Necessidade de esquerda: a renovação e o combate

Benoît Hamon pode se tornar a boa surpresa da França

O candidato socialista Benoît Hamon foi entrevistado pelo jornal “Libération” no dia 5 de janeiro

As eleições presidenciais na França serão marcadas pela tensão: o país entrou numa profunda depressão depois dos atentados terroristas. Em apenas dois anos, desde 2015, uma nova era vem sendo premeditada pelos “experts da política” que evocam a inexorável ascensão ao poder da extrema-direita. O principal argumento desses “especialistas” que preveem Marine Le Pen como a futura presidenta: os recentes acontecimentos tão graves tais como a saída da Inglaterra da União Europeia (Brexit) e a chegada do espantoso Donald Trump.

A onda destruidora e conservadora parece sem controle, do norte ao sul. Na Europa, como um tsunami, estão destruindo o socialismo e todos os países estão caindo no discurso nacionalista. A América Latina se tornou um vasto território azul em pouco tempo, a esquerda não consegue se manter em mais nenhum lugar. Como uma praga, o retrocesso na sociedade se espalha de maneira preocupante. E agora será a vez da França?

Capa da revista “Courrier International”, da França, mostra a preocupação com a chegada de líderes obscurantistas em 2017: “o ano de todos os perigos”

23 de Abril e 7 de Maio

A primavera francesa está próxima, e as datas para escolher o(a) novo(a) presidente(a) já parecem históricas. O povo irá às urnas dar rumo ao país que vive uma crise de identidade, atolado em dificuldades econômicas e fragilizado com as ameaças de terrorismo. O contexto é tão pesado que o atual presidente, o socialista François Hollande, desistiu de ser candidato à reeleição, convicto da própria derrota humilhante diante da direita (ou da extrema-direita). Assim, o Partido Socialista (PS) organiza eleições primárias para designar o candidato da esquerda, nos próximos dias 22 e 29 de janeiro, em dois turnos.

Benoît Hamon, o novo presidente da França? FOTO: Jean-Christophe Verhaegen (AFP)

A necessidade de esquerda

A lista dos pretendentes socialistas tem 6 nomes, mas decidi dedicar este artigo a Benoît Hamon, 49 anos, representante da corrente mais combativa do PS. O jovem candidato não estava na situação de favorito há pouco tempo, mas vem subindo de forma espetacular nas pesquisas de opinião. As últimas sondagens mostram que ele pode estar presente na final decisiva diante de Manuel Valls, ex-primeiro-ministro do governo atual, considerado “à direita da esquerda” e criticado por isso, mantendo um discurso liberal e repressivo. Totalmente o oposto de Hamon que, há muitos anos, defende uma visão progressista da sociedade francesa, além de ser pugnaz quando exprime suas ideias genuinamente ancoradas à esquerda, estremecendo o mundo político nas últimas semanas. O dinamismo da campanha do “jovem” Hamon continua de mexer o eleitorado, uma vez que ele assume uma posição inovadora com suas propostas.

A principal proposta de Hamon? Um “salário mínimo universal” atribuído a todos os cidadãos. Destinado inicialmente à faixa etária (18–25 anos), a medida seria estendida progressivamente para todos os franceses. É uma maneira de considerar as evoluções da sociedade e a robotização crescente dos empregos. 530 euros na primeira fase de implantação do programa, o salário mínimo universal passará a 750 euros por mês: o candidato declarou que “esta renda deve oferecer a cada um a liberdade e o poder de trabalhar menos sem reduzir o próprio salário”.

Para quem duvida de sua eficiência, diferentes estudos provaram que o “salário mínimo universal” não desencorajou os trabalhadores. A Finlândia acabou de adotar essa ideia, convencida de que o desemprego pode ser assim eliminado do país, com o compartilhamento dos empregos disponíveis.

