um ano.

Hoje faz um ano que eu cheguei a Nova Iorque. E por coincidência ou não — eu tenho mania de fazer associações entre eventos, ligar os pontos e justificar a sua sincronicidade (só eu faço isso?) — recebi essa manhã uma foto que um amigo meu tirou de mim mês passado, quando estávamos almoçando num restaurante grego no Queens. Coincidentemente (ou não) ontem eu estava conversando com uma amiga que está morando na Espanha, a qual eu não vejo há mais de um ano e da qual eu havia me afastado já há um tempo, sobre nossas vidas morando fora do Brasil. Não sobre as dificuldades de um imigrante, não sobre o choque de cultura, sobre o clima, mas sobre conexões, sobre se conectar. Engraçado que lá estávamos nós, nos conectando por mensagens, mas compartilhando a dificuldade em se conectar com as pessoas nas cidades onde estamos morando atualmente. E isso é algo que eu tenho refletido muito aqui nos últimos meses.

Desde pequena, sempre fui separada das minhas amigas no mapeamento da sala por conversar demais. Perdia pontos de conceito na aula de educação física por não fazer as atividades e conversar. Professores sempre chamavam a minha atenção pelo timbre da minha voz, que era o único que chamava a atenção entre os outros colegas que também estavam conversando. Tem gente que me reconhece em lugares simplesmente por ouvir a minha voz. Fato é que eu posso conversar até com uma árvore, e aqui não é diferente. Conversar, eu converso em qualquer lugar, com qualquer pessoa.

Teve um tempo que eu não era bem assim. No ensino médio, numa escola nova e grande, talvez pelas inseguranças da adolescência, eu não fosse assim tão desinibida. O bom é que o tempo passa, e eu fui me sentindo cada vez mais confortável em meio a pessoas desconhecidas. E hoje, vivendo numa cidade com outros milhões de estranhos, não me sinto fora do lugar.

Mas uma coisa ainda me incomoda. E é sobre isso que eu tenho refletido, conversado com outras pessoas. Em uma cidade como Nova Iorque, onde estão todos de passagem, sejam turistas, sejam estudantes, sejam os próprios moradores que vem aqui pra trabalhar, mas não permanecem. Nada permanece. Nada se aprofunda. As conversas, as trocas, as relações são instantâneas e superficiais. Você vê uma pessoa uma vez, e muito dificilmente a vê de novo. Tudo é transiente, e é muito difícil se conectar, principalmente quando metade está no celular tentando se conectar pelo tinder e a outra metade se “conectando” por meio de curtidas e compartilhamentos.

Digo isso, em boa parte, porque só estou aqui há um ano. E entendo que com o passar do tempo, você encontra o seu nicho, os rostos antes estranhos passam a ser familiares. Já existem algumas carinhas que eu reconheço nas corridas matinais, no metrô indo pro trabalho. Mas conexões com pessoas, pessoas que não são mera companhia, mas pessoas que mudam seu humor, que mudam quem você é e quem quer ser, que trocam opiniões, reflexões de mundo, são poucas.

Não quero dizer que em um ano aqui não tenha feito amigos. Muito pelo contrário, conheci pessoas incríveis com as quais espero estar conectada, mesmo de longe, quando eu voltar. E diferente de Brasília, existem outras formas de conexões e de contato que eu estabeleci aqui, como sorrisos a desconhecidos na rua, conversas aleatórias de madrugada no metrô, experiências gastronômicas de diversos países. São também conexões, trocas, apesar de instantâneas e passageiras como meu tempo aqui.

Sobretudo, o tempo longe tem me conectado mais a mim mesma, às minhas atitudes, aos meus relacionamentos. Numa cidade com oito milhões de pessoas, onde ao menos meio milhão está te prensando no vagão do metrô, como é que conseguimos encontrar paz para refletir? Numa cidade tão acelerada como essa, onde tudo está acontecendo ao mesmo tempo, como que nos freiamos, que nos acalmamos?

De alguma forma, tenho conseguido, nos últimos meses, usar a cidade como pano de fundo pra me conectar ao que importa pra mim. Aos meus amigos e família, que moram no Brasil. Aos poucos amigos que me são caros aqui, às minhas leituras, às músicas que eu gosto, às minhas visões de mundo. Sinto que quando estamos conectados com nós mesmos, com nossas origens, com nosso eixo, fica mais fácil nos conectar aos nosso redor. E acho que depois de um ano morando aqui, onde não estou mais ansiosa pra fazer tudo e conhecer todos, em mergulhar de cabeça, posso, com calma, ir sentindo onde dá pé.

E que venha o segundo.

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