Como o intelecto descobre a si mesmo pelo estudo — S. Alberto Magno

Trecho da obra O Ser e a Inteligência — vol. 2, lançamento da Coleção Escolástica para os seus assinantes em dezembro/2017

Resta-nos agora dissertar sobre o intelecto adquirido pelo estudo, e como ele se relaciona à perfeição do homem. A maneira mais conveniente de entendermos isso é examinar o significado do nome. Como dissemos no primeiro livro desta ciência, [intelecto] adquirido é aquele que se adquire pelo estudo. Portanto, o intelecto adquirido é quando, pelo estudo, alguém adquire uma intelecção verdadeira e própria, como recompensa e fruto de seu labor.

Em dezembro na Coleção Escolástica

Isso se dá do seguinte modo: como já dissemos, o que está em potência não se manifesta, nem é recebido, senão mediante aquilo que é seu ato próprio e aquilo que se tornou efetivo. [O intelecto] entende em parte — essa parte corresponde às suas possibilidades que foram efetivadas — e entende cada vez mais, quanto cada vez mais se torna efetivo. Finalmente, entende tudo, quando tudo o que nele estava em potência se torna efetivo. Dissemos na Física que o intelecto possível, o qual é uno e indivisível segundo a potência, é todos os inteligíveis em potência. Portanto, só intelige na medida em que se torna efetivamente os inteligíveis, e se torna totalmente adquirido quando se torna efetivamente todos os inteligíveis que antes era em potência. Assim, o homem adquire seu próprio intelecto.

Por isso Platão diz que a mais correta definição da filosofia é o conhecimento de si mesmo, e disse Alfarábi que a alma foi posta no corpo para que descobrisse e conhecesse a si mesma, e, segundo ele, Aristóteles afirma (mas onde afirma, não sei): “A verdadeira demonstração do que se disse é a seguinte: A primeira imagem da luz da causa primeira que foi unida ao contínuo e ao tempo é o intelecto humano. Por isso é necessário que [o intelecto] seja uma semelhança de todas as coisas feitas pela luz da causa primeira, e abarque-as todas, e seja um receptáculo de algumas coisas enquanto imagem da causa primeira, e de outras enquanto está unido ao contínuo e ao tempo, e que se descubra a si mesmo em ambas as coisas. Por isso também toda verdade é própria do intelecto, e a falsidade lhe é contrária. Com efeito, a mente humana é uma certa imagem e semelhança da verdade primeira, que é a semente de todas as verdades. Portanto, ela é de algum modo semelhante a toda verdade, e dessemelhante da falsidade. Essa é a razão por que o intelecto é sempre intelecto da verdade. O engano e a falsidade entram nas potências imaginativas”.

A partir disso podemos entender que a contemplação das verdades sublimes é causa de sumo deleite e é naturalíssimo [no homem]. Na [contemplação], a natureza do homem enquanto homem refloresce, sobretudo na contemplação das realidades divinas, pois segundo o que se disse, é [nas coisas divinas] que o homem maximamente descobre a si mesmo segundo a natureza que lhe é própria, pois o homem enquanto homem é somente o intelecto. O que dissemos da verdade se pode dizer do bem. [O intelecto] é a imagem do bem primeiro do mesmo modo como é imagem da verdade primeira. Assim, o verdadeiro bem que existe sempre em todos os lugares, e que é o bem natural de todas as coisas, é seu bem conatural. [Neste bem] ele se deleita e goza, embora esteja agora afastado do bem por estar unido ao contínuo e ao tempo. Mas [o intelecto], enquanto separado, e não sendo o ato de nenhum corpo, possui a verdade que lhe é conatural, e goza de deleite sem contrariedade e sem corrupção do bem e da verdade.

Talvez alguém pergunte: se o intelecto possível se torna efetivo pela forma inteligível, e se o que é efetivo não está em potência, como pode [o intelecto], estando efetivo quanto a um [inteligível], permanecer em potência quanto a outro inteligível? A solução para essa [questão] e outras similares fica clara pelo que já dissemos. Dissemos que a oposição, a disparidade, a diversidade e outras coisas similares não se seguem da forma senão quando está na matéria. Mas quando [as formas] estão na luz do agente, são simples, indivisíveis e estão unidas, pois são uma e a mesma coisa na causa primeira. Por essa razão, na luz [da causa primeira] estão unidas umas às outras, não se apartando umas das outras nem se excluindo mutuamente, principalmente porque não estão no intelecto como na matéria ou num sujeito, tomado propriamente.

Isso deixa claro, portanto, como se adquire o intelecto pelo estudo.

Gostou? Isto e muito mais no próximo mês da Coleção Escolástica.