A Menina e a Pilha de Controle Remoto

Photo credit: JohnSeb via Visual hunt CC BY

Sou um workaholic confesso. Adoro o que faço e só consigo ter aquela sensação de dever cumprido se for dormir depois de completar todas as tarefas que programei para o dia (e noite). E para mim os finais de semana são nada mais nada menos que oportunidades entre uma semana e outra de colocar os projetos em dia.

Trabalho em um dos prédios da Tecnosinos, o polo de tecnologia da Unisinos em São Leopoldo no Rio Grande do Sul, e nesta sexta-feira cumpria mais uma etapa da minha rotina diária que consiste entre outras coisas aguardar meu filho sair do trabalho dele, pois trabalha no mesmo prédio onde trabalho, e ir em direção ao centro da cidade pegar minha esposa para então irmos para casa.

Mas sexta-feiras são complicadas no final de tarde. Acredito que o comportamento das pessoas no trânsito muda para pior neste horário de final de tarde nas sexta-feiras. Já comentei isto com alguns amigos e eles concordam comigo, pois já relataram casos de violência no trânsito, desrespeito às regras de trânsito e principalmente aos pedestres. Então antes de sair eu me preparo psicologicamente para este momento, coloco uma boa música no carro e procuro fazer o oposto de tudo que vejo no trajeto, dou passagem para quem quer adentrar na via, ando na velocidade correta e paro na faixa de pedestres. Apesar de sempre dirigir desta forma, na sexta-feira estas atitudes servem para equilibrar um pouco as forças. Fazer a coisa certa hoje no Brasil é quase um ato de rebeldia e como bom escorpiano isso soa como música nos meus ouvidos!

O olhar de uma mãe aflita

Photo credit: PaoloPV via Visualhunt.com / CC BY

Nesta sexta-feira dia 19/02 foi um pouco diferente de todas as outras. Estava parado na sinaleira ( é, aqui no Sul semáforo é sinaleira! ) quando percebi que um ônibus parou fora de seu ponto e dele desceu uma mãe com uma menina no colo. Esta mãe atravessou o cruzamento de forma apressada e foi então que percebi o olhar daquela mãe, aflita, como se o mundo estivesse acabando.

Deixei ela atravessar a faixa de pedestres e não consegui andar nem mais um metro devido ao congestionamento normal para o final do dia.

Ahhh nosso cérebro. Milhares de cálculos em segundos, testando condições e tomadas de decisão e nada além de 2 ou 3 segundos para uma definição.

E aquele olhar, eu já tinha visto ele em muitos outros rostos, inclusive na minha esposa quando nosso filho tinha que ser levado para o hospital às pressas e não tínhamos carro. E foram aquelas lembranças que encerraram qualquer dúvida que possa ter passado pela minha cabeça, eu tinha que dar a volta e parar aquela mãe. Sim, eu tinha certeza, sem ao menos ter perguntado a ela, que ela iria correr até o hospital com uma criança de uns 20kg no colo. E seria quase 1km até lá!!!! (você acha pouco? então tente correr 100 metros com 5 kg de arroz no colo!).

Sério? Quase 1 km com uma criança no colo!

Liguei o alerta do carro e algumas infrações depois lá estava eu parando do lado da mãe que já tinha corrido muito com a filha no colo. Parei e só falei o seguinte:

  • Senhora!

E ela no mesmo momento:

  • Me ajuda, minha filha engoliu uma pilha do controle remoto!

Pedi para ela entrar e em pouquíssimos segundos estávamos na porta do Hospital onde ela entrou e já foi encaminhada no mesmo segundo para o atendimento.

Esta experiência mudou algo dentro de mim. Me fez lembrar o que nos faz humanos e como negligenciamos isso todos os dias. Fazemos as pessoas se tornarem invisíveis. Sim, nós somos os culpados e não aqueles que somem da nossa visão apesar de estarem a um metro de distância.

Me fez lembrar que estou correndo numa corrida onde o prêmio não faz sentido, não importa em qual posição eu chegue, o prêmio será somente um ganho financeiro, mais leads, mais assinaturas do meu software, mais contratos, mais dinheiro na conta.

Tão pobre é esta premiação para quem dedica 2 terços de cada valioso dia da sua vida sem saber se o estoque de dias está por acabar na próxima semana!

O que é o sucesso?

Photo credit: The University of Iowa Libraries via VisualHunt.com / CC BY-NC

Você já deve ter ouvido falar em empreendedorismo social e todo o impacto positivo que projetos bem sucedidos tem nas comunidades onde atuam.

