Porque vaiamos ou porque a vitória aqui é mais gostosa
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Veio a Olimpíada Rio 2016. Várias descobertas gringas sobre nossa cultura, mas a que mais os incomodou, que foi mais discutida e criticada não foi governo mandando recolher camelô arbitrariamente, as pessoas que caminham em meio ao tiroteio como se estivessem em mais um belo dia de sol ou o fato que uma banda como o Medulla ainda perambular pelo underground do rock. O que deixou os estrangeiros de cabelo em pé foram as nossas vaias. Incompreensível a eles como o brasileiro tão acolhedor, amigável e cordial (o brasileiro ainda é cordial? Espero que não) torna-se um “bárbaro” nas arquibancadas de qualquer estádio. Vaia sem piedade quem lhe desagrade ou até mesmo quem esteja na sua, tranquilo, jogando seu joguinho, mas deu a má sorte de ir contra um time/atleta bem mais fraco. Vaiamos sempre o mais forte.
Nada melhor do quem um Nelson Rodrigues para deixar um texto mais lúdico, não é mesmo?
Maracanã nasceu com a vocação da vaia. O Maracanã vaia até minuto de silêncio.
Muito bonito isso. E posso confirmar como testemunha ocular desse fenômeno.
Sim, nós vaiamos! E não é pouco. Vaiamos muito. Quanto mais importante para nós você for, menor será a diferença entre a vaia e a glória. Essa é uma das facetas do comportamento do brasileiro nos estádios. Mas isso é a constatação. Vamos às perguntas: por que brasileiro vaia tanto? Por que brasileiro vaia todos?
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Nossa cultura de torcedor vem dos estádios de futebol. ÓBVIO. Nada mais normal num país onde praticamente o único esporte possível é o futebol em 350 dias no ano. Nos outros 15 temos: 4 dias de finais de vôlei, 1 dia de título de Fórmula-1 e mais 10 dias de lutas de MMA.
Existe um fato curioso sobre o relacionamento do brasileiro com o estádio de futebol, mais exatamente sobre o ato de torcer. Quase que a totalidade de pessoas habituadas a comparecer num estádio despejam todo o estresse do dia a dia naquele local. A arquibancada é uma terapia, transformando-se numa anarquia dos desejos e vontades. Existem pessoas que cresceram sabendo que não podiam falar palavrões, mas no estádio pode. Pessoas calmas e centradas, mas deixa o Marcio Araújo errar um lançamento de 10m para você ver que o Hulk existe sim. Pessoas que nunca xingariam uma mulher de puta ou piranha cara a cara, mas ali no meio da massa o fazem, infelizmente (precisamos rever urgentemente os preconceitos proferidos pelas torcidas). Enfim, um estádio brasileiro não é um local para lógica, ali é a paixão que comanda.
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No Brasil e em muitos outros lugares do mundo, a torcida joga junto. Os atletas performam diretamente e as arquibancadas indiretamente. O jogo que fazemos parte é o psicológico. A famosa PRESSÃO PSICOLÓGICA. Dentro desse campo, brasileiros farão tudo que estiver ao alcance para dar a vitória ao seu time e vaiar é a arma mais comum para atrapalhar o desempenho do adversário. É simples assim. Nós vaiamos porque torcemos, pois entendemos que a arquibancada faz a diferença. Quando o adversário vem jogar em nosso campo, ele vai ter que ganhar do nosso time e de nós também. Vamos transformar aquele pedaço imenso de concreto com um retângulo gramado dentro em um inferno para quem ousar nos desafiar. O conhecido CALDEIRÃO.
Por que caldeirão?
Porque ali cozinhamos nossos desafiantes e degustamos o sabor da vitória ao molho de suas lágrimas. OK, eu criei isso agora, mas qualquer torcedor assíduo há de concordar com minha definição.
Ninguém vai ao estádio para ver uma bela apresentação esportiva de alto nível. Vamos para trazer a vitória e ponto final. Vamos para xingar a mãe do juiz, o filho do zagueiro adversário, relembrar ao ídolo deles que duas mortes pesam sobre suas costas e fazer nosso time ganhar no grito se for preciso. Só a vitória nos da satisfação. Não há diferença entre jogar bem e jogar mal se no final o resultado é a derrota. Só existe uma ressalva nisso tudo, um comportamento que não é tolerado por todos: violência física contra atletas adversários. É certo que já tenha acontecido pois quase sempre tem alguém para exagerar, mas eu não me lembro. Em 99,9999% das vezes a pressão é claramente psicológica e momentânea. Um pouco depois do jogo já estaremos abraçados com nossos amigos que torcem para o outro time ou até mesmo vamos tirar uma foto com o cara que fez o gol de nossa derrota.
