni, também preza em desenvolver os desejos da mulher de Morris, Sally (Julia Davis), que no conto apenas nega os sonhos de fuga do marido. Na série, ela anseia por mudar de vida, e percebe isso através de uma criatura geneticamente modificada que justamente é proibida de tais anseios. O interessante é que enquanto um Morris entra em colapso frente ao ódio que sente por um robô, o outro se transforma justamente pelo amor que nutre por uma inteligência artificial. O único porém é que independente de qual seja o caso, ‘morrer’ na praia (às vezes, literalmente), pode ser uma triste realidade no caminho para um futuro mais iluminado.

– O Fabricante de Gorros (conto) | The Hood Maker (episódio)

Embora a nossa privacidade externa pareça se esvair como água carregada pelas palmas das mãos, nossos pensamentos permanecem intactos nas barreiras inatingíveis da inconsciência. Mas e se isto acabasse? Eis que em O Fabricante de Gorros conhecemos telepatas (teeps) autorizados pelo estado a investigar livremente a mente das pessoas, a fim de encontrarem possíveis ameaças ao sistema. E nesse cenário, os “gorros” surgem como uma defesa subversiva ao método. O curioso é que na história de Dick, o instrumento na verdade é uma faixa de metal posta sobre a cabeça. Já no roteiro de Matthew Graham, a ferramenta se transformou em um rústico capuz adornado por uma máscara.

O importante entre ambos os enredos, porém, é o ponto de vista. Enquanto no conto seguimos os passos de Walter Franklin, funcionário do governo que recebe a defesa contra a telepatia e passa a ser caçado por isso, no episódio em questão vemos os movimentos do agente Ross (Richard Madden) e da telepata Honor (Holliday Grainger), a procura do fabricante de gorros. Isso modifica a dinâmica da obra ao apresentar os teeps por diferentes perspectivas. Para Dick, são entendidos como seres frios, aliados a uma ideia de superioridade evolutiva. Já na adaptação, tornam-se tão descartáveis quanto aqueles que caçam diariamente. Fora isso, na série é possível entender a telepatia deles como uma moeda de duas faces, ao ver as consequências negativas que eles carregam juntas à habilidade.

No mais, e sem dar spoiler, é importante frisar a ousadia de ambas as histórias. Pois longe de defender a privacidade do inconsciente através de uma lógica simples (afinal, isso é claro), tanto Dick quanto Graham levam às últimas consequências a quebra de sigilo dos mais sagrado dos segredos. E aí, o que pensar sobre isso?

– Foster, você já morreu (conto) | Safe and Sound (episódio)

Outro exemplo sobre como a história no papel ganha diferente perspectiva na tela. No conto de PKD, famílias dos Estados Unidos passam a consumir equipamentos de segurança de forma excessiva, frente a uma guerra nuclear que nunca acontece. Já no episódio adaptado por Kale Egan e Travis Sentell, cidades do país se mantêm isoladas com extensos protocolos de segurança, em meio a atentados terroristas que só aparecem, de fato, nos noticiários da TV. Em comum, as histórias apresentam personagens que fogem ao sistema devido ideologia familiar, mas que querem fazer parte dele.

No primeiro caso, Mike Foster deseja que o pai compre um moderno bunker que salvará sua família do fim próximo. No mesmo caminho, Foster Lee (Annalise Basso) deseja um smartwatch de segurança que a tornará descolada em meios as paranoias do colégio. Então, em menor ou maior grau, ambas tratam sobre o consumismo frente a questões de segurança exacerbada e busca de aceitação social. Afinal de contas, porque não comprar o modelo do ano de tal coisa, para se sentir seguro e popular? Entre tantas obras de Dick, talvez essa seja uma das que mais se comunica com os dias hoje.

– A Coisa-Pai (conto) | Father Thing (episódio)

Se você já foi uma criança que não perdia as aventuras da ‘Sessão da Tarde’, A coisa-pai é o seu tipo de história. Longe de filosofar sobre os grandes mistérios da condição humana, conto e episódio mostram a luta do pequeno Charlie em derrotar a criatura alienígena que tomou o lugar de seu pai. Claro que a versão live-action, roteirizada por Michael Jantar, insere novos elementos, como um contexto mais detalhado da relação do garoto (Jack Gore) com o verdadeiro laço paterno. Mas o grande ponto em torno das duas histórias é mostrar como uma criança enfrenta aquilo que mais amava na vida. E isso, no mínimo, é perturbador.

