Em defesa da Gramática

Vou expressar minhas discordâncias em relação a dois autores que admiro: Rubem Alves (1933–2014), autor de “Ostra Feliz Não Faz Pérola” e Ziraldo, pai do celebérrimo Menino Maluquinho. Quem quiser procure no Youtube a entrevista que ele deu ao também saudoso Abujamra no programa “Provocações”. Ele se queixa do ensino da Gramática e da ortografia: “Para quê uma criança precisa saber o que é dígrafo?” Ziraldo, recentemente, esteve no programa “Casa das Palavras” da TV Câmara, e queixou-sedo ensino da Gramática. “Eu era garoto e achava que ‘sujeito da oração’ era um vagabundo rezando”.

Gostaria de dizer a eles: nem tanto ao Sul nem tanto ao Norte. Certo que irrita muito decorar as regras de colocação pronominal, regras puramente doutrinárias que, tais como aquelas ditadas pelas religiões, ou não são seguidas ou apenas complicam quem quer segui-las na vida real. Mas noções de ortografia, morfologia e sintaxe são essenciais para produzir um texto claro, de fácil entendimento e, portanto, útil. E quem diz isso é alguém que ainda não conseguiu fazer um Mestrado, mas que já viu longos períodos escritos em teses de Doutorado sem a oração principal: portanto, períodos longos que não comunicam nada válido.

O ensino da Gramática não tem que ser doutrinário, mas lógico. Por exemplo, sabem por que tanta gente perde seu tempo vestindo-se de branco e fazendo passeatas pedindo a paz? Porque não aprenderam que “pedir” é verbo bitransitivo: você pede alguma coisa (objeto direto) a alguém (objeto indireto). A quem essa gente inutilmente pede a paz? Ao governo? Aos traficantes? Ao Papai Noel?

A norma padrão de uma língua, penso eu, não existe apenas para uso dos nativos, mas sobretudo como instrumento para exportação do texto. O Estado diz para o mundo: “Está é nossa língua nacional, que serve este padrão”. Os intelectuais do mundo todo que quiserem contato com a cultura desse país estudarão esse padrão e, quanto mais um texto se afastar desse padrão, mais difícil será de ser entendido pelos estrangeiros. Por isso mesmo, “A Mandrágora”, de Maquiavel, é um clássico do teatro mundial: é facilmente entendido por quem conhece o padrão da língua italiana, mesmo na sua variação quinhentista. Já sua comédia seguinte, “Clizia”, não teve o mesmo reconhecimento internacional, pois está sobrecarregada de gírias e da linguagem dos camponeses da Toscana, distante da forma dita culta, o que torna dificílimo traduzi-la.

“Se tiver duas moedas, a empada come”, canta uma vendedora de empadas. Talvez ela não saiba que “come”é verbo transitivo direto e “a empada” é objeto direto, mas tanto ela quanto os ouvintes sabem que a empada não realiza nenhuma ação e, portanto, não pode ser o sujeito do verbo. Mas o seu conhecimento empírico do funcionamento da língua permitiu-lhe fazer uma paródia de um conhecido funk para vender sua mercadoria. Gostaria que tivéssemos recursos para ensinarmos a estrutura da língua e a sua aplicação da prática na produção de textos em sala de aula a fim de que pudéssemos de destruir o mito de que “Português é difícil”.