Ver aquela mãe entrando e sendo atendida na hora e pensar que talvez os minutos que foram economizados tenham feito alguma diferença foi a maior recompensa que tive neste ano de 2016, maior do que os emails que recebo quando mais um cliente assina um dos meus softwares, maior que a finalização de um projeto que estava atrasado, enfim, é um sentimento poderoso!

Naquela noite não parei de pensar em todos os projetos que já poderiam ter sido criados para este tipo de problema. É nas deficiências que o Brasil possui no setor público que está um mar de oportunidades para empreendedores sociais.

  • Um serviço de transporte voluntário para emergências. Talvez soe um pouco estranho para sua realidade, mas somente quem tem um filho com emergência médica entenderá a importância de um serviço como este. Ter a quem chamar de forma rápida e confiável.
  • Um dispositivo que dificulte a retirada das pilhas de dentro dos controles remotos.
  • Um serviço médico mais barato ou até mesmo financiado por crowdfunding que fique nas comunidades, evitando assim deslocamentos para hospitais que ficam distantes. Sei, já existem serviços assim. Mas porque não inovar e tentar resolver estes problemas?

As possibilidades são muitas. Mas o que quero explicar é que esta experiência mudou meu entendimento sobre o que é o sucesso.

Vejo muitos empreendedores montando seus negócios para resolver problemas de outras empresas ou resolvendo problemas relacionados a consumo e vejo poucos empreendedores empenhados em resolver ou amenizar problemas sociais. Talvez as notícias de jovens empreendedores ganhando aportes de milhões (ou até bilhões) por suas startups estejam embaçando nossa essência, o real motivo pelo qual estamos nesta breve passagem que é a vida.

Como queremos ser lembrados quando partirmos?

Como aquele que desenvolveu o melhor dashboard ou ainda aquele que teve o maior número de downloads da gem de ruby no github?

Isso tudo será esquecido.

Agora se desenvolvermos soluções que realmente toquem a vida das pessoas, soluções que façam diferença para as crianças destas comunidades menos favorecidas e desamparadas pelo poder público, aí sim iremos eternizar nossas ações.

Se você é pai ou mãe sabe do que estou falando. O que fazem para seu filho nunca será esquecido. Sou grato até hoje por todos aqueles parentes e vizinhos que correram para o hospital quando o meu filho estava doente e eu não tinha como levá-lo.

A Ação

Photo via Visual hunt

A diferença entre milhões e milhões de boas ideias que estão no papel e uma única ideia mediana que deu certo é a ação.

Não adianta ficarmos curtindo histórias no Facebook, frases de efeito daquele mago empreendedor digital ou compartilhando vídeos de cães sendo resgatados. Nada disso fará nenhum diferença na vida de ninguém.

É a ação que define o futuro. É pavimentar o primeiro metro da sua estrada que será longa e difícil. É ir para dentro de uma ONG e entender o que eles fazem, como fazem e porque fazem e como você poderá desenvolver tecnologias que mudem a realidade delas e das pessoas que elas atendem.

Eu poderia ter seguido meu caminho como as centenas de motoristas seguiram, como num rebanho, espremidos e condicionados num trajeto de puro egoísmo onde o máximo que poderão conseguir no final daquela trajetória será muito dinheiro. Eu decidi mudar o trajeto, decidi que as minhas prioridades eram menos importantes que as prioridades daquela mãe.

Mas decidi também começar uma nova estrada. Quando cheguei em casa entrei em contato com uma amiga que é presidente de uma ONG na minha cidade e disse que queria expor algumas ideias que poderão ajudar muito o trabalho deles. O desenvolvimento deste projeto iniciou neste final de semana.

Não sei onde essa estrada vai dar, só sei que será trilhada com muita paixão e dedicação!

As playlists estão ok, o framework está pronto, o banco de dados modelado, a faca está nos dentes e as próximas madrugadas serão intensas!

A Menina

Photo credit: demandaj via Visual Hunt / CC BY-NC-ND

Não tive tempo de perguntar o nome daquela criança, aliás não tive tempo para nada. Chegar no hospital no menor tempo possível foi a prioridade.

Se um dia descobrir, darei o nome dela ao meu projeto. Vou deixá-lo com um nome provisório por enquanto.

Talvez um dia eu a encontre e possa dizer que a travessura dela me inspirou a criar algo que mudou a vida de muitas pessoas.

E no fundo do meu coração eu espero que aqueles segundos tenham feito a diferença!

Edson Marcelo Dos Santos

Written by

Fundador do site Credinfo.com.br que oferece software e consultoria para correspondentes bancários em todo o Brasil.

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