De três casas, duas tinham duchas.

Eu já morei em três casas do ano retrasado para cá. Duas delas tinham duchas: a primeira e a última.
Veja, eu não sou a definição de sentimental, mas todos precisamos descarregar as nossas frustrações. Há uns que bebem para isso, ou fumam, ou transam, ou se exercitam, ou todos os quatro.
Eu tomo uma ducha.

Eu sou a filha mais velha de pais separados Onde moro com a minha mãe há cinco pessoas que vivem no total (incluindo a que vos fala), ou seja, eu não tenho privacidade. Nunca. 
Todo momento há gente saindo e entrando dos quartos, dos banheiros e das salas (uma das salas não tem móveis suficientes para preencher o espaço). Eu esbarro e divido algum cômodo com alguém o tempo todo, menos no banheiro. 
Todas as minhas casas têm dois banheiros: um com chuveiro elétrico e outro com chuveiro normal, porque a energia é cara. 
Mas nem todas as minhas casa têm ducha.

É logico pensar que, se eu gosto tanto de tomar banho de ducha, sempre quando eu tiver a oportunidade eu vou tomá-lo, certo?
Errado.
Você não entende a saída que uma ducha te oferece.

Desde os meus 13 anos eu penso no futuro, no meu, e isso me traz muitas crises existenciais. 
E quando isso se aprofunda a ponto de eu deitar e olhar para o além ansiosa, eu tomo um banho bem quente. Primeiro, eu ligo o chuveiro e deixo as gotas escorrerem proporcionalmente ao registro quase fechado — isso faz com que o chuveiro esquente mais rápido e saia vapor; então, eu escolho a trilha sonora de "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" ou algum indie rock logo após desligar a lâmpada do banheiro e ligar a do celular, depois disso, é tudo tão... mágico e acolhedor.
Abro o registro e deixo a água morna correr em mim enquanto olho o reflexo da luz vinda da lanterna no teto, no espelho e na torneira. 
Aí tudo se alinha, tudo fica bem por um tempo. E quando saio do banheiro, o calor da capital onde moro já não é tão impactante quanto o aquecer da minha mente amansando pensamentos, e meu corpo sente frio.

Uma alma trespassada de dor não se resolve em água quente.

Geralmente quando uma casa tem uma ducha, ela fica do lado de fora; essa é de longe a maior qualidade que uma ducha pode ter.

Muito tarde da noite, tire a roupa e fique nu;
Leve uma toalha e um sabonete com cheiro de limão;
Fique de olhos fechados e abra o registro;
Primeiro sinta a água gelada, sinta o quão
vivo ainda tudo está; 
Ensaboe e olhe para
si, para a beleza de cada espuma e bolha te tocando;
Olhe para cima, para o céu.

A imensidão de coisas vivas que nos círcula o tempo todo é tão linda.

Há vezes que penso que algumas dores vão me matar — de amor ou de desgosto — , mas elas me fazem viver a oportunidade de olhar o céu debaixo d’água gelada que sai de um chuveiro de plástico barato enquanto meus pés tocam um chão rebocado de cimento envelhecido que vai amanhecer cheirando à limão.