
Amor e raiva do expectador para o personagem
Certa vez emprestei para um amigo o filme “Les Amours Imaginaires”. Quando pensei que iamos discutir sobre o filme, ele me veio com o seguinte comentário: “não gostei. Não gosto de gente daquele tipo”. Disse que não gostou do filme porque não gostou do personagem. Tentei questionar, argumentar para sair daquele campo redutor do tema e chegar na discussão que eu queria: falar do conteúdo do filme e falar do amor. Não adiantou. Ele se fechou na impressão que teve do personagem.
Meu amigo falou que não gostava de gente sedutora, manipuladora e arrogante. Disse que ficou com raiva e não teve discussão. E eu querendo discutir o que era essa ideia de amor que estava na cabeça dos personagens seduzidos e que foram abandonados pelo sedutor. A questão dava título ao filme: o amor dos seduzidos é um amor imaginário. Amores imaginários existem! Era isso que eu diria a ele.
Não consegui meu intento. Meu amigo desapareceu, e me deixou uma questão para refletir: sua incapacidade em separar a rejeição ao personagem o impossibilitava discutir o tema comigo. Eu queria falar do amor, ele da raiva.
Sexta-feira passada assisti “Vincent River” no teatro do Sesc Vila Mariana. Uma peça dramática, com diálogos bem interessantes de um encontro inusitado entre a mãe de um jovem assassinado num crime de homofobia e um outro jovem que se revelava aos poucos. Fiquei instigado e me diverti dragado pelas conversas e ao mesmo tempo analisando atuação, cenário e texto. Mas na última parte, entre as revelações finais do jovem personagem, de repente, me vi tomado pela raiva (porque o jovem presenciou o assassinato sem tentar evitar). Devo dar mérito ao texto que me chamou para dentro, e que de repente me deixou tomado (invadido) por um sentimento de raiva tão intenso que saí do teatro prestes a dizer que não gostei da peça. Exatamente porque lembrei daquele amigo, não quero dizer que não gostei. Interessa saber que senti a raiva e que é preciso saber a diferença. Que uma obra deve ter poder de nos provocar um sentimento qualquer.
Eu como expectador devo decidir escolher o que quero ver e quando quero me expor a uma obra a favor de sentimentos negativos. Mas preciso exatamente desta reflexão (sobre o bem e o mal, sobre ser ou não ser, sobre quem é quem) saudável e me faz bem e me provoca. Me vejo tentando entender o todo. Tentando me colocar no lugar dos amigos da discussão e refletir com eles. Faço o mesmo com os personagens que conheço.
No fundo ser expectador é participar de uma troca de experiências.
Passo para outra sensação (muito boa, desta vez) que justifica minha paixão pelo teatro e porque manterei o hábito de ir. Vi à peça “Ledores no breu”, uma compilação de textos (tipo monólogo) onde o ator Dinho Lima Flor, da Cia do tijolo, revela/recita/representa textos sobre situações do analfabetismo no Brasil, e desfila um amor pelas palavras e nos convida a um entendimento melhor sobre a nossa língua. Quanto ao estilo de representação propriamente dito, este é um pouco diferente. É um teatro de resistência. É provocativo no sentido mais sério e instigador, quase romântico.
Durante a apresentação, porém, sou chamado para dançar. De repente me vi dançando no meio do palco (Peito vazio _ Cartola). Só eu e ele nos centro das atenções. Adorei isso. Despertou um sentido gostoso de orgulho e sedução, bagunçando meu sentimento de expectador. Dançamos coladinhos, e escutei o coração dele bater acelerado contra o meu que também batia forte. E sorri com o carinho com que dirigiu-se a mim. Me sentia muito mais leve quando saí do teatro. Entrei atraído pelo tema, pelos textos da peça que variavam de Paulo Freire à Chico César, pela performance carismática agradável e intelectual do ator. E tentei separar meus sentimentos, novamente.
Mas e aquele coração batendo. Era do personagem?