Uma leitura de Os incontestáveis

Editora Cousa
Sep 7, 2018 · 3 min read

por Ângela Vilma*

Sempre vejo como grande romance aquele em que o escritor consegue fazer com que as experiências dos personagens sejam vividas por nós — leitores — na psique e no corpo. O bom romancista sabe dosar esta experiência costurando o enredo dentro da linguagem apropriada à narrativa, assim como os antigos artesãos costuravam suas narrativas orais com ganas de ganhar seu ouvinte. Nesses, o objetivo era ganhar a atenção a fim de que quem ouvisse a história a passasse adiante, através de gerações, tendo sempre a Sabedoria como alicerce (isso todos sabem porque foi dito pelo grande pensador alemão, não se faz mais necessário citar o nome, rs).

Nos dias atuais acredito que a Sabedoria — seja no conto, seja no romance — não desapareceu: continua existindo nos rastros deixados pelo vazio e pela desesperança. O bom romance curto, habilitado pelo jogo de contenção linguística, nos favorece a atmosfera densa dentro da aparente banalidade; e esta nos mostra a dor que sabemos sentir diante da vida em suas ausências, tédios, frustrações, perdas, nos abraçando com Compaixão: eis a possível sabedoria que nos foi legada.

Estou falando de minha experiência particular com um grande romance lido nesta tarde: “Os incontestáveis”, do capixaba Saulo Ribeiro. Li o primeiro período e não consegui sair. Um período curtíssimo (“Antes do sol.”) acompanhado de uma cena bem cotidiana (“Bafo de quem saiu da cama e quer voltar, sem fome, a sinusite ameaçando e eu parado nesta calçada.”), me chamou para ficar, entrar num opala e viajar com dois irmãos: Bel e Mau. Bel (na verdade Belmont — nome dado pelo pai em homenagem ao cigarro da década de 70) e Mau (de Maurício), nome menos traumático e que favorece a uma personalidade mais introspectiva e apeladamente perdida da década de 80. Eu me vi imediatamente em Mau e vi minha irmã em Bel. No nosso caso seria um fusquinha branco — pertencente a pai e à nossa infância — que teríamos como objeto de busca. No caso deles é um maverick, carro que marca o pai, o passado, a infância, enfim, toda a história (e drama) familiar dos dois irmãos.

Quem entra nas páginas deste Opala não sai até chegar à última página; tampouco ao chegar à última: lá dentro do livro ficará, mordido em pensamentos. Sem a canalhice de reflexões psicanalíticas afetadas, saímos da narrativa como recém saídos de um divã diferente: o divã que é a poltrona de um carro — sem recheios e confortos, mas com a dureza da ausência para sempre lá instalada e a sofrida sensação de que realmente tudo é um grande tédio: revoluções, História, viagens, a própria vida.

Com doses de humor, Bel e Mau atravessam as páginas deste grande romance, permeado de diálogos riquíssimos filosoficamente, sem (graças!) qualquer ranço acadêmico: “na palavra crua, caralho, deixa de ser besta!,” responderia Belmont.

*Ângela Vilma é poeta e professora adjunta de Teoria da Literatura no curso de Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

** originalmente publicado no perfil da autora no facebook.

Encontre o livro aqui:

https://cousa.minestore.com.br/produtos/os-incontestaveis

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade