O Reino de Cristo, por Francisco de Vitória

Trecho da obra Sobre o poder civil, os índios e a guerra, segundo lançamento da Coleção Salamanca

Parece completamente frívolo e próximo ao erro dos judeus o dizer que Cristo foi rei segundo a sucessão da carne. Pois para os judeus ele haveria de nascer de uma grande casa, e haveria de reinar temporalmente e restituir o reinado de Davi, coisas entendidas todas à maneira natural e segundo a carne. Porém, segundo o Apóstolo [II Coríntios 3:6]: A letra mata, mas o espírito vivifica. Tampouco veio o Cristo à terra visando a uma república temporal; não veio trazer paz à terra, mas a espada, que é o término da república temporal.

Portanto, deixando de lado esta frivolidade dos judeus, cuja visão se turva em plena luz do sol, digo que o reino de Cristo era mais excelente que aquele que estes cogitavam. Pois era monarca do mundo, não por sucessão, mas por dom do Pai em virtude da união hipostática. Tampouco se tratava de um reinado desse mesmo tipo com que se alegram os príncipes da terra. E julgo ser esta a opinião de Santo Tomás em Sobre o Governo dos Príncipes.

Assim, o reino de Cristo difere dos demais.

Primeiro, porque o reino de Cristo se estende às almas; os demais, apenas aos corpos. Igualmente, os demais se estendem apenas às coisas inferiores; o de Cristo, também às celestiais. Daí que ele próprio nos diga (Mateus 28:18): Foi-me dado todo o poder no céu e na terra.

Segundo, com respeito ao fim, pois [o de Cristo] é mais principal e imediato no tocante à capacidade humana. Pois o fim principal e imediato dos demais reinos é a felicidade humana e a paz na república; é apenas de modo menos principal que eles atendem à salvação espiritual. Já no reino de Cristo se dá o contrário. Pois ele tem como fim primeiro a salvação das almas, ainda que também de modo secundário tenha como fim a felicidade humana.

Terceiro, porque os demais apenas se estendem ao tempo presente. Já o de Cristo se estende ao futuro, pois seu reino não terá fim.

Próximo lançamento da Coleção Salamanca

Quarto, porque os demais reinos derivam do consentimento do povo mediante sucessão. Já o de Cristo procedeu imediatamente de Deus. E a isto parece referir-se o que o anjo disse a Maria: E o senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, com o que claramente se indica que o reino deve competir-lhe por dom de Deus, não por outro direito. Também Salmos 2:6: Por ele me constituí rei. Ademais, se Cristo tivesse o reino por direito hereditário, tal reino teria fim com Sua morte; mas foi dito: Seu reino não terá fim. Também: se o reino lhe fosse devido por poder hereditário, quer por parte de mãe, como afirma Armacanus, quer por parte de José, Cristo ainda não haveria sido rei enquanto eles vivessem; pois o filho de um rei não é rei estando vivos o pai ou a mãe dos quais herdou seu reino. Diz ainda o Deuteronômio (17:15): Não poderás fazer rei um homem de outra gente, que não seja teu irmão. Ora, se uma mulher pudesse ter sucessão no reino dos judeus, teria podido ela mesma aceitar um marido estrangeiro, e este seria rei, o que é contrário à própria lei. Do mesmo modo, ela teria podido desposar o primogênito de Benjamin ou de Levi, e, quando reinasse seu filho, o reino passaria da tribo de Judá à de Levi ou Benjamin.

Quanto a haver sido de tipo distinto do dos reinos temporais: como diz Aristóteles no livro I da Política, os regimes diferem segundo seus diversos fins e seus variados modos de governo. Ora, como no reino de Cristo e nos demais regimes são distintas as leis e os fins, segue-se que ele difere em espécie dos demais. E o fim do reino de Cristo se declara suficientemente em Salmos 2:6, onde se afirma, na pessoa d’Ele: Por ele me constituí rei, seguido de: Proclamando sua lei. Ali parece declarar-se o fim do reinado de Cristo, a saber, predicar e reger o gênero humano nos preceitos de Deus. O mesmo parece deduzir-se do que foi dito a Pilatos (João 18:37): Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade, como quem diz: “ainda que eu seja rei, como dizes, não me julgues ser rei para governar nos bens temporais, mas para proclamar a verdade”. Diz ainda (João 18:36): Meu reino não é deste mundo. Com isto quis mostrar duas coisas: primeiro, que não tinha um reino deste mundo, isto é, proveniente de seus pais; segundo, que não era modelado segundo a forma e o modo dos reinos humanos.