Aqui, frases de efeito ou teorias mais elaboradas sobre o ontem ou o amanhã dão lugar a ousadia de uma criança que também precisa defender a mãe, ao mesmo tempo em que lida com a falta de seu próprio porto-seguro. Longe de ser apenas uma aventura infantil, o conto de PKD é muito mais denso do que aparenta, e a série soube transportar e adaptar esta atmosfera que, em resumo, clama por sobrevivência, sem esquecer que no fim, o seu grande herói tem hora para dormir.

– O Planeta Impossível (conto) | Impossible Planet (episódio)

No texto de Dick, a Terra é uma lenda. Já para o episódio de David Farr, o planetinha azul está extinto há centenas de anos. Mesmo assim, nenhum dos dois fatos extingue o desejo de Irma Gordon (na série, a atriz Geraldine Chaplin) em viajar para lá. E faz isso ao oferecer um robusto pagamento aos guias turísticos Brian e Ed (respectivamente, Jack Reynor e Benedict Wong) que, tentados pela oferta, decidem enganar a pobre senhora, levando-a para um planeta semelhante. Assim, é importante frisar que enquanto a história de PKD desenvolve sua narrativa de modo mais objetivo em meio a viagem dos envolvidos a um planeta inóspito e praticamente estéril, a trama episódica abre margem para uma relação mais íntima entre Irma e Brian, um jovem que é infeliz pelos desejos de mudança da namorada. E é este fato que fará toda a diferença, ao menos neste caso.

Mas longe de explicar questões que podem revelar peças fundamentais do enredo, é importante frisar ao menos como o conto de Dick constrói uma narrativa dúbia ao perguntar nas entrelinhas, “quem está enganando quem?”. Seria Irma apenas uma velha gagá? Ou a pessoa mais sã frente a descrença dos homens? Seja uma coisa ou outra, O Planeta Impossível pode parecer uma simples viagem ao desconhecido, mas, principalmente no episódio, se mostra a resposta para todos os nossos problemas. Afinal, enquanto há muitas perguntas lá fora, as verdades estão enterradas sobre os nossos pés.

– O Passageiro Habitual (conto) | The Commuter (episódio)

Em mais uma história que mostra o desejo humano em se libertar de seu estado natural, PKD apresenta a jornada do bilheteiro Bob Paine em descobrir a verdade sobre a misteriosa Macon Heights, uma cidade que não existe, mas é destino para muitos que vão à estação de trem. Curiosamente, a mesma investigação é vista no episódio adaptado por Jack Thorne, mas sob o olhar de Ed Jacobson, colega de trabalho de Paine no material original. E enquanto o primeiro também lida com uma relação amorosa instável, o segundo já faz parte de um casamento praticamente destruído frente aos problemas do filho.

Em ambas as versões, o termo “e se” é o elemento principal que desenvolve as tramas. Contudo, o roteiro de Thorne avança nas possibilidades do universo criado por PKD ao dar a chance para o seu protagonista escolher entre viver sua triste realidade ou sonhar em meio a um mundo virtualmente perfeito. Lembra a introdução deste texto sobre as escolhas? Então… Macon Heigths pode ser o lugar que sonhamos estar logo após acordamos pela manhã, ou apenas uma simples névoa nas tristezas e felicidades da vida que pulsam diariamente em nossas veias. Você decide.

– O Enforcado Desconhecido (conto) | Kill All Others (episódio)

Hoje em dia a banalização da violência já se tornou um mero espetáculo, seja para levantar a audiência dos meios de comunicação, seja para saciar a curiosidade mórbida das pessoas. Contudo, O enforcado desconhecido choca pela total indiferença das pessoas frente a um homem enforcado em uma praça. Aliás, quase total, pois Ed Loyce não só operceveu, como também ficou chocado com a total desatenção das pessoas a sua volta. Já sob a perspectiva de Mate todos os outros, adaptado por Dee Rees, Philbert Noyce é o único que reage frente a ordem de uma política para matar todos os “outros”. Mas afinal, quem são eles?

O interessante é que enquanto o texto de Dick insere elementos intergalácticos para dar sentido ao que está sendo narrado, o episódio em questão procura na segregação humana (elemento ainda tão intrínseco à nossa realidade) sua justificativa para matar alguém. E se no conto do escritor, os “outros” estão bem definidos, na adaptação de Rees o terror está justamente nas infinitas possibilidades sobre quem são eles. Você. Eu. Todos. Ninguém. E assim, a Terra gira. Com Trumps no poder e a população em uma eterna angústia…. Até a hora do noticiário acabar e começar o reality show mais quente da temporada.


Sonhos Elétricos
Philip K. Dick
Aleph

Os 10 contos que inspiraram a série Electric Dreams

Tradução: Daniel Lühmann
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*Leandro Saioneti é jornalista colaborador das revistas Monet, Galileu e Mundo Estranho.