Uma benção e uma maldição: família. Originalmente escrito em 09/02/16.

Acabei de assistir ao documentário sobre Amy Winehouse, AMY (2015).
Confesso que hesitei um pouco em ver, tenho certa resistência a esse tipo de trabalho póstumo. Mas li tanto a respeito depois que soube que foi assinado pelo Asif Kapadia, com trilha do Antonio Pinto — não tinha como não ser um trabalho sério (ainda mais com as indicações ao Oscar e ao Brit Awards).
Eu tive o privilégio de ter uma inesquecível experiência com a cantora no ano da sua morte, em 2011, na turnê que ela fez pelo Brasil que a levou para Florianópolis, São Paulo, Recife e Rio de Janeiro. Lembro de ter trocado tweets no mesmo ano com o vocalista da banda, Zalon Thompson. Ele disse que a passagem pelo Brasil foi um momento feliz para ela, estava alegre, bem humorada, fez cinco shows sem grandes problemas. Confirmo tudo: estive muito perto do palco na apresentação de Recife e, ao contrário do que foi dito na imprensa, tudo correu bem e ela estava radiante. Infelizmente, esse momento único da carreira de Amy foi ignorado pelo diretor do documentário. Compreendi posteriormente. O foco era explicar o que não havia sido explicado.
O mais incrível é ver o óbvio: a narrativa da vida de Amy é sobre o fim do mito de que a família é algo necessariamente positivo na relação estabelecida com o indivíduo, o filme quebra o dogma social das amarras do ser humano com sua família num contexto em que o mais importante é sempre ter autoconhecimento para saber o que é melhor para sua vida individualmente. A família e a obsessão de Amy por uma — que ela de fato nunca teve — arruinaram a vida dela, fizeram com que, antes mesmo da fama, ela se afundasse na bulimia e nas drogas (não, o problema não era o namorado, nem o estrelato). A ausência do pai, a negligência da mãe, a morte da avó, o desejo de construir uma família a todo custo para suprir essa lacuna, fizeram de Amy alguém destrutiva, confusa, perdida e, finalmente e infelizmente, vazia.
Uma família é uma benção — mas também pode ser uma maldição. Sejamos sempre lúcidos e alertas diante da importância do dizer “não” a pessoas que, aparentemente, querem nosso bem. O “não” muitas vezes é o “sim” que queremos. “And now the final frame…love is a losing game.” Amy Winehouse.
PS. No último domingo, 28/02/16, o filme ganhou o Oscar na categoria Melhor Documentário (longa metragem). Em seu discurso, Asif Kapadia agradeceu aos colaboradores que confiaram no projeto (muitos amigos da cantora prestaram depoimentos importantes) e dedicou o prêmio aos fãs e a artista. O pai, Mitch Winehouse, usou o Twitter para agredir o diretor: "ele enganou a todos (…) é um retrato negativo, rancoroso e enganador." De certo que, se o diretor falasse bem a respeito do pai ganancioso, o tom seria outro. Famílias…