Átomo
Eu estava sozinho. Pela primeira vez em muito tempo, eu estava sozinho e a sensação era horripilante. O fato de não saber o que fazer consigo mesmo e ainda ter que se encarar no espelho é um fato de extrema agonia; Digo, não há como fugir de si mesmo – logo – não havia como ignorar aquela pessoa à minha frente. E mesmo quando eu desviava o olhar dos espelhos – malditos espelhos, por que ter tantos em um único apartamento? - a sombra me perseguia; o cheiro me encontrava; a voz que saia por minha boca não era minha e quando eu afirmava, queria negar. E quando eu negava, já não era mais necessário.
Corria todos os dias para uma eventual fuga e maquinava meu plano em pequenos trotes. Pensava que se corresse rápido o suficiente a outra face não me alcançaria e o fiz.
Disparei como se minha pernas fossem treinadas para o trabalho e desprezei as dores de meu coração preguiçoso tanto no âmbito físico quanto emocional. Corri até o ardor se tornar insuportável, até não poder vê-lo na reguarda. Possuía cabelos cacheados, olhos castanhos e uma incrível curiosidade sobre tudo e todos. Com ele, carregava pequenos amargores que geravam certo volume em sua pequena mochila. Oscilava entre a lascívia, amor e o ódio.
Quando parei para resgatar minha mortalidade, ele estava diante de mim. Sempre me perguntei o que aconteceria nesse exato momento, o momento em que me encontraria com minha imagem difusa e impura.
Havia raiva em seu olhar. Era compreensível, não o dei a atenção que merecia ou teria dado a qualquer outra pessoa: Eu o desprezava
Havia paixão em seu andar. Era incomodo ao meu orgulho pensar que não conseguiria dar um passo sem desmaiar e ele poderia realizar duas maratonas sem sequer permitir que uma gota de suor escorra por seu rosto.
Havia amor em seu abraço e – após ter um súbito ataque de fúria envolvido por aqueles braços – nos fundimos e – enfim – pude entender a perseguição seguida de fuga. Eu nunca fui a imagem real, o agente ativo da sentença e muito menos o que queria ser. Sempre fui o reflexo, a anti-matéria da obra inacabada. E – por um segundo – desejei ser indivisível.
