Guia de cinema indiano para iniciantes
Cinema indiano não é só Bollywood
Bollywood é o mainstream do cinema indiano. A Índia possui diversas etnias e 28 línguas oficiais (da última vez que chequei). Cada cinema regional possui seus principais atores, músicos e estéticas diferenciadas que correspondem à cultura regional.
O cinema bollywoodiano tem como capital Mumbai e como língua principal o hindi ou hinglish (mistura de hindi com inglês). Outros cinemas regionais famosos na Índia são o cinema Tamil, Telugu e Marathi. Mas a lista é longa, existe cinema Bengali, Malayalam, Kannada, Punjabi e por aí vai.
Bollywood bebe da fonte de todos esses cinemas regionais e é comum que estrelas regionais muito famosas sejam “promovidas” à Bollywood e também que grandes filmes regionais sejam adaptados para se tornar um filme Hindi.
Considerando isso, eis o meu extenso guia para quem quiser se aventurar no cinema indiano. Links para trailers incorporados nos títulos. Mas talvez não adiante muita coisa devido a falta de legendas.
Um clássico para começar:
Rang de Basanti (2006):
Uma cineasta independente britânica encontra um grupo de universitários para compôr o elenco de um filme sobre freedom fighters no final do período colonial indiano. Os estudantes que viviam personagens históricos revolucionários se envolvem de fato na luta política após a morte do noivo de uma das suas amigas. Um filme que questiona a liberdade no pós-independência e o legado dos movimentos de independência.
Comédias:
English-Vinglish (2012)
Filme que marcou a volta de Sri Devi, uma das grandes atrizes indianas, às telas. É a história de uma dona de casa diminuída por seus filhos e marido por não falar inglês. Em uma viagem para os EUA para visitar parentes, ela aproveita para fazer um curso de inglês escondida da família.
Para quem não sabe, o ensino de inglês só foi regulamentado na Índia em 1966, como parte do esforço de alfabetizar o país no pós-independência. Com as diversas línguas e dialetos no país e o costume de educar menos as mulheres que os homens, o drama da personagem de Sri Devi é algo ainda comum na Índia de hoje. É um filme lindo sobre empoderamento (da mulher) através da educação. Em termos de estilo e história, seria equivalente a Espanglês (também conhecido com “o único filme do Adam Sandler que presta”)
Quick Gun Murugun: As desventuras de um caubói indiano (2009)
Com esse título em nem preciso explicar muita coisa. A comédia trash fala de um cáuboi indiano, que assassinado pelo dono de uma rede de fast-food não-vegetariana, volta do mundo dos mortos…
DE. CUECA. NO. MEIO. DE. MUMBAI.
Depois disso ele continua sua missão de defender o vegetarianismo e a comida caseira na Índia. É tão tosco que é bom. E ainda conta com uma cena romântica que só seria possível no cinema indiano.
https://www.youtube.com/watch?v=rej90v2Pf0k
Um indie para aquecer o coração (e outro pra destroçar):
Dabba (2013)
É a história de um homem viúvo e uma dona de casa se conhecem por causa de um erro no serviço de entregas de dabbas. Eles começam a se comunicar através de bilhetes nas “quentinhas” e constroem uma relação que os leva a questionar o rumo de suas vidas. O elenco é excelente: Nimrat Kaur (Homeland, 4ª temporada) e Irfan Khan (As Aventuras de Pi). Um ótimo filme para entender mais da cultura e cotidiano da Índia fugindo de orientalismos. De bônus, é um filme delicado e tocante, desses que quando acaba deixa um apertozinho no coração. Ah! E não tem música para você que tem nervosinho de musical, hehe
Parzania (2007)
O filme é inspirado em acontecimentos reais: os ataques a mulçumanos no estado do Gujarat, oeste da Índia, em 2002. No filme, Parzan, filho de um casal em uma das comunidades violentamente atacadas por hindus, some no meio do conflito. Prepara o lencinho que esse é pros fortes. Vale também uma pesquisa sobre o conflito.
