Comentário sobre “Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues

“Beijo no Asfalto” é a peça de Nelson Rodrigues que mais admiro. O que me encanta nessa peça é que ela termina sem que saibamos a verdade sobre o beijo que Arandir deu no morto da Praça da Bandeira. Ao contrário da tão celebrada Agatha Christie, cujas tramas até hoje conquistam fãs no mundo todo, Nelson escreveu um texto de mistério que não admite “spoiller”. Quem lê um livro de Agatha Christie ou compra um ingresso para uma de suas peças irritar-se-á se alguém contar o final, revelar o nome ou os motivos do assassino. Em Nelson, o mistério permanece intacto.

Nelson não coloca em questão a homossexualidade, que, se ainda era crime em pleno século 20 em países como a requintada Inglaterra, deixara de ser no Brasil desde o século XIX, pois D. Pedro I, ao criar nossa legislação, valeu-se do Código Napoleônico — o monarca arrivista que invadira Portugal e provocara a fuga da família real portuguesa para o Brasil havia tirado a sodomia da condição de crime, e assim fez D. Pedro ao criar nosso país. Quem coloca em questão a sexualidade de Arandir não é Nelson, mas uma imprensa sensacionalista e uma polícia com veleidades inquisitoriais que passa por cima da lei que deveria defender, e Arandir é esmagado por um sistema que o persegue e que ele não compreende, como o herói de “O Processo”, de Kafka.

Arandir diz em sua defesa que o moribundo pedira um beijo e ao dar esse beijo ele, pela primeira vez na vida, sentiu-se puro. Nelson, apesar de seus textos que escandalizavam os puritanos, acreditaca em Des e achava necessária a crença na eternidade. Segundo ele, sem essa crença, o homem cairia de quatro como um animal. Penso que Nelson quis dar a Arandir um único momento de imprevista elevação espiritual, fazê-lo sentir a paz de espírito da prostituta que lavou com perfume os pés do Cristo e os enxugou com seus cabelos; do samaritano, desprezado pelos judeus, que, num impulso de humanidade, socorre um homem da nação inimiga que encontrou em apuros; como Zaqueu, que, envolvido pela graça do Cristo, entrega seu ouro desonestamente acumulado aos pobres. E ele alcança esse grau de elevação espiritual comungando com um desconhecido mediante um gesto que a sociedade reprova. Como o Direito Romano, base de nossa jurisprudência, manda que, na dúvida, absolvamos o réu e sabendo da inclinação de Nelson para apostar a luz da redenção que pode brilhar no homem degradado, tal como Dostoiévski também o fazia, opto por aceitar a tese que Arandir ostenta em sua defesa — digo ostenta porque Arandir ergue sua voz como o sacerdote ergue o ostensório que guarda a hóstia consagrada, corpo de Cristo que os olhos carnais não veem.

Mas mesmo que tivessem sido amantes e o parágrafo anterior fosse inútil, pois a homossexualidade em si mesma não é crime — o adultério sim, esse era, na época em que Nelson escreveu a peça, mas todos esqueciam de fazer o devido processo penal contra o cônjuge adúltero, razão pela qual no início do século XXI o Parlamento brasileiro achou por bem retirar esse crime do Código Penal — Arandir não deveria ter que se justificar, porque ninguém deveria acusá-lo.

Os dois grandes personagens dessa peça são Arandir e Dália. Quanto a Arandir, já disse as razões da grandeza de seu personagem: é o homem que vive o conflito entre sua consciência e a sociedade. Já Dália é uma flor que desabrocha diante da plateia — uma flor de lótus ou de Cannabis, cheia de uma substância proibida.

Se a obra de Nelson estivessem em domínio público ou se eu detivesse os direitos do “Beijo no Asfalto”, escreveria uma peça com os mesmos personagens, mas com Dália como protagonista.

Dália é uma menor de idade que está descobrindo o mundo, e os adultos em volta tentam protegê-la: mandam-na fazer café enquanto conversam sobre morte e polícia — e ela alega ter acabado o pó para voltar e ouvir a conversa.

Todos atribuem a ela uma ignorância das coisas da vida que ela não tem. Ela deseja o marido da irmã e vai morar com ela para ficar mais perto do homem amado; sabendo que a fechadura do banheiro esta quebrada, banha-se no horário em que ele está em casa, de modo que seja possível que, algum dia, ele a encontre nua; e, tanto pior, sabe que existe o incesto e mostra-se capaz de acusar o pai de ter desejos incestuosos.

Aprígio não percebe que sua filha caçula amadureceu sexualmente. Está tão ocupado em reprimir seu desejo por Arandir que não enxerga o crescimento dela nem se escandaliza com a acusação que ela lhe faz. Sente-se até aliviado quando ela o acusa de tão pecaminoso desejo! O que importa para ele — somente isso — é que ela não descobriu sua paixão pelo genro.

Não sabemos a verdade sobre Arandir e o morto mas Aprígio prontamente acredita na acusação de que eram amantes. Testemunha ocular do acidente e do beijo, apesar disso, como pode afirmar que eles já se conheciam, que havia desejo no beijo de Arandir? A palavra da viúva não basta pois ela foi forçada a acusar Arandir.

O desejo de Aprígio por Arandir o faz acreditar que o genro tenha inclinações homossexuais.