Histórias sopradas: as grandes aventuras de Genifer e Timtim

Mãe e filho percorrem quase 20 mil quilômetros pelo Brasil procurando novas vivências a bordo de um motor-home

Timtim ajuda a mãe com as apresentações // Fotos: Pedro Braga

A sintonia entre mãe e filho transborda por todos os detalhes da casa sobre rodas. Logo na entrada, na porta, as pequenas mãos de Timtim, de três anos, estão pintadas. Lá dentro, uma casa completa. Cozinha, sala, quarto, banheiro. Um lar. As paredes internas são preenchidas por cores e pelas recordações de momentos vividos pela dupla. Do lado de fora, um veículo revestido de madeira, com flores desenhadas pelo seu entorno e bandeirinhas penduradas sobre a janela. O que seria pouco para alguns é mais que o suficiente para a família.

Genifer Gerhardt, 32 anos, e Valentim Expinho Gerhardt, de três, viajaram por 17 dos 26 estados brasileiros: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Assim, Timtim e sua mãe conheceram as cinco regiões do Brasil. A rota durou cerca de um ano e chegou a quase 20 mil quilômetros, 19.500 quilômetros, para ser exato.

Neste caminho, a dupla viajou escutando pequenas histórias. “De que Brasil é esse que a gente fala?”, questiona a artista Genifer. Ela complementa: “Me interessa o todo.” A partir disso, a viagem se tornou uma colheita de vivências, para encontrar novos rostos a serem retratados por ela, uma busca da realidade daqueles locais. “Olhei a fundo e vi que não conhecia. O que me contaram sobre lá era escasso, trazia ora piedade, ora tristeza. Ora fome, ora seca. Opa. Havia algo errado aí, então, porque a gente não é só feito disso, né? O que então lá habita? Para além da seca ou da fome…”.

O ofício de Genifer, isto é, sua missão de contar as histórias, surgiu com a vontade de mostrar essas vidas. A mãe de Timtim explica que não deseja falar em nome de outras pessoas, mas sim mostrar o que vê de bonito no mundo.

“Sempre escolho: o que quero pulsar. A gente vibra tanta coisa, o que queremos pulsar? O que queremos soprar? Só acho que precisamos estar atentos, porque a gente joga pro universo e isso vai, feito onda. Vai e vem, maré. Há um fluxo, não enxergamos, mas há. O que sopramos? O que escolhemos soprar?”.

A viagem com o filho não é a primeira de Genifer. Em 2009, ainda sem o motor-home, a mãe de Timtim já havia percorrido por muitos lugares do país, viajando de ônibus. Ela conta que sempre gostou de viajar sozinha. De mochilão, começava a perceber a oportunidade de conhecer pessoas dessa forma. “Quando se está só ocorre algo, a gente se abre para o mundo porque não tem ninguém pra comentarmos sobre o almoço, a vida, o sol, a sombra… e a gente começa a se abrir para que este espaço seja ocupado por qualquer pessoa. E qualquer pessoa é qualquer história. E qualquer conto é qualquer nobreza, porque é. Então, nunca se está mais acompanhada do que quando se viaja sozinha”.

Sempre em busca de povoações, escolhidas a dedo, a viajante se realizava ao encontrar cidades pequenas, pois existia uma possibilidade maior de interação com os habitantes do local, que a acolhiam e ofereciam seus lares, em troca da sua arte, apresentando-se como palhaça e bonequeira.

Depois de muito perambular pelo Brasil e ouvir pequenas histórias, Genifer tomou o caminho de volta para Porto Alegre. Quando parou, refletiu sobre tudo o que havia vivido durante seu trajeto até o Rio Grande do Sul. “Estava encantada com o que eu tinha visto, com as pessoas em lugares distantes dos grandes centros e com a humanidade que encontrei nas pessoas a ponto de reconhecer que havia algo muito comum em tudo, embora fosse com víveres totalmente diferentes, com culturas diversas, havia uma coisa que nos ligava muito.”

Genifer explica que a humanidade é o que une a sociedade enquanto bichos, que todos ardem pelos mesmos desejos, impulsos e anseios.

“Me encanta esta união porque no fundo somos iguais à senhorinha mais pobre, do vilarejo mais pobre do país. Iguais. Às vezes há um exterior repleto de injustiças, e é duro ver, mas se trata também de ver mais no fundo da retina. Ver gente. E aí se percebe que sofremos igual por amor, vibramos igual pelo que nasce, choramos igual por solidão ou silêncio ou pelo que morre ou precisa morrer, dentro e fora da gente. E quando a gente se vê igual, se reconhece em alegria e lágrima… a gente simplesmente vê que pulsa no mesmo tom. E sabe o que ocorre? A gente dilui o preconceito de achar que é melhor ou pior que aquele ser humano ali em frente.”

Na Capital gaúcha, em 2013, nasceu seu filho Timtim. Mesmo com o filho, a vontade de viajar permanecia, queria conhecer outras vidas, viver outras histórias, queria mais encantamentos e pequenos detalhes na vida. Desde quando Valentim era pequeno, Genifer percebia que o filho a refletia. “Feito sombra, a maternidade está aí também pra nos mostrar a dor do que não sabemos que nos habita. Do que me habita e galopa também em esquecimento, sombra minha mesmo, dor até. Demorei a ver isto com clareza, que ele me refletia. Era retrato meu, do meu íntimo. Isso com bebês é muito palpável, eles adoecem com tristeza de mãe (independente do quê causa a tristeza). Coisa assim, funda mesmo.”