O atual primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi foi considerado cúmplice dos eventos de violência que duraram cerca de 3 meses. Na época, ele era chefe de estado do Gujarat (o equivalente a governador) e teria orientado a polícia e governantes a incitar a violência e teria fornecido listas de estabelecimentos de propriedade mulçumana aos revoltosos. Ele foi absolvido em 2012 e eleito primeiro-ministro em 2014.
#Agoraéquesãoelas (desi edition) ou Vai ter feminismo em Bollywood sim!
Queen (2013)
Uma moça indiana de família tradicional, prometida para casamento… é abandonada no altar. Mesmo assim, ela resolve viajar em lua de mel sozinha e conhece uma indiana que vive em Paris e é mãe solteira. O filme é divertido e leve, a personagem principal cativa por falar sobre uma mulher que descobre que ser mulher não é ser o que nos ensinam ser “coisa de mulher”.
Margarita with a Straw (2015)
Uma jornada de descoberta da sexualidade de uma jovem universitária portadora de paralisia cerebral. Fala sobre capacitismo e homossexualidade sem apelar pro dramalhão. Personagem lindamente interpretada por uma das maiores vozes do feminismo na indústria cinematográfica indiana, Kalki Koechlin (vejam esse e esse vídeos dela sobre feminismo). Aliás, o filme anterior (Queen) também é interpretado por uma atriz assumidamente feminista — Kangana Ranaut. A irmã da atriz foi vítima de um ataque de ácido, forma de repreensão de mulheres que mostram comportamentos “socialmente condenáveis”.
Cinebiografias
Mary Kom (2014)
A primeira lutadora de boxe indiana a ganhar o campeonato mundial teve que enfrentar desafios para se tornar uma atleta de alta performance. Vítima de preconceitos por sua etnia e pelo seu gênero, o filme conta os obstáculos enfrentados por Mary Kom que deve disputar as Olimpíadas no Rio esse ano. Pryianka Chopra, apesar de não ser representativa da etnia de Mary Kom fez um ótimo trabalho na pele da pugilista.
Bhaag Milka Bhaag (2013)
É um filme emocionante para quem gosta de corrida. Fala sobre a história de Milka Singh, atletista indiano, o primeiro a quebrar recordes mundiais. A história do atleta se confunde com a história da formação do Estado indiano. Milka perde sua família nas lutas de separação entre Índia e Paquistão e vira um golpista na periferia de Delhi. Ele vira atleta após entrar no exército e desempenha um importante papel no desenvolvimento de relações de amizade entre ambos os países. Além da saga de um esportista, o filme aborda o impacto da crise de refugiados após a partição de Índia e Paquistão nos anos 60. A interpretação de Farhan Akhtar é genial e apesar do plot pesado, o filme tem seus momentos engraçados.
E tem até Shakespeare!
Golyion Ki Rasleela Ram-Leela (2014)
Adaptação do diretor Sanjay Leela Bhansali da obra shakesperiana de Romeu e Julieta. O drama clássico ganha profundidade com os figurinos e cores fiéis à cultura tradicional do oeste da Índia
Além disso, a história de torna muito mais tensa pois as famílias de Romeu (Ram) e Julieta (Leela) são inimigas por disputar a liderança do tráfico de armas local. De quebra, o Romeu renega os negócios da família para se dedicar ao seu próprio negócio: uma locadora de filmes pornô. Filmaço: o melhor dos cenários, das músicas e do drama que o cinema indiano pode oferecer.
Haider (2014)
Dirigido por Vishal Bhardwaj, Haider é uma excelente adaptação de Hamlet, o clássico máximo da obra de Shakespeare. Nessa adaptação, Haider (Hamlet) volta à sua cidade na Caxemira, após o desaparecimento de seu pai — médico que foi levado pelas forças do exército após prestar assistência a um líder separatista ferido. O resto é aquela história: o tio aparece cheio de mal intenção pra cima da mãe, Hamlet fica maluco e etc. A atuação de Shahid Kapoor no papel principal é magistral, o visual do filme não podia ser melhor (a Caxemira é conhecida como o paraíso do Himalaia) e a adaptação do drama de Shakepeare pra realidade política conflituosa da Caxemira foi uma bela sacada dos roteiristas.
Quem quiser baixar e assistir os filmes, todos são fáceis de encontrar no PirateBay. Para legendas em várias línguas, sugiro o Bollynook.