Quem precisa de “leitores sensíveis” ou sensitivity readers?

No dia 04/07 a Folha de São Paulo publicou uma reportagem sobre uma prática nova de algumas editoras no exterior, que contratam “sensitivity readers” ou, “leitores sensíveis” para opinar sobre os originais antes de sua publicação e orientar a produção das obras. O objetivo é evitar que as obras publicadas sejam recebidas pelo público como problemáticas em termos dos direitos humanos.
 
Muitas questões vêm sendo colocadas desde o fim de semana, por isso: a prática é saudável para a produção literária? Até que ponto?
 
Nós da Linha a Linha trazemos uma outra questão, que apesar de fundamental parece ter sido esquecida nos debates sobre o tema:
 
Quem precisa dos leitores sensíveis?
 
Em outras palavras: o que a existência dessa prática nos diz sobre o mercado editorial em geral, sobre como ele funciona e sobre como está organizado nosso trabalho, da criação do autor à venda dos livros?
 
 O que isso nos diz sobre a formação dos editores e outros e outras profissionais das equipes editoriais no que diz respeito aos direitos humanos, às lutas históricas de minorias sociais, e à dimensão inerentemente política da vida em sociedade?
 
O que isso nos diz sobre quem são e de que contexto social vêm as pessoas que trabalham no mercado editorial?
 
Não é preciso recorrer a estudos muito obscuros para saber que, assim como em outras indústrias ao longo do século XX e nas primeiras décadas do século XXI, com o desenvolvimento do capitalismo a produção de livros passou por um processo de segmentação e especialização do trabalho. Esse processo teve uma orientação bastante tecnocrata como em toda indústria — afinal, trata-se de uma indústria e de um mercado específicos.
 
A lógica era a mesma de todas as empresas:
 
 — racionalizar o processo (divisão técnica e especializada de funções, trabalho segmentado)
 
 — otimizar recursos (computadores permitem, por exemplo, que cada funcionário realize mais funções do que era possível com uma máquina de escrever, e numa velocidade maior; reestruturar as funções das equipes, demitir empregados; etc.)
 
 — aumentar a margem de lucro de cada venda
 
 Outra característica desse processo é que as obras são mercadorias. Por isso, um projeto de um livro é medido e avaliado, pelas grandes editoras e seus investidores como… um investimento, oras. Publica-se aquilo que se supõe que vai vender.
 
Assim como no caso de outros produtos da indústria cultural, como por exemplo o cinema, o resultado desse combo é cada vez menos espaço para originalidade e inovação (afinal, investe-se naquilo que é “seguro”): alguém aí já notou como aumentou nas últimas décadas a quantidade de filmes baseados em livros que já se sabe que “deram certo”? Ou sequências e franquias?
 
Mas bem, aí é que entram os tais “leitores sensíveis”.
 
Num mercado editorial tão dinâmico quanto o estadunidense (o caso brasileiro é um pouco diferente, ao que sabemos), é preciso fazer o investimento dar certo. Diante de um original que o editor pensa ser bacana, ele contrata um “leitor sensível” para tentar enxergar problemas na obra.
 
 A pergunta que nos fazemos é:
 
 Por que esse editor não é capaz de perceber, ele mesmo, os problemas da obra, e trabalhá-los ao longo da construção editorial com o autor? Se a editora tem tanto apreço pela própria marca (que não pode ser “manchada” com uma acusação ou polêmica pública), por que não contratam de saída autores e editores que sejam, eles mesmos sensíveis? Por que as editoras não se propõem, elas mesmas, a serem editoras sensíveis?
 
 A resposta é simples: em nome de uma suposta “capacidade técnica” do editor, as editoras preferem contratá-lo mesmo que seu conhecimento sobre direitos humanos seja pífio. A “sensibilidade” para com as desigualdades de nossa sociedade, aparentemente, não são um pré-requisito tão importante assim para elas. Da mesma maneira, não se propõem a incluir em suas linhas editoriais um posicionamento político sobre a questão, e nem fazem uma reflexão sobre as suas práticas de trabalho.
 
 Na Linha a Linha nós não temos “leitores sensíveis” — em vez disso, buscamos ser uma editora inteiramente sensível, seja nas nossas práticas de trabalho, nas obras que escolhemos publicar, na relação com o público, em nossa linha política e ética editorial. A construção de uma sociedade mais justa e igualitária, sobretudo em termos de gênero, é um ponto central de nossas atividades, e pré-requisito para todas e todos que trabalham conosco.
 
 Nesse clima, estamos preparando para julho a nossa primeira chamada para originais de prosa! As autoras selecionadas passarão a integrar o selo Carolina — assim batizado em homenagem a uma das grandes autoras da literatura brasileira, Carolina de Jesus.
 
 Aguardem novidades!
 
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e, enquanto isso, conheçam nosso novo site: http://www.editoralinha.com.br/