E agora PT?

Pela primeira vez desde a fundação do Partido dos Trabalhadores, há 37 anos, Uberlândia não terá um Diretório Municipal eleito.

No último domingo a eleição interna, disputada por uma chapa única, não conseguiu mobilizar o quórum de 25% (282) dos votantes da última eleição em 2013, o que representaria 4,6% dos filiados atuais (6.050).

Agora sem uma direção eleita, o PT em Uberlândia deverá ser conduzido temporariamente por uma Comissão Provisória indicada pelo Diretório Estadual.

A ausência de uma direção municipal talvez represente o ápice de um processo de desorganização política a qual o partido foi submetido paradoxalmente durante o governo petista à frente da prefeitura.

É evidente que as dificuldades do PT transcendem em muito as questões locais, mas no caso de Uberlândia o declínio e a desagregação foram tão vertiginosos que é preciso identificar componentes municipais que nos trouxeram a essa situação.


“O inferno são os outros”

Durante as discussões que antecederam a eleição, defendemos a tese de que o PT estava numa situação crítica na cidade e que a sua reorganização dependia de uma cooperação política de todas as forças que o compunham o partido, sem exceção.

Na nossa opinião a recuperação da capacidade política de intervenção do PT era uma tarefa extremamente difícil de ser realizada e que não poderíamos nos dar ao luxo de dissipar energias em batalhas internas secundárias.

Tentamos viabilizar um acordo para ampliar a representatividade e ao mesmo tempo fundar uma nova maioria para dirigir o partido.

Esse esforço bateu na trave vetado pelo desejo de autoconstrução de um setor.

A partir de uma orientação tática nacional de não compor chapas de unidade em todo o país, o campo do “Diálogo e Ação Petista” liderado pela tendência “O Trabalho” criou a tese local (e em vários campos do país era uma tese diferente) de que o centro da política municipal era combater o inimigo interno (os golpistas) para justificar a obstrução de um acordo, que no caso local seria bom e o mais adequado a todos.

Com isso, o maniqueísmo rasteiro gerou uma falsa polêmica e alimentou o espírito de que um grupo de militantes de “princípios” deveria conduzir uma cruzada para limpar o PT de todo o tipo de prática nefasta atribuída a um setor apenas do partido. E assim, salvar a agremiação que hoje é a maior referência da classe trabalhadora.

Ledo engano. Era na verdade um artifício de mera autoconstrução.

Isso se revelou rapidamente com quem se agregou para dar força a intentona. Justamente um mandatário cuja prática política é amplamente questionada e bem similar àquela, pretensamente, combatida pelos principistas.

Frente a isso, decidimos não seguir nessa lógica internista e saímos do processo. Outras forças políticas chegaram a mesma conclusão: A luta interna despolitizada daquela forma não valeria a pena e não traria bons resultados.

Não esperando por isso, o grupo em prol da autoconstrução por meio do combate ao inimigo interno perdeu força de mobilização, pois somente cresceria num ambiente de rivalidade.

Com todo o empenho e esforço, mas sozinhos na campanha não conseguiram mobilizar o suficiente para validar a eleição.

Mesmo sendo a única chapa na célula, só obteve 75% dos votos favoráveis, os outros 25% não se sentiram representados politicamente e optaram por anular ou deixaram o voto em branco.

Além disso, a chapa única tinha outros problemas de legitimidade que vinham desde o início. Senão vejamos:

1) A chapa apresentou apenas 18 membros sendo que o diretório completo precisava de 36 membros. Ou seja, mesmo que tivessem o quorum na eleição só haveria pessoas para compor metade da instância. Iriam tocar o partido como?

2) Não cumpriram a regra básica de composição de chapa e cotas. O regulamento exigia que 20% das vagas da chapa fossem jovens e 20% de cotas raciais. A chapa tinha 2 ao invés de 4 jovens que eram exigidos e a cota racial foi completada por pessoas que não são representativos do segmento (brancos declarados negros).

Se fosse levado a rigor como em outros estados a chapa deveria ter sido impugnada, mas um acordo vergonhoso em nível estadual fez vista grossa e validou a chapa desobedecendo o regulamento do partido.

3) Por fim, a composição política tinha todo tipo de contradição a ponto de dois arquirrivais estarem juntos no mesmo pleito, um deles a despeito do que a sua própria tendência decidiu.

Sem demérito nenhum aos bravos companheiros que pleiteiam legitimamente sua posição política, agora era necessário mais humildade antes de sair apontando o dedo aos outros se queixando de práticas inaceitáveis ou frouxidão ideológica.

Todos somos valhos e merecemos a chance de nos compreender melhor.

Até porque não é correta e coerente a narrativa de que “conquistamos nosso objetivo”, que era derrotar nosso adversário interno, mas só “não vencemos” a eleição porque “o nosso adversário não cooperou” e não se mobilizou em nosso favor.


Uma andorinha só não faz verão

Na nossa opinião o PT não se levantará dos escombros por meio de uma luta interna fraticida. É preciso por de lado qualquer divergência secundária em prol de viabilizar o básico numa organização política: o debate franco sobre o que fazer.

Estamos fartos de sermos enganados por líderes que jogam todos os jogos possíveis e estimulam a discórdia interna para se verem livres das críticas pesadas que deveriam ser submetidos por seus erros na condução do nosso projeto histórico.

Está na hora de parlamentar que atua em nosso nome coletivo (o PT) parar um pouco de se autopromover e apenas buscar um salto na carreira eleitoral para começar a submeter suas ações ao que pensa a coletividade dos petistas para o seu mandato.

É o tempo de revermos o modo como nos relacionamos e não cabe mais nos desqualificarmos mutuamente para obter uma vitória de “Pirro”.

Diz-se que após a batalha de Ásculo, o rei Pirro, ao felicitar seus generais depois de verificar as enormes baixas sofridas por seu exército, teria dito que com mais uma vitória daquelas estaria acabado. Desde então, a expressão “vitória de Pirro” é usada para expressar uma conquista cujo esforço tenha sido penoso demais. Uma vitória com ares de derrota.

Temos que nos superar e arrefecer o nosso ímpeto pela luta interna, do contrário o que nos sobrará é o destino de Pirro.

Passada a frustração do domingo, que tal voltarmos ao debate franco para construir um entendimento para o PT que caiba a todos?


Edson Pistori é advogado e geógrafo. Filiado ao PT desde 1999.

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