As histórias conhecidas por Genifer, formada em Artes Cênicas, se transformaram em arte. Inspirada nas pessoas que conheceu durante sua primeira viagem, em 2009, a artista produziu pequenos bonecos, para, depois, representá-las em um teatro em miniatura. Genifer, com a ajuda de Timtim, começou o seu projeto, chamado Brasil Pequeno Itinerante, um espetáculo andante com histórias reais apresentadas nas mãos de quem se aproxima. Timtim, seu ajudante, auxilia a mãe a contar histórias com os bonecos.

Com duas pequenas gaiolas penduradas nos dedinhos, Timtim, atento, repete, aos poucos, as palavras da sua mãe, que interpreta o pequeno boneco do seu Agripino:

“Menina, é estranho mesmo, mas vou lhe dizer, que tem bicho e tem gente que não suporta a liberdade, não sabe o que fazer com tanta imensidão, e fica voltando pra dentro das gaiolas da vida. Essa é a história do seu Agripino, de Itaguaçu da Bahia, é só isso e mais nada. E muito obrigada.”

O interesse em produzir bonecos em miniatura sempre existiu. Genifer explica que, para enxergar direito, quem quiser ver precisa chegar perto, para enxergar os pequenos detalhes que habitam nas pessoas. Os bonecos são feitos de biscuit, uma massa de porcelana fina. As articulações são feitas de diversos materiais, como fitas e alfinetes, permitindo que a artista tenha a movimentação necessária para representar. Cada história, isto é, cada personagem, leva cerca de dois dias para ser produzido. O roteiro, escrito por Genifer, emociona quem vê seu espetáculo, trazendo uma grande reflexão sobre a vida. “Representar as histórias, entender que ali tinha alguma coisa forte e querer soprar isso adiante”, salienta.

No último ano, Genifer ganhou um prêmio do Ministério da Cultura para retornar para as povoações que havia visitado em 2009 e contar as histórias que ouviu naquele ano. Com um sorriso no rosto, ela lembra das pessoas que estavam na plateia e viraram uma história contada. Ela explica que começava o teatro sem mencionar que os donos das histórias estavam ali, presentes na sua plateia. E, daqui a pouco, as pessoas se enxergavam em suas mãos, representados. “Eles se viam representados em lugar que normalmente não tem…. [representatividade]”, conclui, emocionada. A verba do prêmio durou cerca de dois meses, ainda no início da viagem com o filho. Apesar disso, a família seguiu adiante, buscando novas histórias em pequenos lugares, percorrendo 17 estados do Brasil.

Parceiro de Genifer de todas as formas, Timtim, lá no início da viagem, ainda com dois anos, se encaixou nos desejos da mãe. “Criança se adapta, se a gente está bem, eles também ficam bem.” A artista explica que foi um ano muito intenso para a dupla, que, agora, deseja ficar parada, entender tudo o que aconteceu. “Tanto com ele quanto com a viagem, eu entendi que eu precisava parar, brincar e só isso. Dar tempo às coisas”, lembra. A mãe explica que viajar com Valentim é a coisa mais desafiadora e encantadora que poderia viver. “Ele é uma criança e nela habita toda potência e amplidão. Tudo, ali, é possibilidade. E não há nada mais profundo que isto.”

Bolo de cenoura é o predileto no café da manhã de Timtim // Foto: Pedro Braga

A vida andante da família é comparada à metáfora que Genifer ouviu de outro viajante: “É como se eu estivesse atravessando uma estrada de noite. Eu só enxergo um pequeno pedaço iluminado pelo farol do carro, e deste pedaço que cuido bem. É por ali que sigo, por este pequeno chão. Neste pequeno zelo. Mas amanhece. E só aí olho para trás e vejo o longo chão que percorri. Estou do outro lado da estrada, longe, bem longe, e só agora começo a enxergar o tanto que andei.” Assim, a família segue. Agora, a dupla está em Porto Alegre, em uma cidade grande, o que foi difícil no início, pois estavam acostumados a permanecer em pequenas povoações, mas que ao reencontrar a família realiza eles.

“Eu estou em um processo de procurar não procurar, de tentar acalentar no presente, é um processo meu que já vem um tempo, de entender que é o agora e que eu não preciso sair correndo para alcançar algo ou pra viajar de novo, para isso, para aquilo. Eu preciso viver o agora, quando se está acelerado não dá tempo de pensar. Tô tranquila nisso, entendendo o tempo das coisas. Procuro viver o que é aqui e agora”, explica.
Genifer e Timtim durante o café da manhã // Fotos: Pedro Braga

A dupla, agora parada, mas sempre unida, transborda amor e cumplicidade. Timtim, colado na mãe, com seu pequeno tamanho já mostra a felicidade por estar ali, nos mais pequenos detalhes, dando gargalhadas contagiantes repletas de ternura. Sempre juntos.

-O que a gente faz?

-A gente coloca na colher!

-Depois o que a gente faz?

-A gente coloca muito pouquinho. E daí, eu seguro a mão, e daí hummmm…Tem gosto de remédio!

Com a ajuda da mãe, sua parceira oficial, Timtim toma seu xarope para gripe.