A redução do tempo de trabalho” também é outra ideia do candidato socialista. Isto somente seria possível com a nova lei que atribui o “salário mínimo universal” . Hamon explica o envelhecimento do atual modelo de desenvolvimento das sociedades e a urgência de uma resposta adequada, na qual o ser humano se desliga do “burn-out”, aproveitando o tempo livre para outras atividades e dividindo o trabalho com quem também precisa.

Além dessas propostas interessantes, Benoît Hamon deseja dar prioridade às questões ambientais, fazendo da ecologia um tema central durante o seu mandato de 5 anos. O seu programa defende a redução da energia nuclear e a proibição da exploração do gás de xisto, acelerando o uso de energias renováveis que atingirão 25%, em 2025.

A lista de projetos de uma nova sociedade desejada por Benoît Hamon é longa, não sejamos mão de vaca para expor aqui mais algumas. Ele é pela legalização da maconha, denunciando a hipocrisia das leis francesas que são demasiadamente repressivas com essa questão, além de entender os benefícios em termos de arrecadação de impostos, com os baseados vendidos de maneira legal, sob o controle do Estado.

Vem também dele a visão de um sistema carcerário mais humano, abandonando a política da “cultura da prisão”, modelo obsoleto e ineficiente.

Por fim, em se tratando de política externa, o candidato pede que a França seja mais solidária com os refugiados e deseja a implementação de “vistos humanitários”, inspirado nos modelos da Alemanha e dos países nórdicos. “Na Suécia, por exemplo, as pessoas acolhem positivamente os imigrantes, eles têm a possibilidade de aprender a língua, inserido-se no mundo do trabalho”, declarou Hamon.

Agora vejam os dois adversários do socialista e, responda francamente, quem vai ganhar as eleições presidenciais da França em 2017?

Contra Fillon, o católico extremista e Marine Le Pen, a filha herdeira da ideologia racista

O partido “Les Républicains” (LR) já escolheu seu líder, também com a organização de eleições primárias, em novembro passado. Para surpresa geral, o vencedor foi o ex-primeiro-ministro (2007–2012) François Fillon, 62 anos, antigo cacique conservador que conseguiu humilhar o ex-aliado e ex-presidente Nicolas Sarkozy, eliminado já no primeiro turno das “primárias” desse campo político. Conhecido na França pelo rigor de sua imagem, a sobrancelha escura e sua obediência demasiadamente católica, Fillon assumiu uma postura de guerreiro cristão, prometendo um retorno às tradições, fustigando as conquistas dos direitos humanos com ataques contra a população LGBT e, sem vergonha, retomando alguns temas polêmicos dos reacionários ultradireitistas. O tom marcial dos republicanos contra a religião muçulmana divide a sociedade, de modo semelhante ao escrutínio americano no fim do ano passado.

Mais um “François” na corrida presidencial Foto: Eric FEFERBERG (AFP)

O programa de François Fillon promete suor e lágrimas, descaradamente apoiado pelos milionários e pelo mundo dos negócios. Ele promete o corte de empregos dos funcionários públicos, meio milhão de pessoas! Com frequência, ele bate no peito com orgulho, afirmando a necessidade de um Estado menos implicado com questões sociais, o que inquieta cada vez mais os cidadãos franceses, pioneiros das lutas que lhes garantiram tantos direitos.

A candidata da xenofobia e do racismo, Marine Le Pen, a filha do pai FOTO: Charly Triballeau (AFP)

A outra candidatura, ainda mais perigosa, tem um nome feminino: Marine Le Pen. A extremista é uma criação do velho líder da extrema-direita Jean-Marie Le Pen que assombrou o país durante décadas. Notório antisemita, o papai entregou o partido para a filha que vem maquiando a Frente Nacional (FN), hoje mais parecido com qualquer outra formação política. Mas todo o talco e o pó branco desse partido não conseguem esconder a verdadeira cara de seus membros, do mesmo calibre da nova administração americana que inicia seu mandato com Trump no outro lado do Atlântico, no dia 20 de janeiro. A filha de Jean Marie é uma espécie de cópia asséptica do papai brutamontes, esforçando para guardar o sorriso enquanto abre a boca para defender sua ideologia abjeta.

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