Uma leitura de Os incontestáveis
por Ângela Vilma*
Sempre vejo como grande romance aquele em que o escritor consegue fazer com que as experiências dos personagens sejam vividas por nós — leitores — na psique e no corpo. O bom romancista sabe dosar esta experiência costurando o enredo dentro da linguagem apropriada à narrativa, assim como os antigos artesãos costuravam suas narrativas orais com ganas de ganhar seu ouvinte. Nesses, o objetivo era ganhar a atenção a fim de que quem ouvisse a história a passasse adiante, através de gerações, tendo sempre a Sabedoria como alicerce (isso todos sabem porque foi dito pelo grande pensador alemão, não se faz mais necessário citar o nome, rs).

Nos dias atuais acredito que a Sabedoria — seja no conto, seja no romance — não desapareceu: continua existindo nos rastros deixados pelo vazio e pela desesperança. O bom romance curto, habilitado pelo jogo de contenção linguística, nos favorece a atmosfera densa dentro da aparente banalidade; e esta nos mostra a dor que sabemos sentir diante da vida em suas ausências, tédios, frustrações, perdas, nos abraçando com Compaixão: eis a possível sabedoria que nos foi legada.
Estou falando de minha experiência particular com um grande romance lido nesta tarde: “Os incontestáveis”, do capixaba Saulo Ribeiro. Li o primeiro período e não consegui sair. Um período curtíssimo (“Antes do sol.”) acompanhado de uma cena bem cotidiana (“Bafo de quem saiu da cama e quer voltar, sem fome, a sinusite ameaçando e eu parado nesta calçada.”), me chamou para ficar, entrar num opala e viajar com dois irmãos: Bel e Mau. Bel (na verdade Belmont — nome dado pelo pai em homenagem ao cigarro da década de 70) e Mau (de Maurício), nome menos traumático e que favorece a uma personalidade mais introspectiva e apeladamente perdida da década de 80. Eu me vi imediatamente em Mau e vi minha irmã em Bel. No nosso caso seria um fusquinha branco — pertencente a pai e à nossa infância — que teríamos como objeto de busca. No caso deles é um maverick, carro que marca o pai, o passado, a infância, enfim, toda a história (e drama) familiar dos dois irmãos.
Quem entra nas páginas deste Opala não sai até chegar à última página; tampouco ao chegar à última: lá dentro do livro ficará, mordido em pensamentos. Sem a canalhice de reflexões psicanalíticas afetadas, saímos da narrativa como recém saídos de um divã diferente: o divã que é a poltrona de um carro — sem recheios e confortos, mas com a dureza da ausência para sempre lá instalada e a sofrida sensação de que realmente tudo é um grande tédio: revoluções, História, viagens, a própria vida.
Com doses de humor, Bel e Mau atravessam as páginas deste grande romance, permeado de diálogos riquíssimos filosoficamente, sem (graças!) qualquer ranço acadêmico: “na palavra crua, caralho, deixa de ser besta!,” responderia Belmont.
*Ângela Vilma é poeta e professora adjunta de Teoria da Literatura no curso de Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
** originalmente publicado no perfil da autora no facebook.
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