Sabe qual é o resultado disso?
Você já viu o Maracanã cantando em uníssono? Já viu o inferno verde da torcida do Coritiba? Lembra dos sãopaulinos recebendo o time ainda nas ruas com um corredor de sinalizadores? A torcida do Bahia e do Santa Cruz em seus estádios cuspindo gente por todos os lados? E a do Sport dando susto em jogador adversário cantando Cazá? E os mosaicos? Os bandeirões? As palmas? As coreografias? Já viu uma arquibancada virar um mar de gente? Sentiu ela balançar quando todo mundo pula junto? Nós não somos espectadores, somos torcedores e arquibancada não é cinema nem teatro. Nós não vamos simplesmente assistir uma apresentação, nós somos parte dela. Esse é o Brasil nos estádios em geral.
E ai veio a Olimpíada e junto dela as dezenas de esportes diferentes que costumamos ignorar durante 350 dias do ano. E fomos nós, brasileiros, torcer pelos nossos, sejam eles compatriotas ou adotados (goleira do handebol de Angola é minha ídola esportiva para todo sempre). Nada mais normal do que mantermos nossa cultura de estádio, nosso comportamento. Só que os arautos dos bons costumes vem nos dizer que é errado torcer e que o certo é ser um espectador. Vaiar?! Absurdo! Falta de respeito. Cade o ~espírito olímpico~? Far Play? Que tipo de pessoas são essas que vaiam um atleta olímpico? Não fizemos nada para eles e estão nos vaiando! São bárbaros.
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PERA LÁ, O GRINGO!

Aqui torcemos! Se na sua casa vocês só olha e bate palma, só grita quando um megafone pede, todas as suas reações se resumem a ooooohhhhhh e aaahhh e o cântico mais empolgante de sua torcida é a ópera da entrada Champions League, o problema é seu. Para ganhar aqui você vai ter que correr mais, porque nós entramos em campo também. Se você não consegue dar seu melhor sob vaias, saiba que aqui forçaremos isso e ainda te chamaremos de inexperiente, juvenil, mesmo você sendo campeão mundial em qualquer país desse ai sem torcida. Aqui um moleque de 18 anos tem que ter cabeça de 40 e enfrentar um estádio inteiro xingando cada molécula de seu corpo (estamos trabalhando para chegar nos xingamentos subatômicos). Aqui é assim. Respeite nossa cultura. Você é livre para fazer o que quiser, desde nos superar até voltar chorando para casa e colocar a culpa nos orixás. Só não venha dizer que estamos errados. Falta de respeito é querer que eu assista jogo sentado na cadeira ou até mesmo colocar cadeira na minha arquibancada. Isso sim é um ultraje ao esporte no Brasil.
Eu ainda acho que você deveria nos agradecer, pois não jogamos gás de pimenta no seu vestiário como na Argentina, você não precisou que a polícia fizesse um escudo de proteção quando fosse bater um escanteio como acontece em 70% do resto da América do Sul, nenhum brasileiro veio tirar satisfação contigo ao você nos eliminar e olha que algumas dessas eliminações doeram. A craque Zhu é vilã em nossos corações desde o dia 17 de agosto de 2016. Vocês não sabem quantas vezes nós passamos por isso aqui na América do Sul jogando Libertadores (uma espécie de Champions League para crescidos ou Onde os Fracos Não Tem Vez). Fique sabendo que aqui nós somos obrigados a jogar até em locais sem oxigênio. Como? Eu também não sei. Só sei que é assim lá nos 4 mil pés de Potosí, onde jornalista passa mal subindo escada.
E caso você supere as vaias e nossos atletas. Saiba que no final poderá bater no peito e dizer que venceu os brasileiros tanto dentro como fora de campo. Vencer aqui é melhor, é maior. Você supera um país inteiro e tem provas de tal. Pode até gravar um DVD e mostrar a todos que te visitam, o dia que venceu um país. Essa é a graça de jogar contra um adversário com torcida. Pergunte a um torcedor do Fluminense ou do Paysandu quais são as vitórias que mais os orgulham e em algum momento eles vão soltar seus triunfos contra o Boca Juniors na Bomboneira, pois ali o time venceu um adversário qualificado e o provável maior caldeirão do mundo. A sensação de vencer aqui é maior. Basta dar os 110% ao invés de ficar nos 100 e chorar depois.

Esse texto está atrasado porque eu estava com a mão quebrada durante a Olimpíada.