Já às razões de Armacanus, responde-se facilmente.

Quanto ao dito sobre as filhas de Zelofeade em Números 27, responde-se de duas maneiras. Primeiro, que tal lei não se observava na herança de reinos, como ensina a Escritura, pois nunca uma filha herdou um reino. E a razão disso é que o povo de Israel havia pedido um rei, e um lhes foi dado para que marchasse à frente em suas guerras (como está claro em I Samuel:8 e 9), e este ofício não compete às mulheres. Segundo, que de nenhum modo está provado que a Virgem Maria fosse consangüínea com os reis de Israel, tampouco José. E, mesmo se tal ponto se provasse, não por ele Cristo seria rei.

Quanto ao primeiro de seus argumentos, respondemos que não negamos a Cristo o poder também nas coisas temporais, mas que este não deriva de seus pais, nem se destina a um fim apenas temporal, mas ao muito mais elevado fim espiritual. Quanto ao segundo, o que Cristo quis responder está claro pelo que foi dito. Pois não negou o reino, mas o modo e o fim do reino. Quanto ao terceiro, respondemos que, embora Cristo viesse para todos e fosse monarca de todos — como depois será dito mais claramente –, Ele veio de modo especial para as ovelhas de Israel. Quanto ao quarto, está claro pelo que foi dito. Pois não negamos que Ele tenha sido rei dos judeus. Quanto à menção a que Ele não quis ser rei (em João 6), defendemos que ele não quis valer-se das coisas temporais, pois em nada conduziam ao fim de seu reino; ao contrário, impediriam este mesmo fim.

Quanto ao quinto, está claro que os reis magos entenderam a profecia em seu sentido mais autêntico e verdadeiro, pois os judeus e os demais o encontraram deitado numa manjedoura e em casa paupérrima, e isto não os impediu de honrá-lo como rei, como diz Crisóstomo ao comentar Mateus.

Quanto ao sexto, várias são as possibilidades de resposta, mas para o momento nos basta dizer que, ou Cristo desejou demonstrar a liberdade da Igreja e a imunidade dos eclesiásticos, ou quis mostrar que Ele não estava obrigado, que é o que também cremos. Mas isto não se deu devido à sucessão, mas ao dom de Deus em razão da união hipostática.

Sobre o reino de Cristo, deve-se notar que, como defende Santo Tomás no livro III de Sobre o Governo dos Príncipes, primeiro Cristo teve poder também segundo sua humanidade. Di-lo Ele próprio (Mateus 28:18): Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. Dizem Jerônimo e Remígio que esta passagem deve entender-se também segundo a humanidade, como indica o profeta: Constituiu-o sobre as obras de suas mãos. O mesmo diz Agostinho e também o Apóstolo (I Coríntios 15:27), quando afirma referir-se a Cristo as seguintes palavras: Tudo puseste debaixo dos seus pés (Salmo 8:8).

No capítulo 12 de Sobre o Governo dos Príncipes, Tomás enumera o que sejam coisas próprias deste reino. Mostra-se de modo suficientemente claro que o reino de Cristo foi ordenado à salvação das almas e aos bens espirituais, embora não exclua os temporais, na medida em que estes se ordenam aos espirituais. Diz-nos ali também que César Augusto governou no lugar de Cristo, que era o verdadeiro monarca. No artigo 14 afirma que a monarquia de Cristo iniciou-se em seu nascimento, em cujo sinal os anjos serviam aos pastores e os magos vinham para adorá-Lo. No artigo 15, diz: embora fosse senhor do mundo, ordenou seu principado à vida espiritual, como consta em João [10:10]: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”. No artigo 16, afirma que Constantino, movido por inclinação divina, sentiu-se chamado a entregar e ceder o domínio a São Silvestre, a quem de direito era devido propriamente o reino ou domínio temporal, não do modo em que hoje é devido e o detêm em algumas terras, mas do modo em que detêm em todo o mundo tanto quanto seja requerido para o reino espiritual das almas; nunca Santo Tomás sonhou que Cristo tivesse o reino por via de sucessão, nem do modo pelo qual reinam os demais reis.

