Com quantas Gretchens se faz uma geração?

Da pré-história do pornô nacional aos bombardeios do YouTube: o Brasil está dando uma aula de linguagem pós-contemporânea para o mundo.

Este texto foi publicado na Índigo Fanzine #00 2017 / / leia no yumpu ou faça o download grátis clicando a q u i

Do aham, Cláudia, senta lá até o logo eu tem sido uma jornada. A Xuxa ficou (ainda mais) satânica, a Giovana derrubou o forninho e a Ana Maria Braga foi atropelada ao vivo. Sem falar na Kelly Key usando um computador da Era Paleozóica vestida igual o elenco de Malhação: um clássico!!! Mas, sem dúvida alguma, a grande personalidade dos memes é a ̶I̶n̶ê̶s̶ ̶B̶r̶a̶s̶i̶l̶ Gretchen, ex-atriz pornô brasileira, atual presidenta da internet e estrela do novo vídeo da Katy Perry.

As timelines ficaram loucas essa semana. Todos os milhões de membros do grupo LDRV compartilharam pelo menos cinco vezes só ontem o vídeo novo da parceria mais comentada de 2017 (pelo menos durante os próximos cinco minutos). Até o jornalismo tradicional se curvou ante tamanho feito.

E quem é Gretchen no Google?

Para Marcelo, os memes dela são os melhores. Ele diz que é “pela cara debochada que pode ser usada para zombar de alguém ou jogar uma indireta pros crush, né não?”. É sim!!!!

Mas de onde vieram os memes?

Não foi de nenhuma caverna onde a Glória Maria teve que entrar para o Globo Repórter. Na verdade, foi do livro “O Gene Egoísta”, do biólogo Charles Dawkins (não é Charles Darwin viu, cuidado com a burra), que cunhou essa expressão definindo-a como o fenômeno de replicação, de mimetismo.

“A internet se re-apropria de teorias biológicas como os memes ou processos virais”, diz Eduardo Campos Pellanda, estudioso da linguagem. “Isso mostra o componente orgânico de rede. Assim como na biologia uma espécie se adapta ao meio, a linguagem está se adaptando neste novo ambiente”.

Para entender o que é um meme, precisamos entender toda uma linguagem que se estabelece no meio digital. Além de Eduardo, outros pesquisadores e linguistas buscam compreender os processos de imersão dos memes no cotidiano e na formação dos grupos e sociedades.

Verena Santos Abreu, uma dessas estudiosas na área acadêmica, conversou comigo (pela internet, claro) sobre como a Língua Portuguesa vem sendo transformada nesse meio. “A primeira coisa que temos de nos lembrar é que a língua é viva”, ela diz, observando que costumava-se estudar e discutir só a língua falada e que isso mudou com o advento da internet.

“Uma variação na escrita também aparece, com características bastante peculiares: uma escrita consonântica (q, vc, tbm, pq), palavras cifradas (d+, até +), proximidades com a fonética (naum, xau, amu), substituição do acento agudo em oxítonas pela letra “h” (eh, neh), redução de expressões (fds), repetição de letra para indicar intensidade (bjosssss, muiiiiito, adorooooo), dentre outros traços”.

De acordo com Eduardo, o texto que usamos no espaço virtual não é (e não pode ser) o mesmo que o que usamos nos livros e nas revistas, por exemplo. “O texto não se desenvolveu para uma comunicação em tempo real como estamos utilizando”, ele observa. “Este é um dos motivos da criação espontânea dos emojis”.

E o que isso tem a ver com a Ana Maria Braga?

Assim como nossa apresentadora predileta, o meme não é para qualquer um. Gostaríamos que fosse, que todos na mesa do jantar entendessem quando a gente diz “ah ta” pensando na Mônica e que nossos parentes mais velhos ou mais deslocados não ficassem (tão) preocupados quando anunciamos que queríamos estar mortas ou que não interpretassem (tão) errado quando a gente avisa que quem acessa nossas redes é nosso assessor.

Deus, perdoe todos. Eles não sabem o que fazem. E não sabem o que a gente faz também. Isso porque, de acordo com Eduardo, para compreender um meme é preciso “entender um padrão de comportamento baseado em uma persona que se espalha rapidamente em rede. Isso é um desenvolvimento natural do ambiente de rede somado a uma apropriação de comportamentos sociais”.

Para a pesquisadora Renise Cristina Santos, que observou o surgimento e uso de neologismos no Facebook em seu mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais, é como o que acontece com expressões escritas que só cabem em alguns contextos ou para algumas pessoas. Quando utilizado em um lugar onde não foi divulgado e compreendido, o meme causa estranhamento e interpretações erradas. “O interlocutor da postagem se perde na conversa e fica sem saber do que se trata”, diz Verena, referindo-se aos signos de linguagem, e acrescenta que é preciso estar atento ao dinamismo deles para conhecê-los.

Letícia, 20, tem uma pasta em seu computador com mais de 100 imagens de memes, que ela usa o dia todo. “Vou na pasta e escolho um que melhor me define naquele momento”, ela conta. “Assim, eu não preciso ficar me explicando ou mesmo esperando que a pessoa entenda o que eu sinto se ela não está me vendo. O meme faz isso. Geralmente, a Gretchen.”

Realmente, temos tantas expressões, situações e ângulos registrados da Gretchen que não é por acaso que ela se tornou poderosíssima, igual a Gisele Bundchen. Para Letícia, os melhores memes vieram do reality A Fazenda. “Quanto mais ridículo um programa, mais memes”, ela diz.

Isso deixa uma reflexão. Sendo o meme a replicação ou simulação de nosso próprio estado ou sentimento, e se ele surge de lugares que consideramos ridículos, talvez a gente seja um pouco ridículo também…

Percebe Ivair a petulância do cavalo?

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