O outro lado receptivo.

O pior do feudalismo e do anarquismo num só lugar.

Pintura de um senhor feudal humilhando um dos seus servos. Collection privee/Isadora/Leemage

Escrevi um texto para o Vice.com outro dia sobre a falta de educação dos garçons, atendentes e vendedores paulistas. Algumas pessoas reclamaram, com razão, de que não é só com eles. Quem está do outro lado não fica atrás.

Ao mesmo tempo que quem atende é displicente, mal-educado e apático, quem pede é arrogante, prepotente e grosseiro. O cliente entra no mercado e não dá um oi. “Me dá duzentas de queijo prato” ordena sem sequer olhar para a cara do funcionário. Afinal, no balneário decadente, por favor é considerado o bordão dos fracos. Depois passeia pelas gôndolas como se os outros fossem de vidro, invisíveis, e quando chega no caixa joga todas as compras do lado da registradora e só desvia do celular para responder ao “crédito ou débito?, mesmo assim de má vontade, indignado pela insolência da criadagem em lhe dirigir a palavra.

Não é uma questão de ódio ou agressividade, como acontece em muitas outras cidades do mundo. O que há por aqui é uma mistura de preguiça com saudosismo dos tempos do Brasil Colônia. É um sentimento difuso de que quem presta serviço só pode ser servo ou escravo, o que torna o cliente um senhor de engenho em potencial

Não é uma questão de ódio ou agressividade, como acontece em muitas outras cidades pelo mundo, onde as pessoas querem mais é que você se exploda. Experimente comprar uma baguette em Paris sem falar francês ou comprar qualquer coisa, em qualquer idioma, em Moscou, e você vai entender a diferença. O que há por aqui é uma mistura de preguiça com saudosismo dos tempos do Brasil Colônia. É um sentimento difuso de que quem presta serviço só pode ser servo ou escravo, o que torna o cliente um senhor de engenho em potencial. Se há muita indolência e desinteresse de um lado, sobra estupidez e grosseria do outro, onde se repetem cenas dignas de Escrava Isaura ou Ben Hur. E quanto mais “sofisticado” o ambiente mais besta o consumidor paulista fica. Se o restaurante não é a quilo, o sujeito já quer ser servido como se fosse Luís XV em Versailles, sem ao menos olhar para a cara do garçom. Se entra numa loja que não seja de departamentos já quer ser anunciado por clarins e tratado com honras de chefe de estado, mesmo sem dar um mísero bom dia a nenhum vendedor.

O mais estranho é que na rua, em casa, o paulista é um sujeito mais afável, simpático e gentil do mundo. Entrou dinheiro na relação, virou comércio, ferrou: se transforma ou num bicho preguiça anestesiado ou num pitbull raivoso. Não tem meio termo. Ele encara a boa educação e as boas maneiras como algo que não lhe diz respeito: ou o carioca está abaixo delas, como se o bom dia fosse uma utopia inalcançável e educação “coisa de rico” ou ele se considera acima, como se o por favor fosse uma concessão desnecessária às boas maneiras, “coisa de pobre”.

São Paulo criou a tempestade perfeita do capitalismo: juntou o pior do feudalismo com o pior do anarquismo.

É o “tô pagando, porra” contra o “que se dane, tô nem aí”.

Uma luta que só a Socila salva.

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