A (NOVA) ERA DO ÓDIO
Há mais ou menos um ano, as redes sociais deixaram de só lazer e passaram a ser sinônimo de trabalho pra mim; logo, em grande parte do meu dia fico imerso nesse universo. Nesse curto intervalo de um ano aprendi a analisar movimentos, métricas, conteúdos preferidos e tudo mais. Também foi tempo suficiente para ter a dimensão do seu potencial para disseminação do ódio.
Como reflexo da sociedade, talvez, os emissores desses discursos odiosos, que muitas vezes são mascarados como liberdade de expressão, encontram cada vez mais pares nas redes, principalmente, a meu ver, no Facebook.
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Hoje, assisti a um documentário que eu recomendo a todos: Eu não sou seu negro. O documentário — que está disponível no Philos TV e no Youtube — é baseado no livro não finalizado do escritor americano James Baldwin e relata a história do movimento negro nos EUA a partir do assassinato de três grandes ícones: Malcolm X, Martin Luther King e Medgar Evers (com a narração fantástica de Samuel L. Jackson).
Os três grandes líderes do movimento tiveram seu auge na década de 1960, mas o filme se parece muito com os dias atuais. Nas cenas há repressão policial, segregação racial, violência e discursos de ódio. Tal qual os flashbacks que estamos tendo atualmente.
No documentário, há um fragmento em que um senador americano fala, em 1965, que talvez dentro de 40 anos um negro possa ser presidente dos Estados Unidos. Ele estava certo, e Obama foi eleito; inclusive reeleito. Muitos negros ganharam dignidade, e isso incomodou muita gente, até que Trump foi escolhido para ser seu sucessor.
No Brasil, muitos pobres e negros também tiveram direito a uma vida um pouco mais digna, com um governo popular, mas isso também incomodou muita gente e o governo populista foi deposto. (Por favor, estamos falando de dignidade e igualdade, não de política).
O negro nunca teve espaço na sociedade. O pobre nunca teve espaço na sociedade. O gay nunca teve espaço na sociedade. A igualdade nunca teve espaço na sociedade.
Mas, por que a igualdade incomoda tanta gente? Por que um negro não pode ter acesso a educação? Por que um homem não pode namorar ou casar ou viver ou transar com outro homem? Por que uma mulher deve ganhar um salário menor que um homem? Por que não aceitar que um haitiano trabalhe e viva livremente nesse país, mas aceitar que um francês ou alemão o faça? Por que um pobre não pode ter direito a fazer três refeições ao dia? Por quê?
A história mostra que discursos de ódio são vazios, mas mesmo assim levaram ao poder homens como Hitler, como Trump e quem sabe levem ao poder homens como Bolsonaro.
O presente mostra que a busca por igualdade MATA gays, MATA negros e MATA mulheres aos milhares. Mas, aqui em terras tupiniquins (a exemplo dos EUA), eles ouvem comunismo, quando você diz igualdade. Agradeça aos líderes do ódio por isso.
Criar um inimigo e torná-lo público é a maneira mais fácil de distrair milhões e milhões de pessoas, e colocar umas contra as outras. O fantasma do comunismo, por exemplo, já foi criado aqui uma vez, pouco antes dos militares tomarem o poder, e agora ele renasce, mas uma grande parcela da população não percebe.
A verdade, para uma parte da população, é que o negro não deveria ter saído da senzala, o pobre não deveria ter saído da favela, a mulher não deveria ter saído da cozinha e o gay não deveria ter saído do armário; só que tudo isso é apenas sinônimo de igualdade.
Se você chegou até aqui, agradeço, e peço apenas que reflita sobre a sequência das perguntas que fiz acima.
Não deixe que pensem por você.
Deixo aqui dois vídeos e peço gentilmente para que você assista. No primeiro, uma pequena parte do documentário citado, no segundo, cenas do protesto ocorrido há duas semanas em Charlottesville, nos Estados Unidos.
A conclusão é sua, mas a semelhança é inegável.
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Eu não havia assistido a esse vídeo antes de escrever esse texto, mas ele faz um bom link com os parágrafos iniciais, sobre as redes sociais. Reflita sobre qual conteúdo te alimenta nas redes sociais, pois, como diria Criolo, quem toma banho de ódio, exala o aroma da morte.
O vídeo abaixo está selecionado para iniciar em um tempo diferente do vídeo acima
~ Eu sou branco, nunca fui rico nem pobre, nunca fui discriminado e talvez nem tenha autoridade para estar escrevendo esse texto, mas eu gostaria de viver em um lugar com um pouco mais de IGUALDADE, e ficarei feliz se você, ainda que não concorde comigo, não nutrir um discurso de ódio contra mim ~