E na Terceira Parte da Suma Teológica, questão 59, onde trata do poder de Cristo, prova no artigo 4 que Cristo haveria tido poder sobre as coisas humanas, pois a qualquer coisa que se comprometa o principal, compromete-se o acessório. Ora, todas as coisas humanas se ordenam ao fim da bem-aventurança, que é a salvação eterna, à qual os homens são admitidos ou rejeitados segundo o juízo de Cristo (Mateus 25). Logo, é evidente que ao poder judicativo de Cristo competem todas as coisas humanas. E é sobre tal poder que se diz em Daniel (7:14) que lhe foi dado o poder, a honra e o reino. Em toda a Terceira Parte não se fala em nenhum momento de outro poder temporal do Cristo, sendo que é aí que se tem como propósito tratar d’Ele. Todos os sonhos em contrário podem ser absolutamente deixados de lado. Creio mesmo que, quando Santo Tomás escreveu a Terceira Parte, imaginava que os imperadores eram vigários de Cristo nos assuntos temporais, embora também tenha dito em Sobre o Governo dos Príncipes que todos os que não receberam o império com consentimento da Igreja Romana foram tiranos. Não creio que isto seja verdadeiro com respeito ao poder temporal propriamente dito, mas porque o povo cristão não consentiu naquilo; ou ainda porque o domínio temporal às vezes pertence extraordinariamente ao Papa em razão de seu governo espiritual. Ou mesmo se diria que os imperadores e reis eram vigários de Cristo e seus sucessores no sentido que indicamos, ou que estavam sob Cristo porque, seja a Ele enquanto Messias, seja ao Papa enquanto Seu vigário, foi-lhes dado poder de valer-se das coisas temporais e de reinos no que fosse necessário para seu fim e ofício próprio, isto é, para o governo da Igreja. E assim teriam algum poder sobre reis e imperadores. Mas não creio que os monarcas recebam do Papa seu poder temporal.

Lira e Gorram concordam em que o reino de Cristo não se deu apenas por sucessão. Ora, quem quisesse dizer que os pais de Cristo foram verdadeiros reis estaria obrigado a dizer que os macabeus foram tiranos, que, estando vivos os reis, ocupavam o império. Mas diz-nos Santo Tomás, em Sobre o Governo dos Príncipes, III, que eles tinham verdadeiro principado e domínio, ainda que fossem de linhagem sacerdotal, pois mereceram o império devido ao seu zelo pela pátria e pela lei. E serve a este mesmo propósito o que o Senhor (em Lucas 12:13–14) falou de si em resposta ao jovem que o interpelou. Disse o jovem: Mestre, dize a meu irmão que divida comigo a herança. Ao que replicou o Senhor: Homem, quem me constituiu juiz ou repartidor sobre vós? Donde vemos que Ele nega ter poder temporal para julgar. Vejam-se também Santo Antonino e Henrique de Gand, as glosas aos capítulos 2 e 7 de Daniel, e Paulo de Santa Maria, que, em seu Escrutínio das Escrituras expõe de forma completa o reino espiritual de Cristo ao comentar os referidos capítulos de Daniel; disse que o reino de Cristo derrubou todos os demais, não com guerras, nem removendo seu poder temporal, mas eliminando a idolatria, que imperava sobre aqueles quatro reinos e neles exercia tirania, como Batista de Mantua escreveu haver respondido a certo judeu. E muito maior poder se manifesta em que os homens tenham mudado seus deuses do que seus reis.

Gostou? Isto e muito mais no próximo lançamento da Coleção Salamanca.